Autor: Bruno Alves

Nascido em São Paulo em 1994, hoje em dia mora no Rio de Janeiro. Lê como hobby e profissão. Mete-se a escrever quando dá na telha. Revisor na editora Bertrand Brasil, quer logo se formar em Produção Editorial. Quem sabe não engata um mestrado depois disso?

Battle Royale

Battle RoyaleAlguns livros passam rápido. Fazendo um contraste, apesar de ter demorado quase a mesma coisa para ler Battle Royale No zênite, com o primeiro tendo mais de cem páginas que o segundo, o tempo gasto na leitura foi consideravelmente menor. Enquanto a leitura do romance vietnamita era para ser feita de um jeito calmo, contemplativo e mais espaçado, a ação marcante e presente a todos os momentos no livro japonês fazem com que seja uma leitura leve, a despeito de seu tamanho. “Leve” figuradamente falando — a edição da Globo Livros é, digamos, bem pesadinha. Recomendo ler sentado.

Quê? Battle Royale? Você está me perguntando o que é Battle Royale? Mas nem isso você sabe? Como pode vir assistir a jogos de luta livre profissional sem noção de nada?! […] No Battle Royale, uns dez, vinte, enfim, uma porrada de lutadores sobe ao ringue, todos juntos. E qualquer um pode atacar o outro: um contra um, um contra dez, tanto faz. (p. 15) (mais…)

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Ética

eticaÉ difícil acompanhar um livro téorico quando não se tem lá uma base muito avançada no campo de conhecimento abordado; geralmente limito-me a buscar por algumas introduções ou manter um mínimo de conhecimento sobre o tema antes de me aventurar em alguma não-ficção mais aprofundada, quanto mais uma parte da filosofia ou um campo de conhecimento amplo como a ética. Por sorte, o livro de Adolfo Sánchez Vázquez, recomendado-me como a bibliografia de uma das disciplinas da graduação, é um caso de livro introdutório. Dos recomendados, era o que parecia mais geral e, de fato, serve para dar um panorama aparentemente completo da teoria da moral. O autor admite o seu caráter didático e introdutório em suas primeiras palavras na apresentação da obra:

Este livro pretende introduzir o leitor no estudo dos problemas fundamentais da ética. Conbecendo-o desta maneira, com texto introdutório, tivemos presentes as exigências do ensino desta disciplina nos cursos universitários, nos institutos normais e nas escolas técnicas preparatórias. (p. 9)

Exigindo apenas um mínimo de conhecimento de algumas disciplinas fundamentais das ciências humanas — história, filosofia, antropologia, sociologia etc — o livro trata de abarcar diversas facetas e características da teoria da moral, a ética, de forma a deixar o leitor bem acostumado com todos os seus aspectos. A cada capítulo, desde a introdução ao objeto de estudo da ética, a moral, até sua história, essências, valores, avaliação, como se realiza, e encerrando com uma exposição e leves resumos, também bem didáticos, das doutrinas éticas fundamentais (ética grega, religiosa, moderna e contemporânea). Assim, serve bem ao seu propósito de servir de bibliografia básica e porta de entrada ao ensino da ética em cursos e universidades. (mais…)

Shadow of the Giant

shadow-of-the-giantFiquei temeroso após a leitura de Shadow Puppets. Temia que o final da série fosse incrivelmente insatisfatório. Enquanto adorei o primeiro livro e gostei do segundo, o terceiro me deixou um bocado reticente quanto à conclusão do arco Shadow do “Enderverse” de Orson Scott Card. Os motivos estavam todos lá (e todos na resenha, também): uma espécie de doutrinação ideológica, uma mudança de foco em relação aos acontecimentos principais e “grandiosos” do enredo, uma mudança de personalidade de certas figuras-chave do mundo que me deixaram um tanto desgostoso com o terceiro volume.

O encerramento (a princípio) do arco Shadow em Shadow of the Giant era um que eu não sabia muito como deveria se desenrolar.  Logicamente, aqui começam os spoilers já que se trata do quarto livro de uma série e necessariamente pressupõe alguns acontecimentos dos volumes anteriores.  (mais…)

A literatura em perigo

A literatura em perigoO ensino de literatura nas escolas acaba se tornando inevitavelmente um ponto de debate entre diversas áreas; pedagogia, a própria literatura, e até em alguns pedaços da produção editorial, tendo em vista que o tema  influi em muito na formação de novos leitores que virão a ser a futura base de consumidores de um profissional da área. É interessante acompanhar a perspectiva de um crítico literário, ainda mais do renome ao nível de Tzvetan Todorov, historiador e teórico responsável por trabalhos como O homem desenraizado. Este é um de seus pontos principais abordados no magro volume de A literatura em perigo, ensaio quiçá cáustico no qual temos diversos elementos — principalmente vistos em seu país de moradia, na França — que supostamente estariam matando a literatura.

O volume se abre com uma curta introdução à edição brasileira, na qual se faz um beve paralelo da situação nacional com os elementos que Todorov critica na formação e ensino da literatura contemporânea francesa. E, a partir de seu primeiro capítulo, começa a questionar estas tendências artísticas naturais — a hermetização da literatura em uma espécie de imanência que se fecha por si mesma, destacando-se da realidade sensível em uma suposta autossuficiência emancipatória que seria característica intrínseca da arte. (mais…)

No zênite

no zeniteUma das minhas experiências de leitura mais demorados do ano, mas não é por isso que No zênite deixa de ser belo. O romance é assinado pela escritora vietnamita Duong Thu Huong e perpassa anos em suas mais de quinhentas páginas, através de uma escrita cuidadosa e paciente, que faz questão de deixar os acontecimentos se desdobrarem com a delicadeza e melancolia de uma pessoa no fim da vida.

Tal pessoa é Ho Chi Minh, líder e idealizador da revolução comunista que dividiu o Vietnã em dois durante a época da Guerra Fria. Aqui ele é chamado apenas como o “Presidente”; é pintado com certas liberdades o retrato de um homem desiludido com o que ajudou a criar, com as pessoas com as quais se cercou, e com as decisões de vida que resultaram na sua profunda solidão. Figura central no romance de Thu Huong, o Presidente, em seus anos finais de vida, está isolado em uma construção próxima a um templo localizado em uma montanha afastada dos centros urbanos, próxima a uma aldeia de lenhadores e deixado para definhar enquanto é cuidado pelos soldados de seu exército.

Lá lhe colocaram com as desculpas de que está frágil e de que sua vida é preciosa para o povo do Vietnã, e por isso ele deve se submeter a um regime de isolamento e reclusão conforme a velhice desce sobre sua alma. Seu tempo para pensar, somado aos acontecimentos de sua vida passada e as mensagens e visitas que ainda recebe de seu único amigo, fazem com que seu ser desiludido afogue-se em reflexões sobre o que deveria ter feito de diferente em sua vida. (mais…)