Ética

eticaÉ difícil acompanhar um livro téorico quando não se tem lá uma base muito avançada no campo de conhecimento abordado; geralmente limito-me a buscar por algumas introduções ou manter um mínimo de conhecimento sobre o tema antes de me aventurar em alguma não-ficção mais aprofundada, quanto mais uma parte da filosofia ou um campo de conhecimento amplo como a ética. Por sorte, o livro de Adolfo Sánchez Vázquez, recomendado-me como a bibliografia de uma das disciplinas da graduação, é um caso de livro introdutório. Dos recomendados, era o que parecia mais geral e, de fato, serve para dar um panorama aparentemente completo da teoria da moral. O autor admite o seu caráter didático e introdutório em suas primeiras palavras na apresentação da obra:

Este livro pretende introduzir o leitor no estudo dos problemas fundamentais da ética. Conbecendo-o desta maneira, com texto introdutório, tivemos presentes as exigências do ensino desta disciplina nos cursos universitários, nos institutos normais e nas escolas técnicas preparatórias. (p. 9)

Exigindo apenas um mínimo de conhecimento de algumas disciplinas fundamentais das ciências humanas — história, filosofia, antropologia, sociologia etc — o livro trata de abarcar diversas facetas e características da teoria da moral, a ética, de forma a deixar o leitor bem acostumado com todos os seus aspectos. A cada capítulo, desde a introdução ao objeto de estudo da ética, a moral, até sua história, essências, valores, avaliação, como se realiza, e encerrando com uma exposição e leves resumos, também bem didáticos, das doutrinas éticas fundamentais (ética grega, religiosa, moderna e contemporânea). Assim, serve bem ao seu propósito de servir de bibliografia básica e porta de entrada ao ensino da ética em cursos e universidades.

Dito isso, é claro o motivo de eu recomendá-lo tão somente a quem procura uma introdução ao tema — aqueles que já o conhecerem superficialmente e desejam se aprofundar, talvez devam procurar por uma obra de outro perfil.

A moral é o objeto de estudo da ética. A moral seriam os valores teóricos e práticos, não-coercivos e aderidos voluntariamente que serviriam para modular e regular as relações entre indivíduos e destes para com a sociedade. Em Ética muitas das suas facetas são analisadas e apresentadas: o que é a moral; o seu aspecto individual que se relaciona com o aspecto histórico-social; a sua essência não-natural, mas adquirida socialmente; a sua relação causal-determinística em relação ao meio, e não espontaneamente desenvolvida no indivíduo. Estes aspectos são discutidos por inúmeros teóricos, e dos maiores nomes o autor faz um pequeno apanhado.

Apesar de apresentá-los, entretanto, deve-se ter em conta de que não se mantém completamente neutro e imparcial — não apenas os enumera e expõe, mas também apresenta críticas às suas concepções da moral, sua natureza e desenvolvimento, tomando o lado de apresentar as contradições e falhas que, sob seu ponto de vista, cada teórico deixa passar em relação à própria visão de como se comporta a moral e de sua importância para o desenvolvimento histórico-social da humanidade.

Esta crítica é feita sobre um prisma de suas convicções a respeito do trabalho e naturezas efetivas da moral: de que a moral segue uma escala ascendente de progresso, desde a moral primitiva, passando pela moral escravista à moral feudal à moral moderna e então contemporânea; de que ela ascende conforme ao indivíduo são dadas as condições para que assuma maior responsabilidade por seus atos (ou seja, autonomia e liberdade) e de que haja uma reflexão a respeito da conduta e natureza da moral. Ou seja, a presença da ética como estudo e teoria seria sintomática de uma moral mais avançada do que em uma sociedade onde não esteja presente.

Assim sendo, fica claro também que Vázquez evita o relativismo ético, a crença de que diferentes valores morais muitas vezes opostos e contraditórios são igualmente válidos devido às sociedades nas quais estão presentes. Acredita que, sim, a moral e relativa às condições concretas sociais onde são presentes e aplicadas, mas isso não necessariamente implicaria em uma validade que transcende estas condições. E, para categorizar o juízo moral como válido, estabelece em seu penúltimo capítulo alguns critérios de avaliação: a coesão da norma com a sociedade em que é aplicada; a coesão da norma com as condições práticas de tal sociedade; a coesão da norma com o resto do código moral; a coesão da norma com o conhecimento técnico-científico; a coesão dialética da norma com o progresso moral. Ou seja, determinados juízos morais — por exemplo, racistas e sexistas — podem até estar de acordo com os três primeiros critérios, mas não o estariam com o quarto e o quinto, já que a ciência provara que as raças e os sexos não apresentam hierarquia e já que na escala de progresso moral, já teríamos ultrapassado moralmente tais preconceitos.

Através de seu próprio cunho teórico, Vázquez se dá ao luxo de criticar concepções de moral relatívisticos ou abstratos, que estariam afastados da realidade por não tratar do “homem concreto, histórico-social” que efetivamente percebemos no mundo sensível; criticando assim concepções como a hegeliana e kantiana que trariam conceitos absolutos e abstratos de humanidade e noções de “bem” que não teriam pragmaticidade nenhuma por seu afastamento do mundo real. Ao mesmo tempo, não deixa de admitir e apresentar as contribuições que efetivamente fizeram diferença para os estudos éticos até a sociedade contemporânea, tratando de teóricos diferentes conforme o aspecto da ética abordado em cada capítulo. Mas creio ser uma opção deliberada e se isso é um ponto forte ou fraco do livro, suponho que fique ao discernimento do leitor. O posicionamento existe, mas é relativamente razoável; entretanto, pode haver divergências. Mas, tratrando-se de uma introdução, a existência da crítica às teorias acaba tornando o resultado coerente com as explicações que compõem os primeiros capítulos do livro e suas conclusões próprios, tornando a obra bem coesa.

O problema principal seria os toques de prolixidade que o autor deixa passar aqui e ali. Talvez por pensar justamente que o livro pudesse ser passado apenas em trechos para os alunos de determinado curso, tendo em vista o propósito didático, o livro muitas vezes se repete e traz à tona conclusões e condições já estipuladas inúmeras vezes em capítulos anteriores (como o caráter do homem como animal sócio-cultural concreto e a natureza histórica da moral). Não incomoda tanto, mas se torna um tanto que chato depois de um determinado ponto de uma leitura linear do livro.

Não obstante, Ética ainda é um livro interessantíssimo e instrutivo para aqueles que desejarem se introduzir a este (mais vasto do que imaginava) campo de conhecimento, e é com certeza um bom ponto por onde se começar.

Adolfo Sánchez Vázquez

Adolfo Sánchez Vázquez


Ficha técnica

  • Tìtulo: Ética
  • Tìtulo original: Ética
  • Ano de publicação: 1997
  • Edição lida: Civilização Brasileira, 2004. Tradução de João Dell’Anna
  • Número de páginas: 304
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