Mês: junho 2014

Neuromancer

NeuromancerEm um dia qualquer, se por acaso ligarmos a televisão e a sintonizarmos a um canal fora do ar, veremos um imenso plano azul. Um azul infinito, forte e jovial que, se visto no céu, será o indicativo de um lindo dia ensolarado. Essa é uma daquelas críticas pontuais mais recorrentes a Neuromancer: o defasamento de sua frase de abertura, que hoje se tornou anacrônica. Em 1984, quando William Gibson publicava um dos clássicos da ficção científica, seu equivalente era aquele chuvisco eterno e barulhento que com certeza também já vimos em televisões mais antigas.

Edições recentes comumente abrem com um prefácio de Gibson reconhecendo, em uma espécie de mea culpa, a questão com a sua frase de abertura. Não deixa de comentar alguns progressos que em breve mudariam radicalmente a nossa visão do futuro, como a invenção do telefone celular, que falhou em inserir ou sucedeu em omitir em sua obra.

Talvez seja fútil ler uma história de ficção científica escrita há décadas apontando o que ela previu ou deixou de prever. Um escritor pode, ao escrever um futuro não tão distante, procurar as modas tecnológicas em voga e extrapolá-las, imaginado que elas são o embrião de uma revolução científica. Em uma espécie de futuro mais distante, pode perfeitamente tirar soluções e respostas do puro ar. É mais fácil prever 2025 do que 5025. E, por outro lado, pode simplesmente procurar as mudanças que prefere para criar um eixo dramático mais interessante, mais divertido. A FC, afinal, busca lidar mais com a reação da humanidade à mudança tecnológica do que com a tecnologia de fato, salvo algumas exceções. (mais…)

Doctor Sleep

Doctor Sleep“FEAR stands for fuck everything and run.” — Old AA saying.

Continuações são sempre uma matéria complicada, especialmente quando o primeiro livro é considerado um clássico do gênero. Entre O iluminado Doctor Sleep se passaram trinta e seis anos. Nestas décadas Stephen King cresceu como nome, marca, e escritor; tivemos uma adaptação para o cinema que também se tornou um clássico por si só; e a reputação de O iluminado é quase tão grande quanto a do seu autor. Então como se abordar uma tentativa de continuar esta história, de revisitar seu cânone e ressuscitar fantasmas esquecidos?

Fazendo um livro bem diferente. Lembro-me de ter lido O iluminado em 2010 e, ao saber dessa continuação, hibernava o desejo de lê-la muito em breve. Surgiu a oportunidade quando ganhei um exemplar como um lindo e ótimo presente de dia dos namorados (agradecimentos especiais ao Meu Amor™). Percebi então que sentia saudades da escrita do King. E fiquei bastante satisfeito.

Doctor Sleep foi muito bem recebido, inclusive ganhando um dos prêmios do Goodreads Choice Awards 2013. Não obstante, não deixou de ser um livro decepcionante para muitos, que esperavam outro O iluminado para, com o perdão do trocadilho, iluminar suas estantes. Mas esta sequência tem outra abordagem para os temas e elementos do seu predecessor, e uma que eu, particularmente, achei bem inteligente. Se temos décadas de distância entre os dois livros, colocamos décadas de distância entre seus acontecimentos. Depois disso, acho que o essencial era Stephen King não tentar repetir O iluminado, reusar seus temas ao pé da letra e nos apresentar um “revisitando o hotel Overlook” — a experiência, caso o tivesse feito, não seria nada menos que desapontadora. (mais…)

Realidades adaptadas

Realidades adaptadasNão é um segredo escondido a sete chaves que Hollywood se dá bem com Philip K. Dick. Não exatamente em um sentido literal. Apesar de diversas obras do autor terem sido adaptadas para as telonas, a primeira – o icônico Blade Runner – só veio a ser exibida três meses após a sua morte. Mas desde então não foram poucas as suas histórias que encontraram a sua face no audiovisual. Muitas vezes modificadas pesadamente.

A Aleph, responsável pela obra de Dick no Brasil, concatenou uma edição inédita a partir de uma ideia muito intuitiva. Fico até surpreso de não ter sido feita antes; daquelas ideias que, ao vermos, pensamos “nossa, parecia tão claro!”, mas que só aparece depois que finalmente a vemos feita. Kudos! Reuniram os contos de Dick adaptados para o cinema e juntaram em uma edição, comentando brevemente no começo de cada sobre a data de lançamento do filme e alguns artefatos de adaptação. Daí temos Realidades adaptadas, volume reunido recentemente sob a tradução de Ludimila Hashimoto.

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O bigode / A colônia de férias

O bigode & A colônia de fériasDuas novelas em um volume, O bigode A colônia de férias não parecem, na leitura da orelha, histórias relacionadas. Temi que tivessem jogado duas histórias do autor, Emmanuel Carrère, em um único volume. Após a leitura, entretanto, quaisquer dúvidas são dissipadas: há uma unidade temática em ambas. É perceptível que a paranoia, o trauma, a descida em um monólogo interno de um personagem desamparado, são elementos que formam entre os dois uma espécie de união que funciona muito bem.

São histórias de terror e suspense psicológicos, voltadas para a interioridade de seus protagonistas. Angústia definiu a minha experiência com O bigode. A proposta da primeira novela, curiosíssima, se transforma em um conto de “dúvida” até o seu medonho desfecho. Começa com a pergunta do protagonista à sua esposa, Agnès: “o que você diria se eu raspasse o bigode?” Ele cuida de seu bigode há dez anos, desde antes de se conhecerem. Em chiste, ela lhe responde que seria bacana, e ele, sem levar muito a sério, desafia sua piada ao remover de fato o bigode. O problema é que, ao o ver, Agnès não exibe reação alguma. Ao ser questionada, está confusa: ele nunca usou pelo facial algum. (mais…)

Uma noite em Curitiba

Uma noite em CuritibaPercebo que um tema recorrente na literatura é a relação entre um pai e seu filho. Ou, melhor ainda, entre o filho e seu pai. Presente desde em obras como o já resenhado A invenção da solidãopassando mesmo por ficção considerada mais “de gênero” como Os filhos de Anansi, até a literatura clássica de Sófocles em Édipo… Talvez o arquétipo do filho contra seu pai, o embate de gerações, tenha muito a nos dizer.

Pudera! Temos grande material a ser aproveitados da relação: infância, possível rejeição, o período frágil da relação na criação paterna; a figura de autoridade, que é vista como ídolo e que é desconstruída na adolescência, que pode se desenvolver para uma amizade ou um embate; a quebra do convívio familiar, o confronto final entre a geração que vai e a que fica. O que foi, o que é, o que será, o que está batido, precisa ser renovado, e o impulso incontrolável por liberade que transfigura o comportamento. Quando o pai esbanja autoridade ou fama, então, torna-se quintessencial a ruptura, a fuga da sombra; deve-se aspirar pela libertação do titã que o precede, livrar-se dos grilhões de uma expectativa elevada. A figura do pai, do predecessor, torna-se importante não apenas no âmbito particular e íntimo, mas também na arte e, por consequência, na literatura. (mais…)