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Contos de mentira

Contos de mentiraTalvez eu não tenha sido completamente sincero quando disse que aquele seria o meu último livro de contos por um tempo ao resenhar Ficção de polpa. A verdade é que estou em uma boa época para a leitura de contos, e crescentemente me apego a esta forma de expressão literária com a qual até este ano eu não tive muito contato real. Um pouco de costume aqui, uns experimentos ali, autores bons, autores nem tão bons, e vou me distraindo ao ler histórias menores, de uma só vez, várias pequenas experiências completas, em dose pequena, para contrabalancear o romance que lutei para terminar por dois meses e que em breve deve figurar em um post por aqui.

O alvo da vez foi o vencedor do prêmio Sesc de literatura na categoria contos em 2010: o livro de estreia de Luisa Geisler Contos de mentira, que chamou a atenção pela idade da autora (19 na época de publicação, 23 hoje) e por certa inovação em relação à linguagem utilizava, que escapa de uma simulação do já consagrado para investir em uma narrativa mais moderna e cinematográfica a partir de um jogo dinãmico de cortes e efeitos. (mais…)

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Uma verdade delicada

Uma verdade delicadaOs primeiros livros que eu li por vontade própria quando criança foram thrillers, talvez antes mesmo do termo ser cunhado como gênero de romance: a saudosa Coleção Vaga-Lume com suas dezenas de mistérios juvenis e assassinatos, escritos por autores nacionais e publicados em série, que eu emprestava da biblioteca escolar. Assim, até me estranho que depois disso eu nunca mais tive muito interesse por narrativas do tipo; seja o thriller, ou o clássico policial, até mistérios e suspenses. Tentando remediar essa deficiência, decidi dar um certo deslocamento e pegar um romance de espionagem, começando pelo ilustre autor de O espião que saiu do frio: John le Carré.

Para esta “reintrodução”, escolhi seu último livro, Uma verdade delicada, por alguns motivos: relativamente curto, capa bonita, e uma proposta que me interessou. Aborda alguns temas legais, como a moralidade ambígua da espionagem e da guerra, a corrupção dos programas de inteligência, e as questões do que é melhor para a nação ou moral individual. Entretanto, seu romance falhou em me prender, em me fazer com que me importasse com os personagens e com os acontecimentos da história, fazendo com que a experiência de leitura me deixasse decepcionado. (mais…)

Uma noite em Curitiba

Uma noite em CuritibaPercebo que um tema recorrente na literatura é a relação entre um pai e seu filho. Ou, melhor ainda, entre o filho e seu pai. Presente desde em obras como o já resenhado A invenção da solidãopassando mesmo por ficção considerada mais “de gênero” como Os filhos de Anansi, até a literatura clássica de Sófocles em Édipo… Talvez o arquétipo do filho contra seu pai, o embate de gerações, tenha muito a nos dizer.

Pudera! Temos grande material a ser aproveitados da relação: infância, possível rejeição, o período frágil da relação na criação paterna; a figura de autoridade, que é vista como ídolo e que é desconstruída na adolescência, que pode se desenvolver para uma amizade ou um embate; a quebra do convívio familiar, o confronto final entre a geração que vai e a que fica. O que foi, o que é, o que será, o que está batido, precisa ser renovado, e o impulso incontrolável por liberade que transfigura o comportamento. Quando o pai esbanja autoridade ou fama, então, torna-se quintessencial a ruptura, a fuga da sombra; deve-se aspirar pela libertação do titã que o precede, livrar-se dos grilhões de uma expectativa elevada. A figura do pai, do predecessor, torna-se importante não apenas no âmbito particular e íntimo, mas também na arte e, por consequência, na literatura. (mais…)

O general em seu labirinto

relato_16e_3_SAIDA_2Na onda das leituras de Gabriel García Márquez, O general em seu labirinto está entre os que ganharam uma versão com o novo (lindíssimo) projeto gráfico neste começo de ano, junto a Ninguém escreve ao coronel, resennhado há algumas semanas atrás. Este livro tem uma proposta semi-jornalística, semi-romântica que acaba em um livro que poderia se chamar de romance histórico. Este livro especificamente conta a história do El Libertador da América Latina, o general Simón Bolívar, figura que Gabo fez o favor de estudar por um longo tempo (passando inclusive pelas memórias em 37 volumes de um dos colegas militares do liberal).

Não bem como uma biografia – a história contada não é a de sua vida ou a de suas guerras, mas a do seu crepúsculo. Os últimos meses da vida do general (título pelo qual ele é tratado durante toda a duração do romance), a sua desesperança e o temor de ter todos os seus feitos e sonhos desfeitos a partir da sua morte. O retorno do general Santander, seu principal rival; o desmembramento da Grán Colômbia; a expatriação de seus inimigos exilados e o seu apagamento da história latino americana. É interessante a leitura feita tanto tempo depois do acontecimento da história real, quando já temos todas as respostas para os medos que o assolavam.  (mais…)

Ninguém escreve ao Coronel

coronel_SAIDA_2b_texto_novoMinha quinta leitura do Gabriel García Márquez, não estava esperando por uma história longa e complexa – até porque uma mera olhadela no livro não deixa espaço para tamanha especulação. Ninguém escreve ao coronel, um livrinho de noventa páginas, quase cem, conta uma história simples mas ao mesmo tempo carregada de significado, e, apesar de não ter me conseguido envolver como eu gostaria, eu reconheço o seu mérito em passar uma visão desejada do mundo por parte do autor.

Na não-sei-quão-famosa Escala de Idealismo vs. Cinismo na ficção, este provavelmente fica bem puxado para o segundo extremo. Um coronel anônimo, só chamado de Coronel por toda a história, lutou pelo seu país em uma das rebeliões (que seria depois retratada mais longamente na magnum opus do autor, Cem anos de solidão). Após a rendição do seu superior, e de todo o seu grupo, ele também é aposentado com promessas de uma pensão com a qual futuramente poderia pagar as suas despesas. A guerra acabou há cinquenta e seis anos, o seu nome saiu no processo como ganhador da bolsa há quinze, e todas as sextas o Coronel vai ao porto da cidade esperar a correspondência – é nessa semana que ele receberá a pensão. Mas ele não recebe nenhuma carta, não recebe a sua pensão, e ninguém escreve ao Coronel. E, sem a pensão, só pode viver quase que passando fome, com seus poucos pertences de outrora, a sua mulher (teimosa, mas carinhosa), e um galo de rinha que seu filho deixou para trás antes de ser fuzilado por distribuir panfletos subversivos.  (mais…)