Shadow Puppets

234724A terceira entrada na Shadow Series de Orson Scott Card demora mais que seus dois antecessores para engatar. Uma continuação bem direta de Shadow of the Hegemon, este livro se passa alguns anos após os acontecimentos do anterior. Não fica claro quantos anos, se dois, três, ou um pouco mais, mas diria que está mais ou menos nesta faixa. E é um pouco decepcionante.

Em primeiro lugar, já não há mais um grande mistério que impulsione a narrativa – os planos dos personagens parecem mais previsíveis, o que faz perder um pouco do suspense do thriller político futurista que era Shadow of the Hegemon. Temo dizer que, em Shadow Puppets, Orson Scott Card perdeu um pouco a mão em prender o leitor como nos outros livros da saga, e talvez isso se dê principalmente devido a lições de moral, aqui mais explícitas. Na resenha de Shadow of the Hegemon, esclareci no final que, ao contrário de Ender’s Game Ender’s Shadow, o livro já começava a apontar um pouco dos valores que formam as opiniões tão polêmicas de Card. E aqui eu me senti particularmente incomodado com a falta de sutileza das ideias que ele inseriu em seu livro.

Uma sinopse, com alguns spoilers dos anteriores: Neste romance,  Achilles é mandado para a prisão pelo governo chinês e é resgatado pelas forças do Hegemon que, ignorando os avisos de todos, decide fazer algum uso do assassino em série. Bean e Petra, que há muito estão na “hitlist” de Achilles, renunciam a seus postos e fogem juntos para tentar sabotar o antagonista de algum refúgio seguro. O romance entre os dois, que teve seu setup em Shadow of the Hegemon, aqui torna-se um dos maiores focos da história e o local perfeito para Card vomitar seus valores. Como é sabido que Bean só terá mais alguns anos de vida como consequência de suas alterações genéticas, Petra quer desesperadamente se casar com ele e ter seus filhos. Ele está reticente, pois não quer passar a sua anomalia genética aos seus descendentes. Mas, através de persistência, argumentos e uma ou outra mentira…

Em diversos pontos do livro é reforçada a importância da criação de uma família, como a união entre um homem e uma mulher para ter filhos é o plano de Deus e que sem isso a vida de um ser humano nunca será completa e feliz. Daí pode-se abstrair donde Card tirou suas campanhas reconhecidamente homofóbicas. Rola também algum papo anti-aborto e anti-homossexual (este último implícito nos diálogos de como a união entre um homem e uma mulher é a única realmente válida, já que serve para a procriação e este é o objetivo primordial da nossa existência). Isso acaba incomodando, além de ser repetitivo e não adicionar ao enredo principal. Petra acaba se tornando uma personagem diferente dos livros anteriores, em sua ânsia de ter filhos com Bean, e não me agradou a brusca mudança nas motivações e personalidade da personagem, que tem sua pessoa reduzida de exímia estrategista à esposa-grávida-complacente.

A maior parte disso acontece na primeira parte da história. Shadow Puppets parece engatar de fato, e tomar as rédeas do suspense criado em seu antecessor, em sua segunda metade. Deixa de focar nos problemas existenciais e matrimoniais de Bean e Petra e volta à situação global, a fuga do Hegemon e o refúgio do casal em Damasco, na Síria. Se o papo casamentista da primeira metade é enfadonho, aqui ele parece recuperar a ambientação e as coisas importantes de fato acontecem.

Agora, esta opinião é parte de uma expriência de leitura subjetiva. Há motivos para o lance dos bebês, cria-se um subplot aí que se mescla com o enredo principal e provavelmente será levado adiante em Shadow of the Giant e faz sentido com algumas implicações que foram deixadas no livro anterior (o legado que Bean deixará, já que tem seus dias contados). Entretanto, eu particularmente desgostei do rumo que isso acabou levando (pareceu súbito demais), e nem todo o número de páginas que o assunto toma no livro, que parece se alongar demais. É desenvolvimento de personagem, mas… acho que  o número de vezes que bebês são citados é demais para os padrões de livros que são, em essência, romances sobre gênios militares.

Espero que Shadow of the Giant me agrade como me agradei lá em Ender’s Shadow. Mas não estou tão esperançoso.


Ficha técnica

  • Título: Shadow Puppets
  • Ano de publicação: 2002
  • Edição lida: Tor Science Fiction, 2002.
  • Número de páginas: 376
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