Neuromancer

NeuromancerEm um dia qualquer, se por acaso ligarmos a televisão e a sintonizarmos a um canal fora do ar, veremos um imenso plano azul. Um azul infinito, forte e jovial que, se visto no céu, será o indicativo de um lindo dia ensolarado. Essa é uma daquelas críticas pontuais mais recorrentes a Neuromancer: o defasamento de sua frase de abertura, que hoje se tornou anacrônica. Em 1984, quando William Gibson publicava um dos clássicos da ficção científica, seu equivalente era aquele chuvisco eterno e barulhento que com certeza também já vimos em televisões mais antigas.

Edições recentes comumente abrem com um prefácio de Gibson reconhecendo, em uma espécie de mea culpa, a questão com a sua frase de abertura. Não deixa de comentar alguns progressos que em breve mudariam radicalmente a nossa visão do futuro, como a invenção do telefone celular, que falhou em inserir ou sucedeu em omitir em sua obra.

Talvez seja fútil ler uma história de ficção científica escrita há décadas apontando o que ela previu ou deixou de prever. Um escritor pode, ao escrever um futuro não tão distante, procurar as modas tecnológicas em voga e extrapolá-las, imaginado que elas são o embrião de uma revolução científica. Em uma espécie de futuro mais distante, pode perfeitamente tirar soluções e respostas do puro ar. É mais fácil prever 2025 do que 5025. E, por outro lado, pode simplesmente procurar as mudanças que prefere para criar um eixo dramático mais interessante, mais divertido. A FC, afinal, busca lidar mais com a reação da humanidade à mudança tecnológica do que com a tecnologia de fato, salvo algumas exceções.

No caso de Neuromancer, ater-se ao fator tecnológico é ignorar muito de seu conteúdo e, sejamos sinceros, todos os motivos pelos quais o romance é até hoje reverenciado como clássico. Gibson admite que as partes do livro na qual tinha um pouco mais de expertise são justamente as que ficaram mais datadas. Lidando com o aspecto tecnológico de modo vago e transcedental, o resto não envelheceu tão mal — quanto mais detalhes, mais chances deles se provarem equivocados de anos para cá. Não obstante, é inevitável lidar com essa primeira frase que, por mais satirizada que tenha sido, ainda sucede em estipular o t0m para todo o romance que se seguirá.

The sky above the port was the color of television, turned to a dead channel.

Ouço dizer que um bom primeiro parágrafo é aquele, com um certo impacto, prepara o leitor, instiga à leitura, dá um gosto de quero mais. Entre exemplos bem-sucedidos temos as primeiras sentenças de A metamorfose ou O estrangeiro, que tem um sucesso em começar de tal maneira que ficamos interessados e prontos para esperar pelo que deve se seguir. Podemos, sem muito esforço, afirmar o mesmo a respeito das palavras que dão início a Neuromancer. Em uma frase, já temos as características principais do estilo de Gibson — o uso de figuras de imagens; uma mescla entre o natural (céu) e o tecnológico (televisão); o tom melancólico ao estabelecer a cor “cinza envanado” dos céus de Chiba; e, algo que se perde na tradução, a pitada erma no uso do termo dead channel, que não necessariamente imprime o mesmo sentimento que fora do ar.

Neuromancer - Nightclub

“Neuromancer – Nightclub”, arte de PHATandy

Mas, afinal, o que temos em Neuromancer? Nosso protagonista é Case, um cowboy de console, cracker que se pluga na matrix para executar operações ilegais por seus empregadores. Antes dos eventos do livro, ele cometeu um erro fatal: tentou roubar de seus patrões, que lhe pagaram ao injetar uma micotoxina que distorceu seu sistema neural e lhe fez ficar incapacitado de plugar-se à matrix: ou seja, tornou-lhe inempregável.

Ao começo da história, Case está em Chiba, no Japão, após gastar todo o seu dinheiro tentando consertar seu corpo (sem sucesso). Sobrevivendo à base de assaltos e latrocínios, na tentativa de se manter e quem sabe recuperar seu dom, é abordado por uma “samurai das ruas”, Molly. Ela é empregada por uma figura estoica e misteriosa, um veterano de nome Armitage, que lhe oferece uma restituição de seu sistema neural para executar um último trabalho. Em um enredo no qual figuram de terroristas de vanguarda, inteligências aritficiais, rastafari no espaço, e céus nublados, seu autor constrói uma intrincada ambientação.

A escrita de William Gibson é singular, de um estilo característico que torna, sim, a leitura difícil. Não é convidativa, não irá te guiar de mãos dadas pela história, não é o vidro transparente pelo qual se desenrola a narrativa, uma límpida concatenação de frases que nos passa a exata visão de um autor. Sua narrativa é brusca mas lírica, extensivamente imagética, oferece metáforas de uma poeticidade sóbria presente em termos como dead channel; de uma recusa em oferecer uma clara imersão que a princípio pode afastar a muitos leitores em potencial. Vale lembrar, também, que na questão da linguagem temos uma colher de chá: hoje em dia, muitas dos termos e gírias usadas corriqueiramente pelo autor foram incorporadas pela tecnologia, naturalizando termos que para o leitor de 1984 seriam incompreensíveis.

ICE, deck, matrix, flatline, derma, microsofts (não a do Bill) são catalogados em um glossário ao fim do volume. Talvez, como defendo na leitura de Laranja mecânica, parte da graça esteja em aprender estes termos por imersão, “na marra”. Somos jogados no mundo e a narrativa nos trata como se já fôssemos nativos, poupando somente em trechos bem esparsos explicações aos termos que nos apresenta. Somado ao citado lirismo cínico de Gibson, seu uso imagens cinzentas contra o fundo escuro da Night City, do Sprawl, de Freeside, a leitura torna-se algo difícil, complicada.

