Uma noite em Curitiba

Uma noite em CuritibaPercebo que um tema recorrente na literatura é a relação entre um pai e seu filho. Ou, melhor ainda, entre o filho e seu pai. Presente desde em obras como o já resenhado A invenção da solidãopassando mesmo por ficção considerada mais “de gênero” como Os filhos de Anansi, até a literatura clássica de Sófocles em Édipo… Talvez o arquétipo do filho contra seu pai, o embate de gerações, tenha muito a nos dizer.

Pudera! Temos grande material a ser aproveitados da relação: infância, possível rejeição, o período frágil da relação na criação paterna; a figura de autoridade, que é vista como ídolo e que é desconstruída na adolescência, que pode se desenvolver para uma amizade ou um embate; a quebra do convívio familiar, o confronto final entre a geração que vai e a que fica. O que foi, o que é, o que será, o que está batido, precisa ser renovado, e o impulso incontrolável por liberade que transfigura o comportamento. Quando o pai esbanja autoridade ou fama, então, torna-se quintessencial a ruptura, a fuga da sombra; deve-se aspirar pela libertação do titã que o precede, livrar-se dos grilhões de uma expectativa elevada. A figura do pai, do predecessor, torna-se importante não apenas no âmbito particular e íntimo, mas também na arte e, por consequência, na literatura.

A figura do pai é não apenas presente mas fundamental neste romance de Cristovão Tezza, publicado pela primeira vez em 1995 e reeditado pela Record agora no começo de 2014. Em Uma noite em Curitiba, somos apresentados ao excelentíssimo professor Frederico Augusto Rennon, historiador com uma bibliografia da escravatura e ciclos do café sobre as costas. A apresentação é feita por seu filho, o jovem anônimo que deseja compilar a correspondência de Rennon relacionada a um causo de vergonha: epístolas de seu pai à nacionalmente famosa atriz Sara Donovan. As cartas se iniciam com um cunho estritamente oficial, convite a um colóquio. De maneira não tão sutil, transfiguram-se em algo de textura muito mais pessoal, em uma íntima correspondência entre duas figuras, agora relevantes, que se conheceram em uma época distante, uma revolta escancarada durante o ano de 69 no período de ditadura militar.

Tezza esbanja dualiades ao construir as duas vozes que se emparalelam em duelo neste romance: o filho, irônico e azedo, já dá razão ao existir do livro nas primeiras frases: “Escrevi esse livro por dinheiro”. Compila o drama epistolar de seu genitor, comenta, e aparentemente se aproveita de uma suposta polêmica envolvendo o requisitado professor Rennon para levar o livro à luz. Este filho e narrador já assume que será julgado pelo livro oportunista; já aceita a vergonha, expõe que já foi taxado de mentalmente problemático a vida todo, devido a um acidente que lhe deu uma placa de platina no crânio. Em paralelo, as cartas do professor Rennon à srta. Donovan, com um formalismo palpável, tornam-se crescentemente líricas e ardentes, de uma paixão insegura que em simultâneo apresenta a fragilidade de seu ego e a pompa de seu status.

Assim, constrói-se o retrato duplo: Frederico Rennon a cada carta desconstrói e reconstrói a noite em Curitiba do colóquio e seu reencontro, quando ambos se entregam a uma paixão que parece remontar a longe. Sua desilusão com a vida que tem de manter se torna cada vez mais palpável: a mulher, encamada de uma doença psicossomática, o filho, que considera um desajustado, idiota robótico que só serve para ficar perambulando o ambiente noturno da casa. Construiu sua figura e seu montante, como professor bem respeitado, catedrático de status orgulhoso, rígido, metódico, meticuloso. Um homem “travado”, termo recorrente na narrativa, e Tezza tem sucesso em alcançar a caracterização almejada: mesmo em seus mais delirantes anseios de paixão, não dá para deixar de pereber que ele tem certo receio, uma pose, desejo de se entregar que jamais chega a se concretizar completamente em seu âmago pela sua própria natureza.

À figura do professor temos as duas figuras com as quais interage principalmente: a atriz Sara Donovan, a figura pululante de um talento artístico latente, pessoa que se entrega aos desejos e impulsos do momento, sem grilhões, é quem lhe tira do seu marasmo acadêmico para redescobrir as cores da vida, quem lhe causa o impulso de jogar não apenas o rigor, mas a família também, para o alto. Desta jamais ouvimos um pio, temos de confiar em seu retrato pintado por Rennon. Explica-se: ele lhe manda cartas, ela lhe responde em telefonemas. Como diz o professor em um trecho: “você é uma voz, eu sou um texto”, justificando-se na sua falta de jeito com a palavra oral, com o conforto da página sendo completa pelas letras, preto no branco.

Do outro lado, temos seu filho, que comenta as cartas, entremeia seu texto com o do pai e causa o confronto geracional. É o novo, é o rapaz que parece ter desistido da vida. Segundo o que é dito, muito inteligente, mas muitíssimo pouco esforçado, passa seus dias por tentar criar uma carreira de poeta, compondo constantemente. Como um flâneur dos espaços pessoais, apenas vaga sem propósito no espaço de sua casa, mais tarde, sob a suspeita das saídas de seu pai, para vigiá-lo, segui-lo, destrinchar seus malfeitos. Seu texto é diferente: mais seco e ácido. Com o tempo e a leitura das cartas, não obstante, as figuras literárias de seu pai pai começam a transbordar e infectar o próprio texto; ele mesmo o reconhece. Vê esta pessoa que o precede, a bem respeitada figura paterna com glacial frieza no começo. Com o tempo, caem por terra as distâncias. Busca compreender o pai, sem deixar de sentir uma raiva mista à pena. Vê-o com o olhar inferior de filho sob sombra de Rennon, ao mesmo tempo que mesclado à condescendência para com um homem que, vê, cometeu erros, reconhece que viveu uma vida infeliz.

O jovem Rennon, não narrador, o personagem, busca alguma reconciliação: mão estendida. Inúmeras vezes estende a mão, pronto para chamar a atenção, para dizer: pai, estou aqui. Mas no que isso resultaria? No momento em que ambos estavam sozinhos, em uma clima razoável, face a face: “Sabe, filho, acho que não temos muita  coisa sobre o que conversar”.  A distância torna-se um limite intransponível. Entre o pai e filho, cisão e ruptura, uma separação além das possibilidades de mera reconciliação. Rennon não vê nada de si próprio no filho. Quem sabe, ledo engano.

É nessa duplicidade de vozes, a dicotomia pai e filho, presos em uma relação intransponível, em uma diferença e indiferença marcante que dá o tom para este romance metade epistolar que Tezza constrói em Uma noite em Curitiba. Outros elementos: a filha / irmã sumida da família Rennon; o misterioso incidente de 69 que liga Sara Donovan e Rennon em uma conversa indizível; a brusca mudança em sua esposa, Margarida, após o início do caso. Mas é notável que são nessas três figuras outras, pai, amante, e filho, em suas particularidades e diferenças, em suas expressões e seus relacionamentos, em seus dilemas e vidas passadas e presentes que se fundamenta este romance.

Cristovão Tezza

Cristovão Tezza


Ficha técnica

  • Tìtulo: Uma noite em Curitiba
  • Ano de publicação: 1995
  • Edição lida: Record, 2014
  • Número de páginas: 236
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