No zênite

no zeniteUma das minhas experiências de leitura mais demorados do ano, mas não é por isso que No zênite deixa de ser belo. O romance é assinado pela escritora vietnamita Duong Thu Huong e perpassa anos em suas mais de quinhentas páginas, através de uma escrita cuidadosa e paciente, que faz questão de deixar os acontecimentos se desdobrarem com a delicadeza e melancolia de uma pessoa no fim da vida.

Tal pessoa é Ho Chi Minh, líder e idealizador da revolução comunista que dividiu o Vietnã em dois durante a época da Guerra Fria. Aqui ele é chamado apenas como o “Presidente”; é pintado com certas liberdades o retrato de um homem desiludido com o que ajudou a criar, com as pessoas com as quais se cercou, e com as decisões de vida que resultaram na sua profunda solidão. Figura central no romance de Thu Huong, o Presidente, em seus anos finais de vida, está isolado em uma construção próxima a um templo localizado em uma montanha afastada dos centros urbanos, próxima a uma aldeia de lenhadores e deixado para definhar enquanto é cuidado pelos soldados de seu exército.

Lá lhe colocaram com as desculpas de que está frágil e de que sua vida é preciosa para o povo do Vietnã, e por isso ele deve se submeter a um regime de isolamento e reclusão conforme a velhice desce sobre sua alma. Seu tempo para pensar, somado aos acontecimentos de sua vida passada e as mensagens e visitas que ainda recebe de seu único amigo, fazem com que seu ser desiludido afogue-se em reflexões sobre o que deveria ter feito de diferente em sua vida.

No zênite divide-se em algumas partes com um certo núcleo de acontecimentos. Após acompanharmos no começo as reflexões do Presidente e de seu amigo, o fictício Vu (mas baseado, também, em outra figura da história revolucionária vietnamita), o foco muda. A morte de um patriarca na aldeia de lenhadores, os gritos desesperados de seu filho e o enterro vindouro comovem o Presidente, que pensa sobre o filho que jamais conheceu.

Então somos apresentados à história deste patriarca, que apresenta vários elementos da cultura vietnamita e o modo de viver dos aldeões da época. O respeito pelas tradições, o estado social, econômico e cultural de uma aldeia, o drama familiar intenso, filhos contra pais, mortes, viúvos e novos casamentos, ressentimentos, amores, e jogos de influência – a saga de um conflito intrafamiliar que acaba se tornando o grande acontecimento de uma aldeia afastada dos centros urbanos. O que pode por uns ser visto como uma digressão da história principal para um novo foco narrativo é também um recurso da autora para nos mostrar a vida e os tempos de uma nação em conflito interno, e ainda formando um paralelo com a história do Presidente. Quando o filho volta-se contra o pai, podemos ver a representação em menor escala da nação, mesmo sem saber, voltando-se contra o seu próprio Pai (como é apelidado, vez ou outra, o Presidente), negando-lhe a realização da própria vida através de seus comitês e burocratas da elite.

Histórias de gente banal e de gente importante, grandes e pequenos dramas que não parecem assim tão diferentes; é interessante ver como a contraposição de cada dilema pessoal tem seus pesos independentemente da importância do personagem que o sofre. O Presidente tem um drama objetivamente mais importante em sua solidão e desilusão que um comandante que busca vingança pelas injustiças cometidas contra sua família? E algum destes é mais vital que o embate entre pai e filho da aldeia dos lenhadores? O que falar da aldeã solitária que, tendo apenas o pai já falecido como referência, tenta angariar as graças de seus vizinhos?

Estes pequenos dramas são entremeados com o retrato da política e alta-sociedade vietnamita: como os revolucionários tornaram-se os burocratas; a corrupção de pessoas e ideais que propiciou a desilusão do Presidente; os esquemas para tomada de poder; o desprezo pela vida de cidadãos em guerras supérfluas, civis e externas, em prol de uma farsa ideológica que interessa apenas às elites que se tornaram os guerrilheiros de outrora. Forma-se, no final, uma imagem severa e negativa a respeito dos fins da revolução comunista que acendeu o Vietnã nas décadas da Guerra Fria.

Foi uma leitura demorada. Mais de quinhentas páginas e um ritmo sereno formam uma experiência literária de bastante contemplação, mas acabam estendendo o tempo de leitura. Peso na mochila, acabei deixando o livro de lado por uns tempos para me engajar em experiências mais leves e curtas. Mas talvez seja uma boa maneira de apreciar esta obra: pequenas porções espaçadas, com um tempo de pensamento, e uma leitura que, no final das contas, acabou durando quase dois meses. Ademais, os grandes hiatos que entremeavam meus períodos de leitura, por incrível, não fizeram com que perdesse o fio da meada; o livro facilmente volta a engatar e recuperar tom, ambientação e narrativa sem muito esforço.

Em um misto de menores e maiores histórias, representações do povo e da elite, do belo e do grotesco na sociedade da época, Duong Thu Huong pinta um retrato feito para a contemplação, e forma uma história que parece feita para se ler aos poucos, com paciência e serenidade, em uma espécie de melancólica reflexão como pela qual passa o protagonista da história.

Duong Thu Huong

Duong Thu Huong


Ficha técnica

  • Tìtulo: No zênite
  • Título original: Đỉnh Cao Chói Lọi
  • Ano de publicação: 2009
  • Edição lida: Alfaguara, 2011
  • Número de páginas: 552
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