Contos de mentira

Contos de mentiraTalvez eu não tenha sido completamente sincero quando disse que aquele seria o meu último livro de contos por um tempo ao resenhar Ficção de polpa. A verdade é que estou em uma boa época para a leitura de contos, e crescentemente me apego a esta forma de expressão literária com a qual até este ano eu não tive muito contato real. Um pouco de costume aqui, uns experimentos ali, autores bons, autores nem tão bons, e vou me distraindo ao ler histórias menores, de uma só vez, várias pequenas experiências completas, em dose pequena, para contrabalancear o romance que lutei para terminar por dois meses e que em breve deve figurar em um post por aqui.

O alvo da vez foi o vencedor do prêmio Sesc de literatura na categoria contos em 2010: o livro de estreia de Luisa Geisler Contos de mentira, que chamou a atenção pela idade da autora (19 na época de publicação, 23 hoje) e por certa inovação em relação à linguagem utilizava, que escapa de uma simulação do já consagrado para investir em uma narrativa mais moderna e cinematográfica a partir de um jogo dinãmico de cortes e efeitos.

Nada mais justo para uma autora jovem, fruto da geração atual e em dia com a contemporaneidade. Logo no conto que abre a coletânea, “Apenas este réquiem para tantas memórias”, somos apresentados à fragmentação a que somos levados, puxando um pouco quem sabe de Bauman, na pós-modernidade entrecortada por encontros e desencontros. Um fotógrafo em uma sucessão de aeroportos, perdido, onde está? Sua máquina na mão, registra pequenos momentos; poliglota, um pouco de italiano ali, alemão aqui, inglês acolá, no meio de toda aquela movimentação, a típica sensação de efemeridade de um aeroporto e confusão decorrente da sobrecarga de informação se traduz em uma narrativa pouco usual.

Entretanto, esta inovação aos quais o texto dá enfoque em seus aparatos editoriais, se é em grande parte focada neste primeiro conto, nos seguintes acaba dando uma diminuída perceptível. Começamos com o conto mais complexo, mais experimental. Os demais continuam com a proposta: como fotografia, somos apresentados a pequenos momentos significativos, em histórias que não começam na primeira palavra e nem terminam na última; com uma linguagem moderna e despretnesiosa, mas que não entregam uma “diferença” comparável ao conto que abre o livro.

Mas sinto que nutri expectativas falsas. Os demais contos, após a abertura, parecem-me propostas que não prezam nem tanto esta experimentação cinematográfica: são compilações de cenários contemporâneos, a vida que vivemos, e seus dramas dos mais comuns: o amor não-correspondido, as pequenas mentiras, pais e filhos, pensamentos para o futuro. Talvez não sejam os temas mais originais do mundo, e talvez também não tenham sido abordados da maneira mais criativa, mas não são contos desagradáveis de se ler. Ao contrário: são curtos, fáceis de se ler em uma assentada e com uma narrativa suave que embala o leitor em imagens do cotidiano. Pode ser bom para os que procuram uma experiência de leitura tranquila, mas pode acabar decepcionando os que esperavam algo um pouco mais pautado no “nocaute” do conto, ou uma busca por temas menos cotidianos.

A velocidade dos contos, essa dinamicidade proposital e sua curta extensão, faz com que seja difícil se afeiçoar em demasia com a maioria, tornadas experiências levemente efêmeras, como se tivéssemos contato com aquele pedaço de história e, dependendo da sensibilidade de cada um, ele ficasse ou não. De alguns, acabei não gostando muito, sentindo talvez uma emoção forçada por trás da narrativa, como “Ovelha branca”, do qual gostava muito até o final. Em outros, a experiência de leitura foi gostosa mas seu conteúdo efetivamente se tornou temporário, pela combinação conveniente de leveza, brevidade e velocidade. Entretanto, os que me apresentavam uma história que me tirasse da mera contemplação foram as que mexeram. Creio que, além do primeiro, meus favoritos tenham sido Vincos ou Leão, que criaram, no caso daquele, uma empatia com leve suspense bem equilibrados, e no deste, um estranhamento misto à preocupação que envolve o leitor.

Creio que em matéria de contos os do estilo de Cortázar me agradem mais, com seu leve ar de fantástico e efeito bem definido. Entretanto, do livro de estreia de Luisa Geisler, não foram muitos os que dialogaram ou ficaram comigo, mesmo eu supondo que seria mais o caso devido a até uma faixa de idade similar (ao contrário de quando, já aconteceu por aqui, de eu achar que aproveitaria melhor o livro com meus cinquenta anos de idade). Pretendo ler Quiçá, primeiro romance e também vencedor do prêmio Sesc (este em 2011) e, se gostar, quem sabe seu futuro romance pela Alfaguara, Luzes de emergência se acenderão automaticamente, que, admito, praticamente já me ganhou pelo título.

Achei charmoso.

Luisa Geisler

Luisa Geisler


Ficha técnica

  • Tìtulo: Contos de mentira
  • Ano de publicação: 2010
  • Edição lida: Record, 2010
  • Número de páginas: 128

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