Mês: agosto 2014

Shadow of the Giant

shadow-of-the-giantFiquei temeroso após a leitura de Shadow Puppets. Temia que o final da série fosse incrivelmente insatisfatório. Enquanto adorei o primeiro livro e gostei do segundo, o terceiro me deixou um bocado reticente quanto à conclusão do arco Shadow do “Enderverse” de Orson Scott Card. Os motivos estavam todos lá (e todos na resenha, também): uma espécie de doutrinação ideológica, uma mudança de foco em relação aos acontecimentos principais e “grandiosos” do enredo, uma mudança de personalidade de certas figuras-chave do mundo que me deixaram um tanto desgostoso com o terceiro volume.

O encerramento (a princípio) do arco Shadow em Shadow of the Giant era um que eu não sabia muito como deveria se desenrolar.  Logicamente, aqui começam os spoilers já que se trata do quarto livro de uma série e necessariamente pressupõe alguns acontecimentos dos volumes anteriores.  (mais…)

A literatura em perigo

A literatura em perigoO ensino de literatura nas escolas acaba se tornando inevitavelmente um ponto de debate entre diversas áreas; pedagogia, a própria literatura, e até em alguns pedaços da produção editorial, tendo em vista que o tema  influi em muito na formação de novos leitores que virão a ser a futura base de consumidores de um profissional da área. É interessante acompanhar a perspectiva de um crítico literário, ainda mais do renome ao nível de Tzvetan Todorov, historiador e teórico responsável por trabalhos como O homem desenraizado. Este é um de seus pontos principais abordados no magro volume de A literatura em perigo, ensaio quiçá cáustico no qual temos diversos elementos — principalmente vistos em seu país de moradia, na França — que supostamente estariam matando a literatura.

O volume se abre com uma curta introdução à edição brasileira, na qual se faz um beve paralelo da situação nacional com os elementos que Todorov critica na formação e ensino da literatura contemporânea francesa. E, a partir de seu primeiro capítulo, começa a questionar estas tendências artísticas naturais — a hermetização da literatura em uma espécie de imanência que se fecha por si mesma, destacando-se da realidade sensível em uma suposta autossuficiência emancipatória que seria característica intrínseca da arte. (mais…)

No zênite

no zeniteUma das minhas experiências de leitura mais demorados do ano, mas não é por isso que No zênite deixa de ser belo. O romance é assinado pela escritora vietnamita Duong Thu Huong e perpassa anos em suas mais de quinhentas páginas, através de uma escrita cuidadosa e paciente, que faz questão de deixar os acontecimentos se desdobrarem com a delicadeza e melancolia de uma pessoa no fim da vida.

Tal pessoa é Ho Chi Minh, líder e idealizador da revolução comunista que dividiu o Vietnã em dois durante a época da Guerra Fria. Aqui ele é chamado apenas como o “Presidente”; é pintado com certas liberdades o retrato de um homem desiludido com o que ajudou a criar, com as pessoas com as quais se cercou, e com as decisões de vida que resultaram na sua profunda solidão. Figura central no romance de Thu Huong, o Presidente, em seus anos finais de vida, está isolado em uma construção próxima a um templo localizado em uma montanha afastada dos centros urbanos, próxima a uma aldeia de lenhadores e deixado para definhar enquanto é cuidado pelos soldados de seu exército.

Lá lhe colocaram com as desculpas de que está frágil e de que sua vida é preciosa para o povo do Vietnã, e por isso ele deve se submeter a um regime de isolamento e reclusão conforme a velhice desce sobre sua alma. Seu tempo para pensar, somado aos acontecimentos de sua vida passada e as mensagens e visitas que ainda recebe de seu único amigo, fazem com que seu ser desiludido afogue-se em reflexões sobre o que deveria ter feito de diferente em sua vida. (mais…)

Contos de mentira

Contos de mentiraTalvez eu não tenha sido completamente sincero quando disse que aquele seria o meu último livro de contos por um tempo ao resenhar Ficção de polpa. A verdade é que estou em uma boa época para a leitura de contos, e crescentemente me apego a esta forma de expressão literária com a qual até este ano eu não tive muito contato real. Um pouco de costume aqui, uns experimentos ali, autores bons, autores nem tão bons, e vou me distraindo ao ler histórias menores, de uma só vez, várias pequenas experiências completas, em dose pequena, para contrabalancear o romance que lutei para terminar por dois meses e que em breve deve figurar em um post por aqui.

O alvo da vez foi o vencedor do prêmio Sesc de literatura na categoria contos em 2010: o livro de estreia de Luisa Geisler Contos de mentira, que chamou a atenção pela idade da autora (19 na época de publicação, 23 hoje) e por certa inovação em relação à linguagem utilizava, que escapa de uma simulação do já consagrado para investir em uma narrativa mais moderna e cinematográfica a partir de um jogo dinãmico de cortes e efeitos. (mais…)

A Scanner Darkly

A Scanner DarklyVou começar dizendo que A Scanner Darkly é meio bagunçado. Às vezes essa resenha fica também, vai saber. Não que os livros de Philip K. Dick sejam todos bem estruturados, sendo esta uma crítica recorrente que vejo por aí à sua obra. Uma falta de processo de rascunhos e o notado fato de escrever alguns de seus romances em um prazo de duas semanas muitas vezes contribuem para que o resultado saia um tanto quanto truncado, mas jamais senti tal dificuldade como neste romance que termino de ler agora.

Mas pode ser porque a bagunça seja, em partes, intencional, batendo com a tenática do romance, mas que não deixa o livro nem um pouco mais agradável de se ler. Demorei mais ou menos um mês para terminá-lo, lendo o primeiro quarto da história em uma semana, e outros três quartos em outra semana trinta dias depois. Demorou para engatar e para me chamar a atenção, li outros livros no meio-tempo, e foi uma experiência mais arrastada que outros trabalhos do Dick, como Palmer Eldritch Flow my tears, the policeman said. 

Pode ser que tenha algo a ver com a época em que fora escrito, mais para o final de sua vida (1977), haja visto que VALIS não é a leitura mais fluida de todas, e The Divine Invasion foi criticado por também parecer mais um rascunho, segundo uns, do que uma obra inteiramente acabada. Apesar de pecar em sua estrutura e forma, entretanto, A Scanner Darkly possui temas bem fortes e uma abordagem algo ambígua sobre um assunto polêmico: o mundo do abuso de drogas.

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