Caçando carneiros

Caçando carneirosÉ complicado imaginar um mundo no qual tivéssemos que aprender todos os idiomas para que pudéssemos ter acesso aos tipos mais diversos de literatura. Apesar de ser isso o mais recomendado — afinal, a tradução nunca é o equivalente perfeito, no idioma vertido, da obra original — a aproximação / adaptação que conseguimos com uma tradução bem feita e editada já nos auxilia no contato com o produto de culturas diversas. Assim possibilita que nós, brasileiros, tenhamos acesso à literatura árabe, francesa, russa, nigeriana ou, enfim, japonesa. Portanto, não é segredo o papel fundamental da tradução literária na acessibilidade do leitor para com a literatura mundial.

E é graças a este excelente ofício pude ter acesso às obras do Haruki Murakami, influente escritor japonês que ganha uma reedição do previamente esgotado Caçando carneiros, relançado agora no começo de julho pela Alfaguara. A editora, responsável pelo lançamento dos demais livros do autor, parece ter adquirido os direitos dos que foram editados previamente pela Estação Liberdade, este e sua continuação, Dance, dance, dance. Após encerrar a leitura de todas as obras de Murakami editadas pela Alfaguara, em meados do ano passado, fiz uma tentativa de ler uma de suas obras com tradução para o inglês, e que ainda não estava para sair aqui no Brasil: South of the Border, West of the Sun. Entretanto, acabei não gostando muito da experiência. Não sei afirmar se é realmente o romance que falhou em me agradar ou se foi a tradução que, tão diferente, falhou em me capturar como o faz as versões de língua portuguesa.

Desde então, mantenho-me a par das traduções brasileiras, geralmente assinadas pela Lica Hashimoto ou Leiko Gotoda — esta que, no caso, verteu a edição atual de Caçando carneiros. Apenas posso imaginar a dificuldade de se fazer esta ponte entre dois idiomas tão diferentes e ainda manter a impressão, o efeito, aquele toque especial que faz uma história de Murakami ser uma história de Murakami. E, sem poder recorrer ao cotejo na minha completa ignorância do idioma nipônico, só posso acreditar que esta tradução tenha sido resultado de uma tarefa minuciosa, que não deixa a desejar. Ao compararmos os resultados ao conjunto da obra do autor, podemos perceber nitidamente uma coerência.

Neste relançamento somos apresentados, em um livro de 1982, a um Murakami menos recente que, apesar de décadas mais novo, continua a abordar um estilo consistentemente onírico e surreal. O autor parece ter uma espécie de narrativa singular que não sei se é seguro atribuir a um plano de fundo cultural ou a um estilo próprio. Seus temas recorrentes voltam a aparecer: o protagonista continua a ser um homem jovem, assalariado despretensioso e aparentemente desinteressado. Este protagonista está passando por perdas que parecem lhe afetar mesmo que ele aparentemente não seja tão movido por elas. A primeira cena é um enterro; a segunda, os resultados de um divórcio. E este protagonista é jogado de maneira inesperada em uma “missão” com ares metafísicos e transcedentais, mais pelos desejos do mundo do que por motivações próprias. Tudo isso em uma narrativa cuja ambientação e elementos dão a entender que tudo é possível.

Com toda a calma do mundo, bebi a cerveja, contemplei a paisagem notrna, cortei as unhas sobre o cinzeiro, tornei a contemplar a paisagem noturna e lixei as unhas. E desse jeito a noite foi passando. Estou alcançando o grau de especialista na arte de matar o tempo em áreas urbanas. (p. 144)

Caçando carneiros (Estação Liberdade)A premissa: o protagonista anônimo coloca uma foto de carneiros em um anúncio. Trabalha em uma agência de publicidade da qual é sócio, e recebeu essa foto na carta de um grande amigo que já viaja pelo Japão há cinco anos. Para a sua surpresa, é contatado por um grande figurão do submundo japonês, que quer saber quem tirou a foto, onde, e em que circunstâncias. Há algo de especial naquela fotografia, especificamente nos carneiros que ela contém. Decidido a não entregar o amigo, o protagonista então é sofre o ultimato de procurar ele mesmo um carneiro em especial da fotografia, sob um prazo específico, se não quiser que sua vida seja arruinada. Acompanhado por uma namorada com um dom especial, ele se entrega ao seu recém-adquirido dever.