Momento de honestidade: tentei ler no original, desisti, tive de recorrer à tradução. O texto sentia truncado, me hostilizava. Fábio Fernandes me socorreu, e é perceptível que a Neuromancer é devido um extenso e bem intricado trabalho de tradução. Devem ou não ser vertidas as gírias? Os dialetos? O próprio estilo de Gibson é bem característico e marcado por sua voz que, ao se perder, mudaria completamente o livro. Sem poder recorrer a artifícios como cotejo, julgo que a experiência da tradução de Fernandes me proporcionou uma leitura ainda bem marcada por uma voz própria. O fato da marcação ser no nosso idioma natal diminui o suplício e me transformou de um leitor que teria largado o livro em um admirador. Amém.

Ele a conhecera numa noite de chuva num fliperama. Sob fantasmas brilhantes queimando através d euma névoa azul de fumaça de cigarros, hologramas do Wizard’s Castle, do Tank War Europa, a linha do horizonte de Nova York… e agora ele se lembrava dela assim, seu rosto banhado na incansável luz dos lasers, as feições reduzidas a um código; suas bochechas banhadas em um fogo escarlate ao mesmo tempo que o Castelo do Mago queimava, a testa encharcada de azul quando Munique caiu na Guerra de Tanques, boca tocada com ouro quente enquanto um cursor deslizante tirava fagulhas da parede do desfiladeiro de um arranha-céu. Ele estava com uma tremenda parada naquela noite, levando um tijolo de cetamina de Wage para Yokohama e o dinheiro já no bolso. Saíra na chuva quente que batia no asfalto de Ninsei e soltava vapor, e de algum modo ela se destacara para ele, seu rosto entre as dezenas que estavam de cara para os consoles, perdidos no game que jogavam. A expressão no rosto dela, naquele momento, era a mesma que ele vira, horas mais tarde, em seu rosto adormecido num caixão na região do porto, o lábio superior igual àquela linha que as criança desenham para representar um pássaro em movimento (p. 28-29).

Um parágrafo — um especialmente longo, no caso — serve para dar uma ideia. As imagens invocadas, que começam em dead channel e vão para ouro na boca, vapor no asfalto; as cores do fliperama contra o rosto, suas feições reduzidas ao código refletido do fliperama. O rápido jogo de memória, de guinadas súbitas, uma desorientação causada pela freneticidade com a qual somos levados de um lado para o outro, assim como agora a tecnologia tem esta imensa capacidade de nos transportar com um clique, estalar de dedos — Gibson parece buscar, em seu estilo, uma sensação semelhante. O pai do cyberpunk tem muito desta rapidez, fluidez dos detalhes, jogo de cores e de imagens, memórias velozes.

Neuromancer - Chiba City

“Neuromancer – Chiba City”, arte de PHATandy

O primeiro romance a ganhar no mesmo ano a “tripla coroa” dos prêmios de ficção científica — o Hugo, o Nebula, e o Philip K. Dick — recebeu a alcunha de “obra cyberpunk arquetípica”, praticamente, senão fundando, colocando o subgênero em evidência. High tech, low life; megacorporações, hackers, inteligência artificial; futuro próximo, tom sombrio e pessimista para o caminho que a tecnologia pode nos levar, onde o dia a dia se transforma em um frenesi de rápido consumo e mudança científica. Um noir tecnológico — está tudo aí.

Talvez hoje em dia, fora do contexto no qual estava inserido na data de publicação, Neuromancer não pareça toda essa grande revolução. Diz o próprio Gibson, em sua introdução, que não esperava que, décadas depois, as pessoas estariam lendo seu romance. Naquele momento, antes da internet, da world wide web, dos celulares. Temos então alguns temas explorados de maneira instigante — o transhumanismo, ampliação das capacidades através do uso da ciência; o uso do fluxo de dados de maneira a modificar aspectos da sociedade palpável. Pode ser que trinta anos depois, isso não pareça grande coisa, mas, com o andar da carruagem…

Estes temas, não obstante, acabam suplantando talvez os próprios personagens — o que talvez não seja uma exclusividade, pois é algo que também é bastante perceptível em escritores com uma ambientação temática muito vocal, como Philip K. Dick. Seus personagens, Case, Armitage, Riviera, acabam por se tornar mais arquetípicos que humanos. Talvez uma exceção valha para Molly. Apesar de todos serem diferentes entre si, não são tão necessariamente profundos — alguns justificadamente. É bastante documentado em resenhas na web o causo de pessoas que não conseguiram simplesmente se ligar aos personagens, sentir a empatia ou considerá-los palpáveis o suficiente para se imergirem. O foco aqui não é bem a jornada pessoal de cada um — o mundo, o tema, a imagem deste futuro é o que toma os holofotes.

Mas ainda assim, é uma leitura recomendada, não diria obrigatória, como um “clássico moderno” da ficção científica, um pouco mais recente que os outros que poderiam figurar nesta lista. Ainda temos outros livros que reinventam a temática, que buscam a ficção científica pós-cyberpunk, superar o pessimismo que pareceu assumir partes do gênero depois da empreitada e relevância que esta vertente assumiu. E talvez isso nos traga uma nova era — não é à toa que agora uma enorme fatia da FC contemporânea se foca na distopia: vem de uma tradição que já vinha se formando desde então. O que virá depois?

William Gibson

William Gibson


Ficha técnica

  • Tìtulo: Neuromancer
  • Ano de publicação: 1984
  • Edição lida: Aleph, 2008. Tradução por Fábio Fernandes.
  • Número de páginas: 312
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s