Ficção de polpa, volume 1

Ficção de polpaAcho que a última antologia que lerei por enquanto, Ficção de polpa me lembrou muito de Geração subzero, lida mais cedo neste mês. Creio que o fato desta ser a terceira resenha seguida de um livro de contos seja em parte coincidência, em outra decorrência de que é mais simples a leitura de contos durante uma viagem, que foi quando eu tanto terminei Final do jogo quanto comecei o primeiro volume desta série idealizada pela Não-editora que já acumula quatro coletâneas de histórias curtas.

A coleção idealizada e organizada pelo fundador da (não) editora, Samir Machado de Machado, almeja atingir o entretenimento despretensioso. A premissa é similar a da antiantologia de Felipe Pena, diferindo aparentemente na motivação ideológica: Ficção de polpa anseia explorar e estimular um pouco da ficção especulativa nacional, apesar da nossa suposta falta de tradição no ramo, não tendo criado a cultura da pulp fiction norte-americana.

Enquanto nossos amigos anglófonos tiveram acesso a reputáveis revistas como a Astounding, onde grandes nomes de ficção científica como Asimov, Clarke e Heinlein desenvolveram sua reputação, no Brasil as tentativas de trazer uma ideia similar em território nacional resultou em várias curtas tentativas de revistas de alguns números, como explica em sua história da ficção especulativa no Brasil o estudioso Roberto de Sousa Causo. Entretanto, a existência de tentativas per se, além de alguns nomes brasileiros de reputação que engatinharam pelo terreno que conhecemos como os “gêneros menores” da literatura, além de uma razoável quantidade de escritores e obras que jamais atingiram o grande público, já comprovam que exista uma certa produção, ainda que majoritariamente desconhecida, dessa ficção no cenário literário brasileiro.

A esta o organizador atribui um caráter didático e educativo que por vezes beira, devido a antiquidade dessas tentativas, alguns elementos desconfortáveis dessas sociedades, como o racismo latente que aponta na história O presidente negro de Monteiro Lobato. E pretende com sua antologia livrar-se deste aspecto indesejado da ficção especulativa brasileira ao apresentar em sua antologia contos com a função principal de entreter seus leitores e “explodir suas mentes”.

astounding-science-fiction-rocket-shipEntretanto, assim como na antologia de Pena, o resultado de uma tentativa de coleção despretensiosa de histórias divertidas acabou com um resultado irregular. Quando digo que a coletânea me lembrou de Geração subzero, foi tanto na proposta quanto em seu resultado: vários dos contos acabam não entregando o entretenimento ao qual se pretendem. Alguns resultaram em uma colegem de clichês da ficção especulativa (com admitido foco em horror). É possivelmente um resultado de ter procurado uma abordagem similar a da real “ficção de polpa”, que não era necessariamente conhecida por sua qualidade. É claro que nomes ilustres surgiram entre as páginas dessas revistas, mas como já dizia a lei de Sturgeon: 90% do que era escrito e publicado em suas páginas era, na falta de uma palavra melhor, ruim.

Em outros contos do livro, uma talvez tentativa de permancer por demais curtos acabaram com resultados apressados, que se esforçam em criar uma ambientação propícia ao medo mas apresentam uma falta de congruência que prejudicam o resultado final.

Admitidamente, a literatura de horror deve muito ao ambiente e criação de atmosfera, visto que seu principal objetivo é surtir um efeito na mente e comportamento daquele que lê. Não obstante, deve-se desenvolver uma história e personagens envolventes o bastante para que o leitor sinta-se engajado na ambientação. Ao criar ambientes típicos da literatura de horror, como o foco no noturno, no desconhecido, nos cantos escuros que não ousamos desbravar, uma atenção nos demais elementos da narrativa é necessária para que o leitor sinta que o conto está se desenvolvendo naturalmente. Quando as dúvidas sobre o porquê de tudo aquilo e os comos da situação se sobrepujaram à narrativa, o efeito se perdeu.

Reconhecidamente não sou muito afetado pelo horror em forma literária, mas ainda assim alguns dos contos me deixaram tenso e tiveram sucesso. Talvez isso derive do fato de o horror também, além de tudo, ser um sentimento intrinsecamente subjetivo, e seus efeitos variarem de pessoa a pessoa. É possível que muitos tenham sido inafetados pelos meus contos favoritos da coletânea, que listarei em breve, mas tenham gostado de outros.

Apesar de tudo, efeito ou não à parte, não consegui me engajar por alguns que simplesmente não me agradou a escrita, por motivos estéticos, por algumas figuras de linguagem  e recursos narrativos que vez ou outra me pareceram por demais fora de lugar ou batidos demais que acabaram com minha suspensão de descrença. Creio eu que a melhor narrativa, no âmbito do entretenimento, seja aquela que lhe consiga apresentar a história de modo envolvente sem te lembrar que ela existe, que você está a ler. Quando emperramos na leitura para reparar naquela figura de linguagem, naquele recurso, naquela frase fora de lugar, o efeito de imersão se desfaz, e daí um dos motivos de uma experiência insatisfatória com boa parte da antologia.

Os contos que mais me agradaram são os que fogem mais do lance do terror e da ficção especulativa reminiscente das pulps antigas, ironicamente. Figuram entre os meus favoritos O fígado, de Sílvio Pilau, me surpreendeu positivamente ao narrar uma briga de um alcoólatra com seu fígado, agora de dois metros, que está tentando lhe assassinar por maltratar dele a vida toda, com uma premissa que me lembra O nariz de Gogol. Funghi, de Luciana Thomé, com seus cogumelos ambulantes.  O desvio, de Antonio Xerxenesky, uma discussão entre uma gótica e um motorista sobre algum deles possivelmente ser o diabo. E uma tensão foi bem construída pelo Quando eles chegaram, de Rafael Ban Jacobsen, que entrega horror e ficção científica em um único envelope.

Encerra-se a antologia com seu “extra”: uma tradução do conto O cão de caça, de H.P. Lovecraft, coerente com a proposta da coletânea e com seu resultado pendente ao horror. Um conto que não tinha lido, mas que gostei e achei um complemento muito válido para fechar o primeiro volume. Não acredito que eu vá procurar pelos próximos volumes de Ficção de polpa, visto que muitos dos autores se repetem e, no geral, eu esperava mais deste primeiro volume, com apenas alguns poucos contos que verdadeiramente agradaram.

Samir Machado de Machado

Samir Machado de Machado, organizador


Ficha técnica

  • Tìtulo: Ficção de polpa, volume 1
  • Ano de publicação: 2012
  • Edição lida: Não editora, 2012, 4ª reimpressão. Tradução de O cão de caça por Samir Machado de Machado e Rafael Spinelli
  • Número de páginas: 128
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