Geração Subzero

Geração SubzeroO que chama a atenção, no primeiro contato com Geração Subzero, é a sua proposta que, se não é polêmica, é pelo menos um tanto ácida em seus propósitos. O organizador da autodeclamada “anti-antologia”, Felipe Pena, já afirma logo na primeira linha de seu prefácio introdutório: “Boa parte da literatura brasileira contemporânea presta um desserviço à leitura”. Com a premissa de expandir os horizontes da literatura brasileira às obras com valor de entretenimento sobre o julgamento estético perpetrado pela crítica literária, não é de se surpreender que empreendesse nesta empreitada os nomes que estão mais na boca dos leitores: Eduardo Spohr, André Vianco, Thalita Rebouças, entre outros.

A coletânea de “20 autores congelados pela crítica, mas adorados pelos leitores” não pretende ser uma antologia, diz Pena, pois não é uma seleção dos melhores ou mais representativos de uma geração, como definiria o termo, mas um apanhado de autores que fazem carreira não nas graças da crítica literária formal, mas da massa leitora, como diz, “leiga”. É sem dúvida um debate extenso e já de longa data a relação algo dicotômica entre a “literatura comercial” e a “alta literatura”, com partidários de um lado, de outro, e aqueles que pensam de um jeito e falam de outro temendo ser rotulados ao ir contra a norma vigente, como ressalta o organizador.

Talvez a própria construção dessa dicotomia seja, em partes, um equívoco: quando estamos falando de entretenimento, desloca-se para um campo estritamente subjetivo. Pessoas podem se entreter com diferentes tipos de literatura. Entretanto, deixa claro Pena que o objetivo é entreter “o leitor”, democraticamente, referindo-se à maioria enquanto o gosto pela literatura considerada alta e tomada como relevante pela crítica seja de um aspecto mais elitizado. 

Se faz uma crítica ácida ao cenário atual da literatura brasileira, “hermética, chata, e besta”, o faz tomando o cuidado de nos lembrar que é em relação ao cenário de leitura e não ao conteúdo estético da obra. Mas é a partir disso que seleciona os vinte escritores que nos dariam uma segunda opinião sobre do que se trata a literatura brasileira, selecionando representantes dos “gêneros menores” (ficção especulativa, policial, aventura…) para nos mostrar que nem só de “alta literatura” vive o leitor brasileiro, e que uma cultura hermética dos nossos livros nacionais aliena grande parte da massa leitora.

Entretanto, ao condenar em trechos coisas como “academicismos e jogos de linguagem”, parece estar menos propagando uma abertura de leques de opinião e mais perpetuando um novo modelo a substituir o antigo, o da crítica. Talvez também não seja coerente, pois alguns mesmos contos da coletânea pisam em certos terrenos que poderiam ser considerados estes mesmos experimentalismos com a linguagem, e que não detraem de forma alguma da experiência de leitura. Muito pelo contrário, agregam ao valor do conto e os deixam mais instigantes em sua leitura, contra um modelo que talvez seja apenas um “mais do mesmo” narrativo.

Sobre a proposta de Geração subzero, ainda em relação também à sua contraparte da Granta, creio que Vinicius Justo conseguiu expandir no assunto muito bem neste texto, o qual me parece bem lúcido e que li durante a minha degustação da antiantologia. Isso dito, fica bem claro o objetivo principal por trás da motivação “ideológica”: apresentar os autores que, a despeito de uma falta de reconhecimento formal por parte da crítica literária, sabem e podem contar boas histórias, com enredos ágeis, personagens cativantes e que efetivamente motivam o leitor a se engajar em sua leitura.

 Por mais que possa ser esta uma proposta válida, apesar das ressalvas levantadas, sinto que o resultado final da aglomeração de contos ficou, no mínimo, inconstante. Temos variedade de estilos e gêneros, cada qual seguindo a proposta da coletânea, mas, possivelmente até mesmo por estes critérios, acabemos com um resultado que varia do muito legal ao insatisfatório. Os autores sendo escolhidos por sua relevância com o público leitor, e com vários públicos tendo várias preferências, e como até mesmo o organizador admite não ter deixado seu próprio crivo interferir muito na seleção (adotando contos que não lhe agradam também pessoalmente), dificilmente teríamos um volume final com um estilo para lá de regular.

Essa variedade me atingiu: adorei alguns dos contos, mas outros me foram difíceis e a alguns acabei indiferente. Assim como disse a sensatez do organizador, vou me abster de comentar longamente os que não me agradaram por seus N motivos, que incluíram, na maioria das vezes, uma abundância de clichês narrativos e de caracterização, e situações meio batidas. Eu entendo que a proposta de Geração subzero é justamente o entretenimento despretensioso, mas isso não exime seus participantes de uma busca por, quem sabe, alguma originalidade ou tentativa de destacar-se. E nos que me desagradaram o problema é justamente com uma repetição de estereótipos.

Talvez simetricamente, os que mais me agradaram são os que, em forma e conteúdo, desbravaram algum terreno mais difícil, nos quais se incluem, mas não se limitam a “O índio no abismo sou eu”, de Luiz Bras (provavelmente o meu favorito dos vinte), “O escritório de design probabilístico”, de Delfin. São contos que também não se deixam prender por uma limitação estética e também arriscam um pouco em seus temas e linguagens, como estes e mais (“Um chá com Alice”, de Eric Novello, e “A lua é uma flor sem pétalas”, de Cirilo S. Lemos, me vêm a mente), que justamente acabam se tornando os lírios da coletânea ao sair de um terreno de narrativa mais confortável. E dá para mostrar que dá para ser literário sem ser pretensioso, ou sem buscar o entretenimento por entretenimento, como às vezes a proposta de Geração subzero parece implicar.

Felipe Pena

Felipe Pena, organizador


Ficha técnica

  • Tìtulo: Geração subzero: 20 autores congelados pela crítica, mas adorados pelos leitores
  • Ano de publicação: 2012
  • Edição lida: Record, 2012
  • Número de páginas: 324
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