Mês: julho 2014

Ficção de polpa, volume 1

Ficção de polpaAcho que a última antologia que lerei por enquanto, Ficção de polpa me lembrou muito de Geração subzero, lida mais cedo neste mês. Creio que o fato desta ser a terceira resenha seguida de um livro de contos seja em parte coincidência, em outra decorrência de que é mais simples a leitura de contos durante uma viagem, que foi quando eu tanto terminei Final do jogo quanto comecei o primeiro volume desta série idealizada pela Não-editora que já acumula quatro coletâneas de histórias curtas.

A coleção idealizada e organizada pelo fundador da (não) editora, Samir Machado de Machado, almeja atingir o entretenimento despretensioso. A premissa é similar a da antiantologia de Felipe Pena, diferindo aparentemente na motivação ideológica: Ficção de polpa anseia explorar e estimular um pouco da ficção especulativa nacional, apesar da nossa suposta falta de tradição no ramo, não tendo criado a cultura da pulp fiction norte-americana. (mais…)

Final do jogo

Final do jogoApesar de ter publicado um clássico como O jogo da amarelinha, o qual ainda estou para ler, Julio Cortázar é bem mais conhecido por sua proficiência como contista. Tendo escrito tanto contos quanto sobre contos (lembro-me de ter lido algo a respeito em Valise de cronópio), pude ver nesse primeiro contato com a prosa do autor que ele sabe a que veio. Um livro já há tempos esgotado no Brasil, Final do jogo, relançado neste mês pela Civilização Brasileira, é um livro e um joguete: divididos em três níveis temos dezoito contos do autor, ordenados mais ou menos por dificuldade.

“Cada nível é medido pelo esforço de compreensão que se deve fazer para crer em cada um dos contos do autor”, explica a orelha. Assim, começamos pelo ‘fácil’ “Continuidade dos parques”, de apenas três páginas mas que já dá o tom da obra e da coleção de Cortázar, com uma proposta simples, uma linguagem nem tanto mas nada muito complicada, e um desfecho que me deixou, ao final, com um belo sorriso. Fui surpreendido.

Sinto que estou tomando um gosto pela leitura de contos, pouco a pouco, desde que os experimentei  a sério com DublinensesAssim como no livro de Joyce, temos as histórias melhores, as não tão boas, as indiferentes; mas o nível se mantém bom durante toda a coleção, apresentando uma coesão que me manteve na expectativa de ler o próximo e me surpreender positivamente. (mais…)

Geração Subzero

Geração SubzeroO que chama a atenção, no primeiro contato com Geração Subzero, é a sua proposta que, se não é polêmica, é pelo menos um tanto ácida em seus propósitos. O organizador da autodeclamada “anti-antologia”, Felipe Pena, já afirma logo na primeira linha de seu prefácio introdutório: “Boa parte da literatura brasileira contemporânea presta um desserviço à leitura”. Com a premissa de expandir os horizontes da literatura brasileira às obras com valor de entretenimento sobre o julgamento estético perpetrado pela crítica literária, não é de se surpreender que empreendesse nesta empreitada os nomes que estão mais na boca dos leitores: Eduardo Spohr, André Vianco, Thalita Rebouças, entre outros.

A coletânea de “20 autores congelados pela crítica, mas adorados pelos leitores” não pretende ser uma antologia, diz Pena, pois não é uma seleção dos melhores ou mais representativos de uma geração, como definiria o termo, mas um apanhado de autores que fazem carreira não nas graças da crítica literária formal, mas da massa leitora, como diz, “leiga”. É sem dúvida um debate extenso e já de longa data a relação algo dicotômica entre a “literatura comercial” e a “alta literatura”, com partidários de um lado, de outro, e aqueles que pensam de um jeito e falam de outro temendo ser rotulados ao ir contra a norma vigente, como ressalta o organizador.

Talvez a própria construção dessa dicotomia seja, em partes, um equívoco: quando estamos falando de entretenimento, desloca-se para um campo estritamente subjetivo. Pessoas podem se entreter com diferentes tipos de literatura. Entretanto, deixa claro Pena que o objetivo é entreter “o leitor”, democraticamente, referindo-se à maioria enquanto o gosto pela literatura considerada alta e tomada como relevante pela crítica seja de um aspecto mais elitizado.  (mais…)

Caçando carneiros

Caçando carneirosÉ complicado imaginar um mundo no qual tivéssemos que aprender todos os idiomas para que pudéssemos ter acesso aos tipos mais diversos de literatura. Apesar de ser isso o mais recomendado — afinal, a tradução nunca é o equivalente perfeito, no idioma vertido, da obra original — a aproximação / adaptação que conseguimos com uma tradução bem feita e editada já nos auxilia no contato com o produto de culturas diversas. Assim possibilita que nós, brasileiros, tenhamos acesso à literatura árabe, francesa, russa, nigeriana ou, enfim, japonesa. Portanto, não é segredo o papel fundamental da tradução literária na acessibilidade do leitor para com a literatura mundial.

E é graças a este excelente ofício pude ter acesso às obras do Haruki Murakami, influente escritor japonês que ganha uma reedição do previamente esgotado Caçando carneiros, relançado agora no começo de julho pela Alfaguara. A editora, responsável pelo lançamento dos demais livros do autor, parece ter adquirido os direitos dos que foram editados previamente pela Estação Liberdade, este e sua continuação, Dance, dance, dance. Após encerrar a leitura de todas as obras de Murakami editadas pela Alfaguara, em meados do ano passado, fiz uma tentativa de ler uma de suas obras com tradução para o inglês, e que ainda não estava para sair aqui no Brasil: South of the Border, West of the Sun. Entretanto, acabei não gostando muito da experiência. Não sei afirmar se é realmente o romance que falhou em me agradar ou se foi a tradução que, tão diferente, falhou em me capturar como o faz as versões de língua portuguesa. (mais…)

Perdão, Leonard Peacock

Perdão, Leonard PeacockÉ difícil descrever a sensação de que um livro nos dá duas ideias de tal forma contraditórias a seu próprio respeito que, no final, não sei explicar exatamente o que achei dele. Vou tentar o melhor possível aqui, mas Perdão, Leonard Peacock está sendo algo difícil de resenhar.

Não costumo esconder que me atraem, por motivos que só Deus sabe, histórias cujos protagonistas sejam jovem perturbados ou esquisitões. Talvez seja por isso que gostei tanto de ler O condado de Citrus (John Brandon) e Se alguma vez… (Meg Rosoff), ambos do começo do ano com os quais tive contato lá no trabalho. Então, quando Meu Amor™ se interessou por este romance, e o comprei pra ela como parte de um presente de Dia dos Namorados, logo resolvi que depois eu daria uma olhada também.

A premissa me atraiu: Leonard Peacock está comemorando seu aniversário de dezoito anos com uma atitude singular. Ele entregará presentes a quatro pessoas que significam muito em sua vida e, com um revólver herdado de seu avô no tempo da Segunda Guerra, matará o seu ex-melhor amigo e colocará fim a própria vida. Parece pesado, e é algo que não se vê todos os dias; como esta história poderia se desenrolar era o que me deixava curioso e animado para a leitura. (mais…)