Contos de mentira

Contos de mentiraTalvez eu não tenha sido completamente sincero quando disse que aquele seria o meu último livro de contos por um tempo ao resenhar Ficção de polpa. A verdade é que estou em uma boa época para a leitura de contos, e crescentemente me apego a esta forma de expressão literária com a qual até este ano eu não tive muito contato real. Um pouco de costume aqui, uns experimentos ali, autores bons, autores nem tão bons, e vou me distraindo ao ler histórias menores, de uma só vez, várias pequenas experiências completas, em dose pequena, para contrabalancear o romance que lutei para terminar por dois meses e que em breve deve figurar em um post por aqui.

O alvo da vez foi o vencedor do prêmio Sesc de literatura na categoria contos em 2010: o livro de estreia de Luisa Geisler Contos de mentira, que chamou a atenção pela idade da autora (19 na época de publicação, 23 hoje) e por certa inovação em relação à linguagem utilizava, que escapa de uma simulação do já consagrado para investir em uma narrativa mais moderna e cinematográfica a partir de um jogo dinãmico de cortes e efeitos. (mais…)

Anúncios

A Scanner Darkly

A Scanner DarklyVou começar dizendo que A Scanner Darkly é meio bagunçado. Às vezes essa resenha fica também, vai saber. Não que os livros de Philip K. Dick sejam todos bem estruturados, sendo esta uma crítica recorrente que vejo por aí à sua obra. Uma falta de processo de rascunhos e o notado fato de escrever alguns de seus romances em um prazo de duas semanas muitas vezes contribuem para que o resultado saia um tanto quanto truncado, mas jamais senti tal dificuldade como neste romance que termino de ler agora.

Mas pode ser porque a bagunça seja, em partes, intencional, batendo com a tenática do romance, mas que não deixa o livro nem um pouco mais agradável de se ler. Demorei mais ou menos um mês para terminá-lo, lendo o primeiro quarto da história em uma semana, e outros três quartos em outra semana trinta dias depois. Demorou para engatar e para me chamar a atenção, li outros livros no meio-tempo, e foi uma experiência mais arrastada que outros trabalhos do Dick, como Palmer Eldritch Flow my tears, the policeman said. 

Pode ser que tenha algo a ver com a época em que fora escrito, mais para o final de sua vida (1977), haja visto que VALIS não é a leitura mais fluida de todas, e The Divine Invasion foi criticado por também parecer mais um rascunho, segundo uns, do que uma obra inteiramente acabada. Apesar de pecar em sua estrutura e forma, entretanto, A Scanner Darkly possui temas bem fortes e uma abordagem algo ambígua sobre um assunto polêmico: o mundo do abuso de drogas.

(mais…)

Ficção de polpa, volume 1

Ficção de polpaAcho que a última antologia que lerei por enquanto, Ficção de polpa me lembrou muito de Geração subzero, lida mais cedo neste mês. Creio que o fato desta ser a terceira resenha seguida de um livro de contos seja em parte coincidência, em outra decorrência de que é mais simples a leitura de contos durante uma viagem, que foi quando eu tanto terminei Final do jogo quanto comecei o primeiro volume desta série idealizada pela Não-editora que já acumula quatro coletâneas de histórias curtas.

A coleção idealizada e organizada pelo fundador da (não) editora, Samir Machado de Machado, almeja atingir o entretenimento despretensioso. A premissa é similar a da antiantologia de Felipe Pena, diferindo aparentemente na motivação ideológica: Ficção de polpa anseia explorar e estimular um pouco da ficção especulativa nacional, apesar da nossa suposta falta de tradição no ramo, não tendo criado a cultura da pulp fiction norte-americana. (mais…)

Final do jogo

Final do jogoApesar de ter publicado um clássico como O jogo da amarelinha, o qual ainda estou para ler, Julio Cortázar é bem mais conhecido por sua proficiência como contista. Tendo escrito tanto contos quanto sobre contos (lembro-me de ter lido algo a respeito em Valise de cronópio), pude ver nesse primeiro contato com a prosa do autor que ele sabe a que veio. Um livro já há tempos esgotado no Brasil, Final do jogo, relançado neste mês pela Civilização Brasileira, é um livro e um joguete: divididos em três níveis temos dezoito contos do autor, ordenados mais ou menos por dificuldade.

“Cada nível é medido pelo esforço de compreensão que se deve fazer para crer em cada um dos contos do autor”, explica a orelha. Assim, começamos pelo ‘fácil’ “Continuidade dos parques”, de apenas três páginas mas que já dá o tom da obra e da coleção de Cortázar, com uma proposta simples, uma linguagem nem tanto mas nada muito complicada, e um desfecho que me deixou, ao final, com um belo sorriso. Fui surpreendido.

Sinto que estou tomando um gosto pela leitura de contos, pouco a pouco, desde que os experimentei  a sério com DublinensesAssim como no livro de Joyce, temos as histórias melhores, as não tão boas, as indiferentes; mas o nível se mantém bom durante toda a coleção, apresentando uma coesão que me manteve na expectativa de ler o próximo e me surpreender positivamente. (mais…)

Geração Subzero

Geração SubzeroO que chama a atenção, no primeiro contato com Geração Subzero, é a sua proposta que, se não é polêmica, é pelo menos um tanto ácida em seus propósitos. O organizador da autodeclamada “anti-antologia”, Felipe Pena, já afirma logo na primeira linha de seu prefácio introdutório: “Boa parte da literatura brasileira contemporânea presta um desserviço à leitura”. Com a premissa de expandir os horizontes da literatura brasileira às obras com valor de entretenimento sobre o julgamento estético perpetrado pela crítica literária, não é de se surpreender que empreendesse nesta empreitada os nomes que estão mais na boca dos leitores: Eduardo Spohr, André Vianco, Thalita Rebouças, entre outros.

A coletânea de “20 autores congelados pela crítica, mas adorados pelos leitores” não pretende ser uma antologia, diz Pena, pois não é uma seleção dos melhores ou mais representativos de uma geração, como definiria o termo, mas um apanhado de autores que fazem carreira não nas graças da crítica literária formal, mas da massa leitora, como diz, “leiga”. É sem dúvida um debate extenso e já de longa data a relação algo dicotômica entre a “literatura comercial” e a “alta literatura”, com partidários de um lado, de outro, e aqueles que pensam de um jeito e falam de outro temendo ser rotulados ao ir contra a norma vigente, como ressalta o organizador.

Talvez a própria construção dessa dicotomia seja, em partes, um equívoco: quando estamos falando de entretenimento, desloca-se para um campo estritamente subjetivo. Pessoas podem se entreter com diferentes tipos de literatura. Entretanto, deixa claro Pena que o objetivo é entreter “o leitor”, democraticamente, referindo-se à maioria enquanto o gosto pela literatura considerada alta e tomada como relevante pela crítica seja de um aspecto mais elitizado.  (mais…)