Mês: maio 2014

A sombra no sol

A sombra no solApós a incursão no mundo noir das noitadas do Neon Azul, onde o fantasioso e o real se mesclam de maneira discreta mas perceptível, Eric Novello agora nos oferece uma experiência relacionada mas distinta, em seu próximo (e, até agosto de 2014, último) trabalho, A sombra no sol. Nos trinta textos que se entrelaçam em uma narrativa, vemos ser construído um retrato de um homem desiludido, quiçá quebrado, ali apaixonado, com uma voz bem marcada que transforma cada visão do cenário urbano noturno. Sua dor se mistura à ironia, à sensualidade e à natureza dos relacionamentos de uma pessoa solitária com o desenrolar de cada parágrafo, em uma escrita algo lírica que não se torna enfadonha em momento algum.

A princípio, estamos mais uma vez acompanhando o gerente do Neon Azul, Armando, em uma tarefa repassada em caráter especial pelo Homem, dono do inferninho. Seu objetivo: resgatar o cadáver de Ícaro, um garoto de programa, e oferecer-lhe um trabalho singular no estabelecimento. Equipado com um líquido especial e força de vontade, o insone se aventura por uma construção anônima e encontra, junto ao cadáver do garoto, um caderninho escrito pelo morto. Deve conhecer a Ícaro se quiser trazê-lo de volta à vida, e há jeito melhor que a leitura de suas confissões e reflexões, confere?  (mais…)

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Amanhã não tem ninguém

Amanhã não tem ninguémAmanhã não tem ninguém foi uma agradabilíssima surpresa em um mar de recomendações e leituras obrigatórias. Uma obra que começa e se encerra em um mesmo ponto, uma série não-linear, que só reforça a natureza cíclica dos erros pessoais de cada um. No segundo romance de Flávio Izhaki, acompanhamos a jornada de seis membros de uma mesma família judaica: indivíduos de diferentes idades e em diferentes épocas de sua vida, conforme lutam com seus próprios dilemas, mergulhados em suas relações com os outros protagonistas e, sim, consigo mesmos. Aqui, vemos uma família se desconstruir ao passar de cada página.

A morte é o espectro que espreita todas as relações. Não a nossa mortalidade apenas, mas a Morte com “m” maiúsculo, aquela que ronda a consciência, que busca os nossos medos e afetos, se esgueira para dentro da mente. A noção da própria morte e sua inevitabilidade, memento mori, é apenas uma de suas facetas. A consciência da finitude dos outros, de que o mundo perdurará sem nós, mais uma. O fim das pessoas está presente neste romance, que abre com a morte de um dos patriarcas da família, o homem mais velho, o relojoeiro e bisavô. A partir de então, somos levados por uma viagem na história de cada personagem. Mas este é um elemento que em momento algum está ausente de suas jornadas pessoais. Mais uma vez, o espectro que os espreita.

Em uma das cenas de enterro: ontem, no anterior, tínhamos aqui dez pessoas. Hoje, três. E amanhã?

Amanhã não tem ninguém. (mais…)

The Two Towers

The Two TowersFazia um tempo desde a última vez em que peguei pra ler a trilogia Senhor dos Anéis, mas sempre tive a sensação de que li tudo com um pouco de pressa. A minha última fiz em 2010, pegando-o emprestado da biblioteca da escola; aquela edição da Martins Fontes, volume único, com o Gandalf na capa. Meu prazo de empréstimo era de duas semanas, então me esforcei para conseguir absorver aquelas mil e sei lá quantas páginas naquele tempo (enquanto me mantinha em dia com as obrigações escolares). Aí me lembro de ter achado um bocado chatinho, mas não sabia muito bem apontar o porquê.

Agora, anos depois, quando comprei a trilogia em um box de três volumes em edição de bolso, tinha algumas ideias em mente:

  1. ter uma experiência mais tranquila, sem prazos para ler cada volume
  2. sendo a edição em pequenos volumes separados, eu não teria que levar um calhamaço na mochila
  3. não estaria sujeito à pressão psicológica de ler tudo de uma vez acarretada por um volume único; poderia descansar entre a leitura de cada livro
  4. essa edição é em inglês e vai saber no original eu gosto mais?

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The Julian Chapter

The Julian ChapterNão faz tanto tempo assim que li Extraordinário. Foi inclusive um dos primeiros sobre um dos quais escrevi após a fundação desse cantinho de internet. Gostei muito do livro, que foi uma agradável surpresa quando eu não botava tanta fé. Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que a autora planejava acrescentar um pouquinho mais à história?

Percebo uma recente tendência em alguns segmentos da literatura de entretenimento, esta de reescrever uma história ou um pedaço dela do ponto de vista de algum outro personagem. É sempre interessante observar a perspectiva de um coadjuvante, ou mesmo um antagonista, sobre os mesmos acontecimentos. Ajuda a adicionar toda uma camada de desenvolvimento, um joguinho psicológico do que cada personagem dá mais atenção a, e mesmo aprimorar um pouco essa ideia da natureza multifacetada da realidade (whoa). Não digo que esta é uma ideia completamente nova: temos coisas como o The Alexandria Quartet (quatro livros contando a mesma história sob diferentes pontos de vista), dos anos 1950; ou mesmo Ender’s Shadow, que é esse giro de perspectiva de Ender’s Game escrito no começo do século. Mas percebo isso recentemente acontecendo com mais frequência, tipo nos livrinhos da Colleen Hoover ou, quem sabe, naquela versão abandonada do quinto livro de Crepúsculo. (mais…)

God Emperor of Dune

1437283Maio começou com leituras pesadas e ainda estou em dúvida se isso foi uma escolha boa ou ruim. Depois de terminar Divine Invasions, queria descansar um pouco do Philip e começar a redigir aquele meu trabalho (para o qual eu comecei lendo VALIS e acabei não lendo nada menos que quatro livros do autor no mês passado). Então resolvi pegar nada tão curto quanto os últimos romances pelos quais eu me aventurei, e estou lendo agora The Two Towers (o volume 2 do Senhor dos Anéis, As duas torres e que, quem sabe, terá um post aqui uns dias para frente). Como tento me manter sempre lendo um livro físico e outro digital, o e-book para compensar o Tolkien não foi nada menos denso: acabei lendo o quarto livro da série Duna. 

Arrisco dizer que God Emperor of Dune, que saiu no Brasil há umas décadas como Imperador Deus de Duna, é o livro mais pesado da série depois do primeiro. O Duna original, um amor de épico, tinha lá suas seiscentas páginas, mas os seus dois volumes seguintes formavam apenas a metade deste tamanho, cada um. Este quarto volta a crescer em extensão: demorei quase duas semanas para passar por todo o romance, mas saí inteiro.

E, atenção, pois aqui tem spoilers de todos os quatro livros da série, já que não tem muito bem como situar este sem falar de seus antecessores e seus desfechos. (mais…)