Ninguém escreve ao Coronel

coronel_SAIDA_2b_texto_novoMinha quinta leitura do Gabriel García Márquez, não estava esperando por uma história longa e complexa – até porque uma mera olhadela no livro não deixa espaço para tamanha especulação. Ninguém escreve ao coronel, um livrinho de noventa páginas, quase cem, conta uma história simples mas ao mesmo tempo carregada de significado, e, apesar de não ter me conseguido envolver como eu gostaria, eu reconheço o seu mérito em passar uma visão desejada do mundo por parte do autor.

Na não-sei-quão-famosa Escala de Idealismo vs. Cinismo na ficção, este provavelmente fica bem puxado para o segundo extremo. Um coronel anônimo, só chamado de Coronel por toda a história, lutou pelo seu país em uma das rebeliões (que seria depois retratada mais longamente na magnum opus do autor, Cem anos de solidão). Após a rendição do seu superior, e de todo o seu grupo, ele também é aposentado com promessas de uma pensão com a qual futuramente poderia pagar as suas despesas. A guerra acabou há cinquenta e seis anos, o seu nome saiu no processo como ganhador da bolsa há quinze, e todas as sextas o Coronel vai ao porto da cidade esperar a correspondência – é nessa semana que ele receberá a pensão. Mas ele não recebe nenhuma carta, não recebe a sua pensão, e ninguém escreve ao Coronel. E, sem a pensão, só pode viver quase que passando fome, com seus poucos pertences de outrora, a sua mulher (teimosa, mas carinhosa), e um galo de rinha que seu filho deixou para trás antes de ser fuzilado por distribuir panfletos subversivos. 

A história faz um bom e meritoso esforço em expressar a angústia do Coronel e de sua esposa, dos problemas que eles estão passando e dos dilemas que evem enfrentar. Devem vender ou matar o galo para garantir o sustento por mais alguns dias, sob a pena de não deixá-lo para possivelmente ganhar nas apostas da rinha? Além de remover de suas vidas a única memória concreta do filho? Devem vender os poucos pertences que lhe restam, afim de conseguir comprar alimentos não para si mesmos, mas para o galo também? Devem ser discretos, para evitar que a cidade inteira saibam que os dois passam fome? A humilhação!

O livro parece ser parte de uma alegoria recorrente de García Márquez na condenação de um conformismo. Todos os dias, o Coronel espera a sua carta. Sua mulher espera e urge para que aja, venda alguma coisa, consiga o dinheiro, mas ele teima em esperar a carta que, há quinze anos, não vem. E ele diz que virá, porque agora não pode faltar muito. Estão sobrevivendo de migalhas, mas deve chegar a qualquer momento. Não é difícil enxergar por trás do textual para identificar a mensagem que o autor busca passar em suas curtas páginas, e não e uma mensagem condenável. Mas é uma história triste.

Talvez devido a isso, não consegui criar um forte vínculo com os personagens ou com a cidade. Mantive-me distante durante toda a história, jamais conseguindo aquela empatia que tão torna as leituras agradáveis. A minha sorte é que o livro, sendo curto, não necessitava um grande investimento de esforço para a leitura. O linguajar não é rebuscado em demasia e os personagens têm um espectro de realidade, mas a tristeza que transpira das páginas é algo angustiante.

Não foi uma leitura muito marcante, mas não foi desagradável. Talvez a brevidade da história não tenha me dado tempo o suficiente para eu me adaptar ao ambiente, à narrativa; me apegar aos personagens, e sentir melhor a angústia e a tristeza que eu suponho que tenha sido as emoções que o autor quisera passar.

Uma trívia: fato interessante é que o livro, escrito sete anos antes de Cem anos de solidão, já traz referências ao ilustre coronel Aureliano Buendía e à cidadela fictícia de Macondo, inclusive com o coronel protagonista rememorando algumas passagens que seriam narradas no livro posterior. Pergunto-me por quanto tempo Gabriel García Márquez deixou sua magnum opus cozinhar antes de escrevê-la – ou terminá-la – de fato.

Ficha técnica

  • Tìtulo: Ninguém escreve ao coronel
  • Tìtulo original: El coronel no tiene quién le escriba
  • Ano de publicação: 1968
  • Edição lida: Record, 2014. Traduzido por Danúbio Rodrigues
  • Número de páginas:94
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