A Scanner Darkly

A Scanner DarklyVou começar dizendo que A Scanner Darkly é meio bagunçado. Às vezes essa resenha fica também, vai saber. Não que os livros de Philip K. Dick sejam todos bem estruturados, sendo esta uma crítica recorrente que vejo por aí à sua obra. Uma falta de processo de rascunhos e o notado fato de escrever alguns de seus romances em um prazo de duas semanas muitas vezes contribuem para que o resultado saia um tanto quanto truncado, mas jamais senti tal dificuldade como neste romance que termino de ler agora.

Mas pode ser porque a bagunça seja, em partes, intencional, batendo com a tenática do romance, mas que não deixa o livro nem um pouco mais agradável de se ler. Demorei mais ou menos um mês para terminá-lo, lendo o primeiro quarto da história em uma semana, e outros três quartos em outra semana trinta dias depois. Demorou para engatar e para me chamar a atenção, li outros livros no meio-tempo, e foi uma experiência mais arrastada que outros trabalhos do Dick, como Palmer Eldritch Flow my tears, the policeman said. 

Pode ser que tenha algo a ver com a época em que fora escrito, mais para o final de sua vida (1977), haja visto que VALIS não é a leitura mais fluida de todas, e The Divine Invasion foi criticado por também parecer mais um rascunho, segundo uns, do que uma obra inteiramente acabada. Apesar de pecar em sua estrutura e forma, entretanto, A Scanner Darkly possui temas bem fortes e uma abordagem algo ambígua sobre um assunto polêmico: o mundo do abuso de drogas.

Em um futuro distópico, os Estados Unidos perderam a guerra contra os entorpecentes. Um superquímico chamado “Substance D”, conhecido por afetar permanentemente o sistema sensório dos usuários de longo prazo, faz cada vez mais vítimas, que devem ser enviadas para clínicas de reabilitação por tempo indefinido. O protagonista é Bob Arctor, um policial do departamento anti-narcóticos, um “nark” infiltrado na comunidade dos usuários de drogas. Mora com dois deles, conhece mais alguns, infiltra-se na esperança de conseguir prender algum grande traficante e, quem sabe, chegar à raiz dos produtores da Substance D, ainda desconhecida das autoridades.

Quando deve reportar a seus superiores, aparecer em público em palestras anti-drogas, ou comparar notas com seus colegas, Arctor faz uso de um apetrecho chamado de “scramble suit”, que faz com que sua aparência mude toda hora e torne impossível a qualquer um rastrear sua identidade por aparência ou voz, impedindo que seja prejudicado por alguma corrupção interna. Assim, não conhece seus colegas e tampouco superiores do departamento. E, além disso, assume a identidade de “Fred”, um nome genérico para ocultar o seu verdadeiro.

O enredo inicia quando Arctor perde um de seus alvos em potencial e, na hora de receber um novo, seu superior identifica atividade suspeita em sua região: quatias irregulares de dinheiro que chegam às mãos de um usuário chamado Bob Arctor. Este dinheiro, naturalmente, vem de seu salário e recompensas como policial infiltrado mas, como seu superior não sabe quem ele é, acredita que esteja envolvido em algum tipo de tráfico. Assim, Arctor recebe a inusitada tarefa de se infiltrar e espiar a si mesmo.

O ponto forte da história, e no qual ela engata de fato, é quando Arctor começa a sofrer as consequências do abuso de Substance D como parte de seu trabalho de infiltração. Pouco a pouco suas percepções se alteram e se dissociam, e a persona de Fred começa a assumir uma identidade própria até Bob e Fred esquecerem que são a mesma pessoa. Em seu trabalho como policial, espia a si mesmo e fica a se perguntar o que afinal está fazendo este tal de Arctor; ao mesmo tempo, Bob começa a sentir uma incrível paranoia em relação aos aparelhos de vigilância que foram secretamente colocados em sua casa pela polícia (dos quais a princípio estava ciente, sendo ele mesmo quem teria providenciado tais equipamentos).

Inclusive tem uma adaptação cinematográfica com estilo de arte todo exótico estrelando o Keanu Reeves.

Inclusive tem uma adaptação cinematográfica com estilo de arte todo exótico estrelando o Keanu Reeves.

Quando as percepções de realidade e identidade começam a ficar mistas, Philip K. Dick mostra a que veio e nos entrega mais um romance incrivelmente exótico – neste caso, retratos da confusão e paranoia do próprio duplo protagonista – que corrobora com uma espécie de mensagem que busca passar. Ao nos fazer enxergar a realidade através dos olhos da insanidade, Dick consege nos fazer empatizar com o personagem e acreditar que o que ele vê através de seus olhos é de fato o mundo real, palpável e sensível, mesmo com a consciência de que aquilo é impossível ou de que ele está errado em suas conclusões e paranoias.

Ao mesmo tempo, somos apresentados a diversas figuras que habitam ou visitam a casa de Arctor, colegas do mundo da Substance D com as quais o protagonista mantém longos diálogos e interações que apontam para alguns efeitos que as substâncias causariam em suas mentes. Preparem-se para alguns pensamentos elaborados sob lógica supostamente sem sentido mas que todos levam, “na onda”; conversas sem pé nem cabeça, mas que na hora parecem fazer sentido, e que nos dão uma impressão de realmente estar meio “chapado” enquanto se lê.

PhilipKDickAparentemente estas situações e persongens foram baseados em uma própria época da vida de Philip K. Dick, enquanto o autor convivia com alguns jovens usuários em um pedaço da cidade, escrevendo, tendo conversas aparentemente filosóficas, e eventualmente se drogando. Estas pessoas aparecem em uma lista no fim do livro, durante um posfácio do autor, no qual ele expõe um pouco do objetivo que almejava alcançar escrevendo A Scanner Darkly: menos condenar o uso de drogas e mais apontar consequências que viu ou ouviu, e inclusive sentiu, tendo dano pancreático permanente devido a seu abuso de anfetaminas durante a vida.

Entretanto, apresenta a outra face da moeda ao retratar o mundo dos “straights”, ou as “pessoas de bem”, como uma vida rotinizada e sem graça sob o estado policial no qual a América é colocada após o surto das drogas. Torna-se uma dicotomia entre viver uma vida regrada e sem graça,  quem sabe apático, e viver uma vida curta com seus surtos ocasionais de loucura, mas com pequenos agrados hora ou outra de diversão.

Mas todos, no final, pagam algum preço. Inclusive ele.


Ficha técnica

  • Tìtulo: A Scanner Darkly
  • Ano de publicação: 1977
  • Edição lida: Houghton-Mifflin, 2010. E-book.
  • Número de páginas: 232
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