Um dos fatores que mais me agradam em Murakami é o jeito como, com um intrigante uso de palavras, leve mas elegante, cria ambientações marcantes. Seja em grandes ou pequenos locais, exteriores e interiores, dá atenção aos pequenos detalhes: arrumação, iluminação, cheiros, sons, e assim imerge o leitor em suas cenas de maneira incrivelmente envolvente. A narrativa torna-se gostosa de ler, mesmo quando não muita coisa efetivamente acontece, apenas pela sua excelente construção de cenários e diálogos. E isso é essencial, pois a história principal, a empreitada em si, demora um bom bocado para começar. Cerca de um quarto do livro. A despeito disso, toda esta introdução é incrivelmente agradável de se ler. Ambientes bem construídos unem-se a um protagonista que em seu jeito meio apático de ser acaba nos interessando, e os primeiros acontecimentos servem para faze o setup do resto do enredo, além de estabelecer um tom e passo para a história.

Sentei-me diante dela e pressionei os olhos com a ponta dos dedos. O sol invadia o aposento e o deslumbrante clarão cortava a mesa em duas. Eu estava no claro, e ela, na penumbra. Penumbra sem cor. Um vaso de gerâneio murcho restava sobre a mesa. Lá fora, alguém lavava a calçada. Água batendo no pavimento, cheiro de asfalto molhado. (p. 22)

O enredo (e seu desfecho) é satisfatório, criando suspense e entregando respostas na medida certa. Quem já leu Murakami estará ciente da tendência do autor de não tentar explicar o inexplicável, de dar finais em abertos; de manter em mistério o fator onírico de uma história que, apesar de parecer não fazer sentido à primeira vista, é regida por uma coerência verossímil. Aqui isso também acontece, mas em menor escala: o enredo se fecha com um final um tanto menos ambíguo que outras obras do autor como Kafka à beira-mar ou 1Q84. E, como nestes livros, é equivocado imaginar que todos os personagens seguirão, em suas reações, a lógica da normalidade. Querendo dizer: não estranhe se eles não estranharem algo que você estranhe.

O tempo passava em ritmo estranho no interior daquela casa. O mesmo acontecia com o antiquado relógio de pêndulo na sala e estar. Pessoas apareciam e lhe davam corda ao sabor de seus caprichos. E, enquanto o peso estivesse no alto, o tempo passava tiquetaqueando. Mas no momento em que as pessoas se iam e o peso baixava, o tempo estacionava nesse exato ponto. E então nacos do tempo parado acumlavam-se no chão, formando camadas de vida descorada. (p. 267)

Mesmo depois de ler que alguns considerariam Caçando carneiros uma ideal introdução à obra de Haruki Murakami, por apresentar todos os elementos recorrentes em sua obra em um livro compacto, ainda me mantenho leal à minha recomendação de que comecem por Após o anoitecer. Talvez por fazer o mesmo em uma leitura ainda mais compacta, talvez por ter um recorte melhor definido. Todavia, este romance também se confirma mais um expoente respeitável do autor japonês que, mesmo utilizando um estilo similar, bem característico, continua a escrever histórias diferentes e interessantes.

Haruki Murakami

Haruki Murakami


Ficha técnica

  • Tìtulo: Caçando carneiros
  • Título original: Hitsuji o meguru Boken
  • Ano de publicação: 1982
  • Edição lida: Alfaguara, 2014. Tradução por Leiko Gotoda.
  • Número de páginas: 331
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2 comentários

  1. Muito boa resenha! Terminei a leitura (fantástica) de 1Q84 e está na lista “Kafka a beira mar” e Haruki Murakami já é um dos meus autores favoritos!
    PS: disse tudo sobre a questão ambivalente da tradução.

    1. Obrigado! A obra toda do Murakami é digna de se dar uma checada, até hoje não me arrependi de ler nada dele. Esse ano ainda sai mais um (“The Colorless Tsukuru Tazaki and his years of pilgrimage”) e já fico na expectativa.

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