ficção científica

Shadow of the Giant

shadow-of-the-giantFiquei temeroso após a leitura de Shadow Puppets. Temia que o final da série fosse incrivelmente insatisfatório. Enquanto adorei o primeiro livro e gostei do segundo, o terceiro me deixou um bocado reticente quanto à conclusão do arco Shadow do “Enderverse” de Orson Scott Card. Os motivos estavam todos lá (e todos na resenha, também): uma espécie de doutrinação ideológica, uma mudança de foco em relação aos acontecimentos principais e “grandiosos” do enredo, uma mudança de personalidade de certas figuras-chave do mundo que me deixaram um tanto desgostoso com o terceiro volume.

O encerramento (a princípio) do arco Shadow em Shadow of the Giant era um que eu não sabia muito como deveria se desenrolar.  Logicamente, aqui começam os spoilers já que se trata do quarto livro de uma série e necessariamente pressupõe alguns acontecimentos dos volumes anteriores.  (mais…)

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A Scanner Darkly

A Scanner DarklyVou começar dizendo que A Scanner Darkly é meio bagunçado. Às vezes essa resenha fica também, vai saber. Não que os livros de Philip K. Dick sejam todos bem estruturados, sendo esta uma crítica recorrente que vejo por aí à sua obra. Uma falta de processo de rascunhos e o notado fato de escrever alguns de seus romances em um prazo de duas semanas muitas vezes contribuem para que o resultado saia um tanto quanto truncado, mas jamais senti tal dificuldade como neste romance que termino de ler agora.

Mas pode ser porque a bagunça seja, em partes, intencional, batendo com a tenática do romance, mas que não deixa o livro nem um pouco mais agradável de se ler. Demorei mais ou menos um mês para terminá-lo, lendo o primeiro quarto da história em uma semana, e outros três quartos em outra semana trinta dias depois. Demorou para engatar e para me chamar a atenção, li outros livros no meio-tempo, e foi uma experiência mais arrastada que outros trabalhos do Dick, como Palmer Eldritch Flow my tears, the policeman said. 

Pode ser que tenha algo a ver com a época em que fora escrito, mais para o final de sua vida (1977), haja visto que VALIS não é a leitura mais fluida de todas, e The Divine Invasion foi criticado por também parecer mais um rascunho, segundo uns, do que uma obra inteiramente acabada. Apesar de pecar em sua estrutura e forma, entretanto, A Scanner Darkly possui temas bem fortes e uma abordagem algo ambígua sobre um assunto polêmico: o mundo do abuso de drogas.

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Ficção de polpa, volume 1

Ficção de polpaAcho que a última antologia que lerei por enquanto, Ficção de polpa me lembrou muito de Geração subzero, lida mais cedo neste mês. Creio que o fato desta ser a terceira resenha seguida de um livro de contos seja em parte coincidência, em outra decorrência de que é mais simples a leitura de contos durante uma viagem, que foi quando eu tanto terminei Final do jogo quanto comecei o primeiro volume desta série idealizada pela Não-editora que já acumula quatro coletâneas de histórias curtas.

A coleção idealizada e organizada pelo fundador da (não) editora, Samir Machado de Machado, almeja atingir o entretenimento despretensioso. A premissa é similar a da antiantologia de Felipe Pena, diferindo aparentemente na motivação ideológica: Ficção de polpa anseia explorar e estimular um pouco da ficção especulativa nacional, apesar da nossa suposta falta de tradição no ramo, não tendo criado a cultura da pulp fiction norte-americana. (mais…)

Neuromancer

NeuromancerEm um dia qualquer, se por acaso ligarmos a televisão e a sintonizarmos a um canal fora do ar, veremos um imenso plano azul. Um azul infinito, forte e jovial que, se visto no céu, será o indicativo de um lindo dia ensolarado. Essa é uma daquelas críticas pontuais mais recorrentes a Neuromancer: o defasamento de sua frase de abertura, que hoje se tornou anacrônica. Em 1984, quando William Gibson publicava um dos clássicos da ficção científica, seu equivalente era aquele chuvisco eterno e barulhento que com certeza também já vimos em televisões mais antigas.

Edições recentes comumente abrem com um prefácio de Gibson reconhecendo, em uma espécie de mea culpa, a questão com a sua frase de abertura. Não deixa de comentar alguns progressos que em breve mudariam radicalmente a nossa visão do futuro, como a invenção do telefone celular, que falhou em inserir ou sucedeu em omitir em sua obra.

Talvez seja fútil ler uma história de ficção científica escrita há décadas apontando o que ela previu ou deixou de prever. Um escritor pode, ao escrever um futuro não tão distante, procurar as modas tecnológicas em voga e extrapolá-las, imaginado que elas são o embrião de uma revolução científica. Em uma espécie de futuro mais distante, pode perfeitamente tirar soluções e respostas do puro ar. É mais fácil prever 2025 do que 5025. E, por outro lado, pode simplesmente procurar as mudanças que prefere para criar um eixo dramático mais interessante, mais divertido. A FC, afinal, busca lidar mais com a reação da humanidade à mudança tecnológica do que com a tecnologia de fato, salvo algumas exceções. (mais…)

Realidades adaptadas

Realidades adaptadasNão é um segredo escondido a sete chaves que Hollywood se dá bem com Philip K. Dick. Não exatamente em um sentido literal. Apesar de diversas obras do autor terem sido adaptadas para as telonas, a primeira – o icônico Blade Runner – só veio a ser exibida três meses após a sua morte. Mas desde então não foram poucas as suas histórias que encontraram a sua face no audiovisual. Muitas vezes modificadas pesadamente.

A Aleph, responsável pela obra de Dick no Brasil, concatenou uma edição inédita a partir de uma ideia muito intuitiva. Fico até surpreso de não ter sido feita antes; daquelas ideias que, ao vermos, pensamos “nossa, parecia tão claro!”, mas que só aparece depois que finalmente a vemos feita. Kudos! Reuniram os contos de Dick adaptados para o cinema e juntaram em uma edição, comentando brevemente no começo de cada sobre a data de lançamento do filme e alguns artefatos de adaptação. Daí temos Realidades adaptadas, volume reunido recentemente sob a tradução de Ludimila Hashimoto.

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