Battle Royale

Battle RoyaleAlguns livros passam rápido. Fazendo um contraste, apesar de ter demorado quase a mesma coisa para ler Battle Royale No zênite, com o primeiro tendo mais de cem páginas que o segundo, o tempo gasto na leitura foi consideravelmente menor. Enquanto a leitura do romance vietnamita era para ser feita de um jeito calmo, contemplativo e mais espaçado, a ação marcante e presente a todos os momentos no livro japonês fazem com que seja uma leitura leve, a despeito de seu tamanho. “Leve” figuradamente falando — a edição da Globo Livros é, digamos, bem pesadinha. Recomendo ler sentado.

Quê? Battle Royale? Você está me perguntando o que é Battle Royale? Mas nem isso você sabe? Como pode vir assistir a jogos de luta livre profissional sem noção de nada?! […] No Battle Royale, uns dez, vinte, enfim, uma porrada de lutadores sobe ao ringue, todos juntos. E qualquer um pode atacar o outro: um contra um, um contra dez, tanto faz. (p. 15)

O livro de Koushun Takami tem uma proposta que a princípio soa surreal: anualmente algumas turmas de estudantes de oitavo ano são separadas de suas escolas e levadas cada uma para um lugar isolado, onde devem se digladiar até a morte com as armas que o governo fornece, até que reste apenas um vencedor. A turma B do oitavo ano de uma escola é levada a uma ilha residencial evacuada para realizar o seu jogo. A ambientação é um Japão alternativo ou levemente futurista, uma sociedade facista de ares distópicos que se chama “República da Grande Ásia Orientral”, encabeçada por uma figura misteriosa e orwelliana cujo nome jamais ficamos sabendo, e que executa o que é chamado de o “programa” regularmente desde o final dos anos 1940. E, depois de um tempo, as pessoas pararam de se importar.

Acompanhamos os eventos do livro através principalmente da figura do casal Shuya Nanahara e Noriko Nakagawa, dois dos estudantes. Eles dão um jeito de se unir no princípio do jogo e focam em sua sobrevivência enquanto, reticentes em acabar com seus colegas para garantir a própria vida, buscam uma alternativa ao Programa e algo que ninguém conseguiu antes: escapar. Não obstante, eles não são os únicos que acompanhamos, pois o livro faz bem em mostrar diversos pontos de vistas dos alunos, suas diferentes motivações, se participarão do jogo ou não, objetivos pessoais, e como suas próprias personalidades e passados afetam sua maneira de se comportar dentro do “jogo” doentio.

Um dos grandes trunfos é que, mesmo com a imensa quantidade de personagens no livro, que começa com 42 e vai gradualmente diminuindo conforme o passar do jogo, temos uma grande variedade de personalidades marcantes. Acompanhando algo em torno de dois ou três pontos de vista por vez, conseguimos formar retratos pessoais e psicológicos de vários dos personagens com muita facilidade: o contraste entre os idealistas e os cínicos, os aterrorizados e os determinados a vencer, os egoístas e os coletivistas, e os completamente insanos. E como, afinal, eles lidam com essa paranoia / desconfiança e determinação de vencer ou meramente de sobreviver, o que torna cada capítulo com um novo personagem uma história nova, evita repetições (ótimo para um livro dessa extensão) e mantém o enredo dinâmico. Evita um dos maiores problemas com livros de vários personagens, que é se perder no enredo e não se lembrar quem é cada um e quais são seus objetivos e aspirações. Entretato, talvez uma das dificuldades do leitor brasileiro seja a memorização de alguns dos nomes, uns curtos, outros mais longos, e que vez ou outra se parecem; o que em nada contribui se considerando o número de participantes do Programa.

 A linguagem usada pelo autor é bastante afastada, o que torna toda a violência no livro — e, não se iludam, ela está bastante presente — de um certo grotesco de ares científicos, como se estivéssemos observando o massacre de longe; como se fôssemos alguns dos figurões que, na história, assistem os jogos e acompanham os “competidores” com apostas e entretenimento. Apesar de a narrativa por vez ou outra adentrar um pouco mais a mente de certos personagens, não deixamos de ter a sensação de que estamos ainda assim afastados, com descrições precisas, por vezes detalhadas, que nos dão uma impressão de totalidade e detalhes que contribuem para esta sensação de maior frieza narrativa.

É através dessa violência algo distante que Takami passa as mensagens assim não tão ocultas, e nos entrega o seu trabalho no tema recorrente da confiança. Na espécie de cenário montada pelo Programa, é apenas natural que a distilagem de uma paranoia e um sentimento de todos contra todos exerçam uma função crucial em reunir os que se confiam e afastar os desconfiados. O “pode-se confiar?” é uma pergunta recorrente, onde aqueles que eram seus colegas, amigos e companheiros até o dia anterior se tornam o alvo de sua própria desconfiança, onde nem os melhores amigos ou os namorados podem realmente ter certeza de que os sentimentos são fortes o suficiente para superar o medo da morte ou a dualidade forçada entre matar ou morrer.

Ademais, li o livro só depois de já ter assistido ao filme, então não pude ficar muito surpreso com os eventos do final. Entretanto, várias das mortes e algumas das personalidades diferem das adaptações para a obra original, então é sempre válido dar uma chance ao volume enorme que é Battle Royale mesmo depois de já ter visto o filme ou, por acaso, lido o mangá. Se o começo é um pouco mais devagar, a segunda metade da obra já engata melhor com, sim, mais ação, mais “porradaria”, e mais sangue. Mas, aqui, não temos muito como escapar da violência. Vi chamarem de pulpy, de comparar com os filmes trash, mas é: tem bastante sangue; e as pessoas parecem ter uma enorme resistência à dor, mas ainda assim, é bem legal.

Eu juro.

Não achei foto decente do autor então vai essa.


Ficha técnica

  • Tìtulo: Battle Royale
  • Tìtulo original: Batoru Rowaiaru
  • Ano de publicação: 1999
  • Edição lida: Globo Livros, 2014.Tradução de Jefferson José Teixeira
  • Número de páginas: 664
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