Mês: abril 2014

Divine Invasions: The Life of Philip K. Dick

22587Imagino que, na confecção de uma biografia, a questão da verificabilidade das informações sempre pose uma questão fundamental para o autor. Quando apostamos em traçar uma linha de vida a partir de depoimentos, correspondências e confissões, temos que acreditar que o que está sendo dito (ainda mais quando se referem a causos de uum passado distante) são de fato os acontecimentos que ocorreram. E aí temos outro problema fundamental: a memória, sempre composta a partir do presente, geralmente apresenta discrepâncias. Lembranças, e portanto depoimentos, são imperfeitos. Um ponto de vista subjetivo a respeito de acontecimentos passados.

Pode-se ver como Lawrence Sutin enfrentou estes dois problemas em sua biografia Divine Invasions: The Life of Philip K. Dick. Não raro vemos testemunhos contraditórios durante a narrativa, geralmente entre o biografado e a outra pessoa que participou das cenas que descreve; seja em depoimentos para outras pessoas, seja em suas anotações e cartas. Sua vida era guiada por crises; sendo assim, sua resposta a cada crise era um testemunho distinto da pessoa com quem ele entrou em conflito. E, como disse sua mãe Dorothy, Philip funcionava melhor em crises. Tanto que pulava de uma para a outra — não funcionaria de forma alguma em um cenário normal de um dia ensolarado.

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The Three Stigmata of Palmer Eldritch

Three Stigmata of Palmer Eldritch, TheEste é um dos livros considerados mais clássicos de Philip K. Dick (junto com Androides sonham com ovelhas elétricas? O homem do castelo alto), e foi lançado aqui no Brasil pela editora Aleph como Os três estigmas de Palmer Eldritch. É uma experiência de leitura fluente, que me remeteu a outro livro do autor, Ubik, por alguns elementos no enredo e pela experiência de leitura. Ambas me animaram mas me deixaram pensativo, ambas trabalham principalmente as diferenças entre a realidade, o simulacro, e nossas percepções. Entretanto, são livros diferentes, com temáticas diferentes, e Palmer Eldritch é um de seus primeiros a explorar a temática religiosa cristã.

Em um mundo extremamente quente, onde as pessoas vivem com ar condicionado e não podem ficar muito tempo expostas ao sol (não muito diferente do Rio de Janeiro de 2010), o planeta está quase superpopuloso e o governo terrestre manda pessoas para emigração compulsória aos outros planetas do sistema solar. Os colonos devem viver em barracos apertados e sem muita privacidade, e o único alívio que encontram para seu suplício é a droga Can-D, que faz com que sejam “traduzidos” e tenham suas consciências transportadas para uma casa de bonecas. Incorporam o “layout” da casa de bonecas e podem, por um tempo indeterminado, viver a vida ideal, de volta a uma Terra agradável e se esquecendo das preocupações do mundo. (mais…)

Reprodução

110_41-Carvalho-ReproduçãoUma irônica comédia dos mal entendidos, Reprodução é o livro mais recente do contemporâneo Bernardo Carvalho. Somos apresentados ao estudante de chinês, perfeito cidadão médio brasileiro, leitor de colunas, jornais e blogs. Fruto da sociedade da informação, ele se considera e brada a alta voz que é informado, que não é racista (afinal, brasileiro o é), tolerante e ciente de seus direitos. Ao encontrar sua ex-professora de chinês em um aeroporto, donde pretendia partir para Pequim, é detido pela polícia do aeroporto. Aparentemente, a professora está metida em alguma ação criminosa e, como a cumprimentou (infelizmente, sem entender seu chinês), agora é suspeito, cúmplice, ou algo que o valha.

O recurso narrativo usado durante a maior parte do romance é o diálogo de um lado só. A voz do estudante de chinês é ouvida, própria e cômica, enquanto conversa com o delegado que o interroga — e não ouvimos as falas do policial. O livro então encadeia-se em um fluxo de conversa unilateral e constante, sem pausa, sem parágrafo; apenas períodos encadeados e seguidos. Ponto, exclamação, repetição, mal entendido. Aos poucos, o estudante de chinês conta mais sobre si mesmo, sobre seus valores e suas opiniões — mesmo quando não são pedidas. Sente uma necessidade de opinar, de dar palpite, de compartilhar sua moral e suas ações. (mais…)

The transmigration of Timothy Archer

10856268O último livro da “trilogia VALIS” não era originalmente o planejado. Infelizmente, Philip K. Dick faleceu de um derrame antes de dar continuidade ao seu rascunho do que planejava ser o último volume do trio, The Owl in Daylight. Entretanto, seu último livro escrito – The transmigration of Timothy Archer  – possuía uma certa ligação simbólica e temática com os dois anteriores, a despeito de não ser exatamente conectado. Enquanto VALIS The Divine Invasion não possuíam personagens em comum, o tema e elementos divididos tinhham uma conexão muito mais forte, o que acaba prejudicando este último caso ele venha a ser visto como parte de uma série. Mas Transmigration acaba sendo um livro que se segura muito bem sozinho, e é de uma lucidez enorme se comparado aos seus antecessores.

Este livro não é ficção científica, tampouco ficção especulativa; não há quaisquer elementos que não possam ser considerados parte da nossa realidade sensível. Uma América distópica, tão popular na obra completa de Dick, aqui é apenas os Estados Unidos no ano da morte de John Lennon. O livro é em sua maior parte composto de reflexões e conversas entre a protagonista Angel Archer e seus parentes e colegas próximos; seu marido Jeff, seu sogro o bispo Timothy Archer e a amante deste, Kirsten. (mais…)

Shadow Puppets

234724A terceira entrada na Shadow Series de Orson Scott Card demora mais que seus dois antecessores para engatar. Uma continuação bem direta de Shadow of the Hegemon, este livro se passa alguns anos após os acontecimentos do anterior. Não fica claro quantos anos, se dois, três, ou um pouco mais, mas diria que está mais ou menos nesta faixa. E é um pouco decepcionante.

Em primeiro lugar, já não há mais um grande mistério que impulsione a narrativa – os planos dos personagens parecem mais previsíveis, o que faz perder um pouco do suspense do thriller político futurista que era Shadow of the Hegemon. Temo dizer que, em Shadow Puppets, Orson Scott Card perdeu um pouco a mão em prender o leitor como nos outros livros da saga, e talvez isso se dê principalmente devido a lições de moral, aqui mais explícitas. Na resenha de Shadow of the Hegemon, esclareci no final que, ao contrário de Ender’s Game Ender’s Shadow, o livro já começava a apontar um pouco dos valores que formam as opiniões tão polêmicas de Card. E aqui eu me senti particularmente incomodado com a falta de sutileza das ideias que ele inseriu em seu livro. (mais…)