A literatura em perigo

A literatura em perigoO ensino de literatura nas escolas acaba se tornando inevitavelmente um ponto de debate entre diversas áreas; pedagogia, a própria literatura, e até em alguns pedaços da produção editorial, tendo em vista que o tema  influi em muito na formação de novos leitores que virão a ser a futura base de consumidores de um profissional da área. É interessante acompanhar a perspectiva de um crítico literário, ainda mais do renome ao nível de Tzvetan Todorov, historiador e teórico responsável por trabalhos como O homem desenraizado. Este é um de seus pontos principais abordados no magro volume de A literatura em perigo, ensaio quiçá cáustico no qual temos diversos elementos — principalmente vistos em seu país de moradia, na França — que supostamente estariam matando a literatura.

O volume se abre com uma curta introdução à edição brasileira, na qual se faz um beve paralelo da situação nacional com os elementos que Todorov critica na formação e ensino da literatura contemporânea francesa. E, a partir de seu primeiro capítulo, começa a questionar estas tendências artísticas naturais — a hermetização da literatura em uma espécie de imanência que se fecha por si mesma, destacando-se da realidade sensível em uma suposta autossuficiência emancipatória que seria característica intrínseca da arte.

Segue-se e intercala-se uma pequena introdução história em referências aos formalistas e as tendências acadêmicas de certas épocas. Ora, são as academias tais que formam os que se tornarão os professores de literatura; portanto, o ensino superior acaba afetando o ensino dos jovens e adolescentes e resulta, segundo Todorov, em um crescente desinteresse juvenil pela arte literária. Se em primeiro lugar, ensinava-se elementos e contexto histórico e análise literária na escola, privilegiando-se os aparatos críticos sobre o conteúdo da obra, agora a obra é vista como independente de uma realidade, o criador seu Deus. Derivaria-se esta ideia de um suposto ideal da emancipação artística, quando a arte deixa de “servir a uma utilidade” para tornar-se objeto de contemplação. Faz-se um paralelo com a pintura, que sai dos vitrais da igreja (onde a arte era subordinada a uma utilidade, a da fé) para as exibições artísticas (onde a arte serve para a arte, apenas para a própria apreciação).

Não que Todorov seja partidário de uma utilitarização da literatura — que abomina, devido ao seu trauma com a literatura socialista da Bulgária, onde cresceu e estudou suas letras — mas defende uma valorização do relacionamento entre a obra e a realidade, através da qual pode efetivamente, com seus sentidos, afetar os leitores – que seria o seu propósito.

É através de uma genealogia da arte e sua relação com literatura que Todorov pode demarcar o que considera suas deficiências com o cenário acadêmico e escolar. Entretanto, sua exposição e ideias são de maneira que é visível que depende algo da subjetividade do leitor e crítico. Ao ler um capítulo de O homem desenraizado no começo do ano, ficou evidente para mim que Todorov é um crítico sem papas na língua. Demarcando as tendências atuais em niilismo e solipsismo, não teme ofender as sensibildades de seus colegas, mas é muitíssimo provável que encontrará rivais de ideias diferentes. Lembra-se que também é uma maneira de ver a literatura baseada não apenas nas próprias experiências, mas em uma concepção própria da visão do valor da literatura como arte e disciplina. Se o leitor por acaso varia em seu âmago no que concerne ao objetivo da literatura, provavelmente discordará de sua argumentação e eventualmente conclusões.

Mas é indiscutível que traça questões bastante interessantes que, apesar de serem voltadas à realidade francesa, também concernem ao debate literário brasileiro. O ensino da literatura, aqui feito através de uma curta abordagem histórica de séculos, movimentos e principais autores de determinados períodos, suscita discussões polêmicas a respeito de sua validade. Deveria ser o ensino de literatura feito através de uma visita às obras de fato, com um nível menor ou maior de utilização dos aparatos da crítica literária? Serviria a literatura como disciplina escolar para suscitar a criação de um leitor no aluno, ou deveria se preocupar de fato com o conteúdo programático da história da literatura portuguesa-brasileira? A distinção que Todorov faz, entre aprender sobre a disciplina (como, por exemplo, física) e seu objeto de estudo (como a história) se aplicaria no caso da literatura brasileira?

Aprendemos a sua história de maneira breve durante o ensino médio, mas sempre também nos é exigida a leitura do que é considerado ao menos parte do cânone literário brasileiro. O que, por sua vez, libera a contestação de alguns, já que rapazes e moças em seus quinze anos não estariam aptos a compreender as nuanças sócio-históricas da obra de Machado de Assis, por exemplo. Aí vem outra questão, sobre avaliações, que o autor também aborda: somos perguntandos sobre as questões superficiais da obra ou seu sentido de fato? Exemplifica com “somos perguntados alguns detalhes sobre a missão pelo Graal, mas não sobre o sentido mais profundo da missão”. Mas será que seria este questionamento pertinente?

Uma leitura curta e rápida, Tzvetan Todorov sucede em levantar alguns questionamentos pertinentes relacionados à natureza da literatura, seu objetivo e o jeito como é passado de geração em geração, além de sua ácida crítica às tendências atuais serem passíveis de provocar acalorados debates na esfera da crítica literária. Mas são questões que provavelmente nunca terão um consenso – no máximo, provocarão um saudável debate, que é sempre produtivo nesse maravilhoso mundinho das artes.

Tzvetan Todorov

Tzvetan Todorov


Ficha técnica

  • Tìtulo: A literatura em perigo
  • Título original: La littérature en péril
  • Ano de publicação: 2007
  • Edição lida: DIFEL, 2009. Tradução por Caio Meira
  • Número de páginas: 96
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