Mês: março 2014

Nós, os deuses

19543192Quando fiquei sabendo que teríamos uma nova trilogia do Bernard Werber no Brasil, as minhas expectativas foram lá ao alto. A trilogia d’O Império das formigas me encantou com uma originalidade e vida que poucas obras atingiram. Apesar de considerar o terceiro livro daquela um pouco enfadonho na parte se tratando de humanos, não deixa de ser de muitas maneiras original. A ideia de se narrar as formigas de maneira não antropomorfizada, mas de formas biologicamente corretas foi algo, para mim, inesperado, e mudou de N formas o jeito com que eu assisto a “Vida de Inseto”. Com uma voz limpa, mas instigante, uma leitura rápida e a incapacidade de largar os livros por um longo período de tempo, nada mais natural que esperasse uma continuação destas características nesta nova trilogia lançada pela Bertrand Brasil: O ciclo dos deuses, cujo primeiro expoente é Nós, os deuses.

Ainda fico ligeiramente reticente, pois não sei apontar exatamente o que achei do livro. Gostei, e reencontrei vários pontos formais, de voz, de leveza e de temas que achei tão legais em As formigas. Mas acho que esta nova série não conseguiu me captar de maneira tão irremediável – não, pelo menos, neste primeiro volume. Talvez seja resultado da mudança temática e de enredo. Talvez o que me encantasse em As formigas não fosse propriamente Werber, mas as próprias formigas. Mas isso não faz de Nós, os deuses uma narrativa desprezível.

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Dublinenses

857799354X_bmUm daqueles casos em que eu me pegava pensando que este livro seria razoavelmente bom e acabei me surpreendendo. Peguei a edição de bolso que tenho aqui em casa, de 190 páginas, bem fina e que de fato cabe no bolso, para ler nas manhãs de um metrô lotado. Sendo um livro de contos, não muito longos e nem cansativos, julguei que fosse a minha companhia perfeita para estas manhãs na lata de sardinha urbana.

Só não esperava o quanto eu acabaria gostando do livro. Dublinenses de James Joyce é, basicamente, um punhado de contos – quinze, para ser mais exato – a respeito de naturais e moradores de Dublin, vivendo as suas vidas, sofrendo os seus dilemas, arrependendo-se de atos que deveriam e sendo pessoas de verdade. Há uma espécie de ciclo de vida dos dublinenses retratado no livro. Os primeiros contos são sobre a infância, do ponto de vista de crianças. Depois, os próximos vão para a adolescência, abordando alguns dilemas juvenis (fugir com o amor, a farra de garotos promissores). Após isso, os adultos e seus problemas (desilusão conjugal, dívidas), e por fim a idade avançada. O último conto e o mais longo, nomeado Os mortos, fecha a coleção com um conto sobre a morte, o que acaba até fechando poeticamente os temas do livro (haja visto que o primeiro conto, narrado do ponto de vista de uma criança, é sobre, também, a morte de uma figura quase paterna).  (mais…)

Flatland

433567Flatland, de Edwin A. Abbott,  é um livro esquisito. Quando eu li a sua sinopse pela primeira vez, já imaginava algo que parecia criativo, simplesmente pela sua proposta pouco ortodoxa. O seu protagonista vive em uma terra plana, de duas dimensões, com todas as consequências que isso acarreta. Ele é um quadrado, e na primeira parte do livro nos explica as dinâmicas físicas e sociais de sua terra.

Como, por exemplo, há um sistema quase estamental onde polígonos com mais lados são considerados mais inteligentes e, portanto, mais importantes; como sobre os triângulos isósceles são usados como operários e soldados, pelo seu ângulo pequeno que permite uma ponta mais, bem, pontiaguda. Quanto maior o seu ângulo, maior o seu cérebro. E, como você não pode ver nada além de uma linha a sua frente (afinal, eles não se podem ver como polígonos em suas áreas pois isso implicaria a existência de uma terceira dimensão), eles só podem supor através de algumas artes como cálculo, ou o vulgar “toque”, para sentir as arestas e vértices de outro polígono e, através do cálculo do ângulo, presumir o seu número de lados e portanto a sua posição na escala social. (mais…)

A invenção da solidão

5901768Observação: Mais uma vez, este foi feito para um trabalho da faculdade e pode destoar de estilo, voz, e presença de spoilers. Desta vez, é apenas um rascunho, e provavelmente será alterado até o mês que vem, quando eu tiver de entregar a versão final.

A invenção da solidão é, antes de um, dois livros. Convenientemente dividido em ambas as partes, a experiência, as vozes, a estrutura e os sentimentos suscitados por Retrato de um homem invisível são algo diferentes do que o seriam por O livro da memória. Entretanto, a união, não só temática, mas também em honestidade apresentadas por seu autor, Paul Auster, em ambos, faz do volume em duas partes um livro duplo.

A apresentação feita de Sam Auster por seu filho, Paul, pouco tempo após o final de sua vida, acaba na construção de um retrato comovente. Há a constante preocupação de não se construir uma imagem unilateral — e mais, superficial — de um homem que parece, senão caricato, no mínimo anedótico. Sua insistência em guardar o dinheiro (“como segurança”), os seus hábitos de usar roupas de segunda mão, barganha como meio de vida, a eliminação das distinções entre produtos, sua relativização de tudo através do mínimo denominador comum do preço. Fácil seria entregar-se à tentação de deixar estes aspectos falarem por si só, criarem a imagem perfeita do sovina. Assim como seria fácil, por sua distração, sua solidão, sua barreira de si contra o mundo, pintá-lo como o pai ausente por excelência. (mais…)

O general em seu labirinto

relato_16e_3_SAIDA_2Na onda das leituras de Gabriel García Márquez, O general em seu labirinto está entre os que ganharam uma versão com o novo (lindíssimo) projeto gráfico neste começo de ano, junto a Ninguém escreve ao coronel, resennhado há algumas semanas atrás. Este livro tem uma proposta semi-jornalística, semi-romântica que acaba em um livro que poderia se chamar de romance histórico. Este livro especificamente conta a história do El Libertador da América Latina, o general Simón Bolívar, figura que Gabo fez o favor de estudar por um longo tempo (passando inclusive pelas memórias em 37 volumes de um dos colegas militares do liberal).

Não bem como uma biografia – a história contada não é a de sua vida ou a de suas guerras, mas a do seu crepúsculo. Os últimos meses da vida do general (título pelo qual ele é tratado durante toda a duração do romance), a sua desesperança e o temor de ter todos os seus feitos e sonhos desfeitos a partir da sua morte. O retorno do general Santander, seu principal rival; o desmembramento da Grán Colômbia; a expatriação de seus inimigos exilados e o seu apagamento da história latino americana. É interessante a leitura feita tanto tempo depois do acontecimento da história real, quando já temos todas as respostas para os medos que o assolavam.  (mais…)