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No zênite

no zeniteUma das minhas experiências de leitura mais demorados do ano, mas não é por isso que No zênite deixa de ser belo. O romance é assinado pela escritora vietnamita Duong Thu Huong e perpassa anos em suas mais de quinhentas páginas, através de uma escrita cuidadosa e paciente, que faz questão de deixar os acontecimentos se desdobrarem com a delicadeza e melancolia de uma pessoa no fim da vida.

Tal pessoa é Ho Chi Minh, líder e idealizador da revolução comunista que dividiu o Vietnã em dois durante a época da Guerra Fria. Aqui ele é chamado apenas como o “Presidente”; é pintado com certas liberdades o retrato de um homem desiludido com o que ajudou a criar, com as pessoas com as quais se cercou, e com as decisões de vida que resultaram na sua profunda solidão. Figura central no romance de Thu Huong, o Presidente, em seus anos finais de vida, está isolado em uma construção próxima a um templo localizado em uma montanha afastada dos centros urbanos, próxima a uma aldeia de lenhadores e deixado para definhar enquanto é cuidado pelos soldados de seu exército.

Lá lhe colocaram com as desculpas de que está frágil e de que sua vida é preciosa para o povo do Vietnã, e por isso ele deve se submeter a um regime de isolamento e reclusão conforme a velhice desce sobre sua alma. Seu tempo para pensar, somado aos acontecimentos de sua vida passada e as mensagens e visitas que ainda recebe de seu único amigo, fazem com que seu ser desiludido afogue-se em reflexões sobre o que deveria ter feito de diferente em sua vida. (mais…)

Caçando carneiros

Caçando carneirosÉ complicado imaginar um mundo no qual tivéssemos que aprender todos os idiomas para que pudéssemos ter acesso aos tipos mais diversos de literatura. Apesar de ser isso o mais recomendado — afinal, a tradução nunca é o equivalente perfeito, no idioma vertido, da obra original — a aproximação / adaptação que conseguimos com uma tradução bem feita e editada já nos auxilia no contato com o produto de culturas diversas. Assim possibilita que nós, brasileiros, tenhamos acesso à literatura árabe, francesa, russa, nigeriana ou, enfim, japonesa. Portanto, não é segredo o papel fundamental da tradução literária na acessibilidade do leitor para com a literatura mundial.

E é graças a este excelente ofício pude ter acesso às obras do Haruki Murakami, influente escritor japonês que ganha uma reedição do previamente esgotado Caçando carneiros, relançado agora no começo de julho pela Alfaguara. A editora, responsável pelo lançamento dos demais livros do autor, parece ter adquirido os direitos dos que foram editados previamente pela Estação Liberdade, este e sua continuação, Dance, dance, dance. Após encerrar a leitura de todas as obras de Murakami editadas pela Alfaguara, em meados do ano passado, fiz uma tentativa de ler uma de suas obras com tradução para o inglês, e que ainda não estava para sair aqui no Brasil: South of the Border, West of the Sun. Entretanto, acabei não gostando muito da experiência. Não sei afirmar se é realmente o romance que falhou em me agradar ou se foi a tradução que, tão diferente, falhou em me capturar como o faz as versões de língua portuguesa. (mais…)

O bigode / A colônia de férias

O bigode & A colônia de fériasDuas novelas em um volume, O bigode A colônia de férias não parecem, na leitura da orelha, histórias relacionadas. Temi que tivessem jogado duas histórias do autor, Emmanuel Carrère, em um único volume. Após a leitura, entretanto, quaisquer dúvidas são dissipadas: há uma unidade temática em ambas. É perceptível que a paranoia, o trauma, a descida em um monólogo interno de um personagem desamparado, são elementos que formam entre os dois uma espécie de união que funciona muito bem.

São histórias de terror e suspense psicológicos, voltadas para a interioridade de seus protagonistas. Angústia definiu a minha experiência com O bigode. A proposta da primeira novela, curiosíssima, se transforma em um conto de “dúvida” até o seu medonho desfecho. Começa com a pergunta do protagonista à sua esposa, Agnès: “o que você diria se eu raspasse o bigode?” Ele cuida de seu bigode há dez anos, desde antes de se conhecerem. Em chiste, ela lhe responde que seria bacana, e ele, sem levar muito a sério, desafia sua piada ao remover de fato o bigode. O problema é que, ao o ver, Agnès não exibe reação alguma. Ao ser questionada, está confusa: ele nunca usou pelo facial algum. (mais…)

Lituma nos Andes

Lituma nos AndesEssa foi uma leitura que não me conquistou de primeira. Comecei a ler Lituma nos Andes em setembro do ano passado, mas parei logo no final do primeiro capítulo, quando recebemos pelo correio Kafka à beira-mar e eu resolvi dar prioridade para a outra (tampouco curta) leitura na qual eu já tinha mais interesse.

Como já se passavam mais de três meses desde a última vez que eu abria essas páginas, resolvi começar de novo. Mais uma vez, o livro demorou a me conquistar, a leitura a engatar. Não foi antes de quase metade da leitura que Lituma nos Andes conseguiu me prender, mas quando o fez…

A história narra a estadia do cabo Lituma e seu imediato, Tomas Carreño (também chamado de Tomasito ou Carreñito, dependendo do personagem), no posto de Naccos nos idos dos Andes, durante a década de 80. Três desaparecimentos chamam a atenção das duas autoridades, que suspeitam que o caso esteja relacionado à revolução dos “terrucos” do Sendero Luminoso (o Partido Comunista do Peru).

Ao mesmo tempo, temos algumas narrativas diferenciadas entrando e se permeando no volume: a história de Carreño sobre o amor que perdeu algum tempo antes de ser mandado aos Andes, que o assombra até hoje; a história de um exótico-quase-paranormal casal de moradores daquele vilarejo, contado do ponto de vista da mulher; e algumas histórias de figuras que acabam topando com os senderistas durante algum assunto que tinham a resolver nos Andes. (mais…)