william gibson

Neuromancer

NeuromancerEm um dia qualquer, se por acaso ligarmos a televisão e a sintonizarmos a um canal fora do ar, veremos um imenso plano azul. Um azul infinito, forte e jovial que, se visto no céu, será o indicativo de um lindo dia ensolarado. Essa é uma daquelas críticas pontuais mais recorrentes a Neuromancer: o defasamento de sua frase de abertura, que hoje se tornou anacrônica. Em 1984, quando William Gibson publicava um dos clássicos da ficção científica, seu equivalente era aquele chuvisco eterno e barulhento que com certeza também já vimos em televisões mais antigas.

Edições recentes comumente abrem com um prefácio de Gibson reconhecendo, em uma espécie de mea culpa, a questão com a sua frase de abertura. Não deixa de comentar alguns progressos que em breve mudariam radicalmente a nossa visão do futuro, como a invenção do telefone celular, que falhou em inserir ou sucedeu em omitir em sua obra.

Talvez seja fútil ler uma história de ficção científica escrita há décadas apontando o que ela previu ou deixou de prever. Um escritor pode, ao escrever um futuro não tão distante, procurar as modas tecnológicas em voga e extrapolá-las, imaginado que elas são o embrião de uma revolução científica. Em uma espécie de futuro mais distante, pode perfeitamente tirar soluções e respostas do puro ar. É mais fácil prever 2025 do que 5025. E, por outro lado, pode simplesmente procurar as mudanças que prefere para criar um eixo dramático mais interessante, mais divertido. A FC, afinal, busca lidar mais com a reação da humanidade à mudança tecnológica do que com a tecnologia de fato, salvo algumas exceções. (mais…)