américa latina

Final do jogo

Final do jogoApesar de ter publicado um clássico como O jogo da amarelinha, o qual ainda estou para ler, Julio Cortázar é bem mais conhecido por sua proficiência como contista. Tendo escrito tanto contos quanto sobre contos (lembro-me de ter lido algo a respeito em Valise de cronópio), pude ver nesse primeiro contato com a prosa do autor que ele sabe a que veio. Um livro já há tempos esgotado no Brasil, Final do jogo, relançado neste mês pela Civilização Brasileira, é um livro e um joguete: divididos em três níveis temos dezoito contos do autor, ordenados mais ou menos por dificuldade.

“Cada nível é medido pelo esforço de compreensão que se deve fazer para crer em cada um dos contos do autor”, explica a orelha. Assim, começamos pelo ‘fácil’ “Continuidade dos parques”, de apenas três páginas mas que já dá o tom da obra e da coleção de Cortázar, com uma proposta simples, uma linguagem nem tanto mas nada muito complicada, e um desfecho que me deixou, ao final, com um belo sorriso. Fui surpreendido.

Sinto que estou tomando um gosto pela leitura de contos, pouco a pouco, desde que os experimentei  a sério com DublinensesAssim como no livro de Joyce, temos as histórias melhores, as não tão boas, as indiferentes; mas o nível se mantém bom durante toda a coleção, apresentando uma coesão que me manteve na expectativa de ler o próximo e me surpreender positivamente. (mais…)

O general em seu labirinto

relato_16e_3_SAIDA_2Na onda das leituras de Gabriel García Márquez, O general em seu labirinto está entre os que ganharam uma versão com o novo (lindíssimo) projeto gráfico neste começo de ano, junto a Ninguém escreve ao coronel, resennhado há algumas semanas atrás. Este livro tem uma proposta semi-jornalística, semi-romântica que acaba em um livro que poderia se chamar de romance histórico. Este livro especificamente conta a história do El Libertador da América Latina, o general Simón Bolívar, figura que Gabo fez o favor de estudar por um longo tempo (passando inclusive pelas memórias em 37 volumes de um dos colegas militares do liberal).

Não bem como uma biografia – a história contada não é a de sua vida ou a de suas guerras, mas a do seu crepúsculo. Os últimos meses da vida do general (título pelo qual ele é tratado durante toda a duração do romance), a sua desesperança e o temor de ter todos os seus feitos e sonhos desfeitos a partir da sua morte. O retorno do general Santander, seu principal rival; o desmembramento da Grán Colômbia; a expatriação de seus inimigos exilados e o seu apagamento da história latino americana. É interessante a leitura feita tanto tempo depois do acontecimento da história real, quando já temos todas as respostas para os medos que o assolavam.  (mais…)

Ninguém escreve ao Coronel

coronel_SAIDA_2b_texto_novoMinha quinta leitura do Gabriel García Márquez, não estava esperando por uma história longa e complexa – até porque uma mera olhadela no livro não deixa espaço para tamanha especulação. Ninguém escreve ao coronel, um livrinho de noventa páginas, quase cem, conta uma história simples mas ao mesmo tempo carregada de significado, e, apesar de não ter me conseguido envolver como eu gostaria, eu reconheço o seu mérito em passar uma visão desejada do mundo por parte do autor.

Na não-sei-quão-famosa Escala de Idealismo vs. Cinismo na ficção, este provavelmente fica bem puxado para o segundo extremo. Um coronel anônimo, só chamado de Coronel por toda a história, lutou pelo seu país em uma das rebeliões (que seria depois retratada mais longamente na magnum opus do autor, Cem anos de solidão). Após a rendição do seu superior, e de todo o seu grupo, ele também é aposentado com promessas de uma pensão com a qual futuramente poderia pagar as suas despesas. A guerra acabou há cinquenta e seis anos, o seu nome saiu no processo como ganhador da bolsa há quinze, e todas as sextas o Coronel vai ao porto da cidade esperar a correspondência – é nessa semana que ele receberá a pensão. Mas ele não recebe nenhuma carta, não recebe a sua pensão, e ninguém escreve ao Coronel. E, sem a pensão, só pode viver quase que passando fome, com seus poucos pertences de outrora, a sua mulher (teimosa, mas carinhosa), e um galo de rinha que seu filho deixou para trás antes de ser fuzilado por distribuir panfletos subversivos.  (mais…)

Lituma nos Andes

Lituma nos AndesEssa foi uma leitura que não me conquistou de primeira. Comecei a ler Lituma nos Andes em setembro do ano passado, mas parei logo no final do primeiro capítulo, quando recebemos pelo correio Kafka à beira-mar e eu resolvi dar prioridade para a outra (tampouco curta) leitura na qual eu já tinha mais interesse.

Como já se passavam mais de três meses desde a última vez que eu abria essas páginas, resolvi começar de novo. Mais uma vez, o livro demorou a me conquistar, a leitura a engatar. Não foi antes de quase metade da leitura que Lituma nos Andes conseguiu me prender, mas quando o fez…

A história narra a estadia do cabo Lituma e seu imediato, Tomas Carreño (também chamado de Tomasito ou Carreñito, dependendo do personagem), no posto de Naccos nos idos dos Andes, durante a década de 80. Três desaparecimentos chamam a atenção das duas autoridades, que suspeitam que o caso esteja relacionado à revolução dos “terrucos” do Sendero Luminoso (o Partido Comunista do Peru).

Ao mesmo tempo, temos algumas narrativas diferenciadas entrando e se permeando no volume: a história de Carreño sobre o amor que perdeu algum tempo antes de ser mandado aos Andes, que o assombra até hoje; a história de um exótico-quase-paranormal casal de moradores daquele vilarejo, contado do ponto de vista da mulher; e algumas histórias de figuras que acabam topando com os senderistas durante algum assunto que tinham a resolver nos Andes. (mais…)