philip k. dick

A Scanner Darkly

A Scanner DarklyVou começar dizendo que A Scanner Darkly é meio bagunçado. Às vezes essa resenha fica também, vai saber. Não que os livros de Philip K. Dick sejam todos bem estruturados, sendo esta uma crítica recorrente que vejo por aí à sua obra. Uma falta de processo de rascunhos e o notado fato de escrever alguns de seus romances em um prazo de duas semanas muitas vezes contribuem para que o resultado saia um tanto quanto truncado, mas jamais senti tal dificuldade como neste romance que termino de ler agora.

Mas pode ser porque a bagunça seja, em partes, intencional, batendo com a tenática do romance, mas que não deixa o livro nem um pouco mais agradável de se ler. Demorei mais ou menos um mês para terminá-lo, lendo o primeiro quarto da história em uma semana, e outros três quartos em outra semana trinta dias depois. Demorou para engatar e para me chamar a atenção, li outros livros no meio-tempo, e foi uma experiência mais arrastada que outros trabalhos do Dick, como Palmer Eldritch Flow my tears, the policeman said. 

Pode ser que tenha algo a ver com a época em que fora escrito, mais para o final de sua vida (1977), haja visto que VALIS não é a leitura mais fluida de todas, e The Divine Invasion foi criticado por também parecer mais um rascunho, segundo uns, do que uma obra inteiramente acabada. Apesar de pecar em sua estrutura e forma, entretanto, A Scanner Darkly possui temas bem fortes e uma abordagem algo ambígua sobre um assunto polêmico: o mundo do abuso de drogas.

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Realidades adaptadas

Realidades adaptadasNão é um segredo escondido a sete chaves que Hollywood se dá bem com Philip K. Dick. Não exatamente em um sentido literal. Apesar de diversas obras do autor terem sido adaptadas para as telonas, a primeira – o icônico Blade Runner – só veio a ser exibida três meses após a sua morte. Mas desde então não foram poucas as suas histórias que encontraram a sua face no audiovisual. Muitas vezes modificadas pesadamente.

A Aleph, responsável pela obra de Dick no Brasil, concatenou uma edição inédita a partir de uma ideia muito intuitiva. Fico até surpreso de não ter sido feita antes; daquelas ideias que, ao vermos, pensamos “nossa, parecia tão claro!”, mas que só aparece depois que finalmente a vemos feita. Kudos! Reuniram os contos de Dick adaptados para o cinema e juntaram em uma edição, comentando brevemente no começo de cada sobre a data de lançamento do filme e alguns artefatos de adaptação. Daí temos Realidades adaptadas, volume reunido recentemente sob a tradução de Ludimila Hashimoto.

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Divine Invasions: The Life of Philip K. Dick

22587Imagino que, na confecção de uma biografia, a questão da verificabilidade das informações sempre pose uma questão fundamental para o autor. Quando apostamos em traçar uma linha de vida a partir de depoimentos, correspondências e confissões, temos que acreditar que o que está sendo dito (ainda mais quando se referem a causos de uum passado distante) são de fato os acontecimentos que ocorreram. E aí temos outro problema fundamental: a memória, sempre composta a partir do presente, geralmente apresenta discrepâncias. Lembranças, e portanto depoimentos, são imperfeitos. Um ponto de vista subjetivo a respeito de acontecimentos passados.

Pode-se ver como Lawrence Sutin enfrentou estes dois problemas em sua biografia Divine Invasions: The Life of Philip K. Dick. Não raro vemos testemunhos contraditórios durante a narrativa, geralmente entre o biografado e a outra pessoa que participou das cenas que descreve; seja em depoimentos para outras pessoas, seja em suas anotações e cartas. Sua vida era guiada por crises; sendo assim, sua resposta a cada crise era um testemunho distinto da pessoa com quem ele entrou em conflito. E, como disse sua mãe Dorothy, Philip funcionava melhor em crises. Tanto que pulava de uma para a outra — não funcionaria de forma alguma em um cenário normal de um dia ensolarado.

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The Three Stigmata of Palmer Eldritch

Three Stigmata of Palmer Eldritch, TheEste é um dos livros considerados mais clássicos de Philip K. Dick (junto com Androides sonham com ovelhas elétricas? O homem do castelo alto), e foi lançado aqui no Brasil pela editora Aleph como Os três estigmas de Palmer Eldritch. É uma experiência de leitura fluente, que me remeteu a outro livro do autor, Ubik, por alguns elementos no enredo e pela experiência de leitura. Ambas me animaram mas me deixaram pensativo, ambas trabalham principalmente as diferenças entre a realidade, o simulacro, e nossas percepções. Entretanto, são livros diferentes, com temáticas diferentes, e Palmer Eldritch é um de seus primeiros a explorar a temática religiosa cristã.

Em um mundo extremamente quente, onde as pessoas vivem com ar condicionado e não podem ficar muito tempo expostas ao sol (não muito diferente do Rio de Janeiro de 2010), o planeta está quase superpopuloso e o governo terrestre manda pessoas para emigração compulsória aos outros planetas do sistema solar. Os colonos devem viver em barracos apertados e sem muita privacidade, e o único alívio que encontram para seu suplício é a droga Can-D, que faz com que sejam “traduzidos” e tenham suas consciências transportadas para uma casa de bonecas. Incorporam o “layout” da casa de bonecas e podem, por um tempo indeterminado, viver a vida ideal, de volta a uma Terra agradável e se esquecendo das preocupações do mundo. (mais…)

The Divine Invasion

10846065Segundo volume da “trilogia VALIS” de Philip K. Dick, The Divine Invasion (literalmente, “A invasão divina”) é, digamos, bem mais deglutível que o seu predecessor. A trilogia é composta do homônimo VALIS, deste livro que tratamos aqui, e a sua “continuação” The transmigration of Timothy Archer, que deve aparecer por aqui também muito em breve. O fato de formarem uma trilogia, assim nomeada por Dick, não quer dizer que sejam os três livros intrinsecamente ligados. Na realidade, não dividem sequer um personagem ou ambientação. A ligação é puramente temática: gnosis, conhecimento, teofania, a intromissão dos seres divinos sobre as relações humanas, a realidade como construção e simulacro, e todos os temas ligados à mitologia e teologia judaica, cristã, islâmica, e gnóstica.

The Divine Invasion é mais assimilável que seu predecessor no sentido que é menos um tratado teológico, com trechos da Exegesis e vômito de conhecimento mesclado à ficção que Dick nos apresentou, e mais uma história com enredo e personagens próprios. É mais padrão em ser um romance bem delineado, com suas fronteiras com a autobiografia mais definidas. Não obstante, não deixa de ser uma obra em certos pontos autobiográfica, com os temas recorrentes de VALIS que advêm da vida de Dick também encontrando espaço em suas páginas. E mais, as suas ideias e conhecimentos também transbordam aqui. Li que, na escrita de The Divine Invasion, PKD ficou um ano refletindo (após a publicação de VALIS) e escreveu o livro em si em questão de duas ou três semanas. Isso é, digamos, bem rápido. (mais…)