Uma verdade delicada

Uma verdade delicadaOs primeiros livros que eu li por vontade própria quando criança foram thrillers, talvez antes mesmo do termo ser cunhado como gênero de romance: a saudosa Coleção Vaga-Lume com suas dezenas de mistérios juvenis e assassinatos, escritos por autores nacionais e publicados em série, que eu emprestava da biblioteca escolar. Assim, até me estranho que depois disso eu nunca mais tive muito interesse por narrativas do tipo; seja o thriller, ou o clássico policial, até mistérios e suspenses. Tentando remediar essa deficiência, decidi dar um certo deslocamento e pegar um romance de espionagem, começando pelo ilustre autor de O espião que saiu do frio: John le Carré.

Para esta “reintrodução”, escolhi seu último livro, Uma verdade delicada, por alguns motivos: relativamente curto, capa bonita, e uma proposta que me interessou. Aborda alguns temas legais, como a moralidade ambígua da espionagem e da guerra, a corrupção dos programas de inteligência, e as questões do que é melhor para a nação ou moral individual. Entretanto, seu romance falhou em me prender, em me fazer com que me importasse com os personagens e com os acontecimentos da história, fazendo com que a experiência de leitura me deixasse decepcionado.

Um membro do Ministério das Relações Exteriores britânico é escalado para uma secretíssima missão contra-terrorista: uma “rendição extraordinária” que extraditaria um contrabandista de armas em território britânico com a ajuda de uma equipe privada de mercenários estadunidenses. A missão é declarada um sucesso, apesar de o tal membro ficar no escuro em relação ao desfecho em seus detalhes; mas tudo bem, ele é apenas uma “linha direta” entre o ministério e a operação. Três anos depois, outro funcionário, que na época era secretário particular do ministro responsável pela operação, e que na época foi deixado também no escuro a este respeito mas a descobriu através de meios ilícitos, deve ajudar o primeiro a investigar a verdade por trás do “bem-sucedido” resultado.

A primeira metade do romance é dedicada à missão (pelo ponto de vista de “Paul”, a linha direta), e depois a Toby Bell, o secretário, que suspeita de alguma tramoia dentro do ministério (no caso, a existência dessa operação secretíssima e condenável). E justamente por isso eu senti que demorou muito para o livro de fato “começar”. A investigação começa lá para a metade do livro, após o time skip de três anos. E por não conseguir me envolver com nenhum dos personagens e protagonistas, nem de começo, nem perto do final, senti que estava me arrastando, entediado, por uma história que nem até me interessava muito. Estava querendo chegar na parte da “verdade delicada”, do desfecho da missão. Que, no final das contas, era algo até previsível, proporcionando-me mais uma decepção.

Creio que o problema foi justamente uma expectativa equivocada em relação ao livro: imaginei que leria algo mais similar aos thrillers que procurava antigamente, mas este é um livro mais cerebral. Passamos mais tempo na mente do personagem Toby, discutindo a moralidade não apenas de suas próprias ações conforme procura, contra o próprio pais, desvendar a verdade; mas também a da própria nação e seus esquemas de segurança e inteligência, nos quais corrupção, acordos e mercenários figuram em um imenso terreno cinzento ético. Quem está certo? E a verdade é mais importante que a imagem que mantém um grande Estado? Vale a pena vingar uma possível morte de inocentes colocando em risco toda a influência da nação? Seria injusto com o livro dizer que ele não apresenta alguns questionamentos válidos e importantes para uma época atual, onde capitalismo, tecnologia, e empresas-fantasmas podem proporcionar a “privatização da guerra e da inteligência” que vemos representada pelos mercenários norte-americanos.

Mas, apesar de buscar nos envolver com os dilemas pessoais e familiares de alguns dos personagens conforme eles vão se embrenhando na proto-conspiração orquestrada pelos mercenários e ministérios, falhou no meu caso. Os personagens não são particularmente próprios, não me apresentaram um nível maior de profundidade que geralmente faz com que se pareçam mais humanos; tornam-se previsíveis em suas ações e planos em dimensões. Além de que algumas de suas motivações me pareceram irreais, ou ao menos exageradas o bastante para que provocasse um estranhamento. Por exemplo, a motivação de Toby é, em primeiro lugar, um “senso de justiça” que não combina com a ambientação ambígua na qual a história se passa. Em segundo lugar, uma curiosidade quase mórbida pelo que o seu chefe lhe ocultara três anos antes não me parece o bastante para que arrisque toda a sua carreira e, mesmo, a vida. Em inúmeras cenas nas quais os antagonistas (também bem demarcados, para uma história que se pretende cinzenta) lhe propõem uma alternativa, uma compensação, um incentivo, é difícil imaginar que uma pessoa de verdade escolheria o caminho do protagonista.

Por isso, também não consegui criar uma ligação que me fizesse importar com o que aconteceria a Toby e companhia. E um foco em uma mensagem, um questionamento, em detrimento de uma história cativante, talvez tenha minguado meu prazer de leitura, que era o que eu esperava em primeiro lugar para esta experiência. Acabou que não me apaixonei por personagens, e esperava um desfecho surpreendente, quando acabei com um final que considerei muitíssimo aberto, e que me deixou com uma impressão de “é isso?”

John Le Carré

John Le Carré


Ficha técnica

  • Tìtulo: Uma verdade delicada
  • Título original: A delicate truth
  • Ano de publicação: 2012
  • Edição lida: Record, 2013. Tradução por Heloisa Mourão.
  • Número de páginas: 308
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