Realidades adaptadas

Realidades adaptadasNão é um segredo escondido a sete chaves que Hollywood se dá bem com Philip K. Dick. Não exatamente em um sentido literal. Apesar de diversas obras do autor terem sido adaptadas para as telonas, a primeira – o icônico Blade Runner – só veio a ser exibida três meses após a sua morte. Mas desde então não foram poucas as suas histórias que encontraram a sua face no audiovisual. Muitas vezes modificadas pesadamente.

A Aleph, responsável pela obra de Dick no Brasil, concatenou uma edição inédita a partir de uma ideia muito intuitiva. Fico até surpreso de não ter sido feita antes; daquelas ideias que, ao vermos, pensamos “nossa, parecia tão claro!”, mas que só aparece depois que finalmente a vemos feita. Kudos! Reuniram os contos de Dick adaptados para o cinema e juntaram em uma edição, comentando brevemente no começo de cada sobre a data de lançamento do filme e alguns artefatos de adaptação. Daí temos Realidades adaptadas, volume reunido recentemente sob a tradução de Ludimila Hashimoto.

A edição ficou muito bem feita. Temos o projeto gráfico de capa (talvez responsável por algumas vertigens) bem característico, e uma diagramação agradável no miolo, arejada e muito bem legível. Creio ser essencial dar uma leitura bem arejada na mancha, já que a escrita de Dick é dinâmica e fluida; um aspecto literário que poderia ser prejudicado pela própria letra física caso tivesse uma editoração mal feita.

Desde que li Andróides sonham com ovelhas elétricas? em meados do ano passado, não consegui deixar de me apaixonar pela maioria dos livros do PKD que li. Este blog fica como uma prova; já devo ter resenhado e amado uns quatro ou cinco dele só esse ano. Mas percebi que, por algum motivo, as narrativas mais curtas falham em me deslumbrar. Não digo que desgostei, apenas que não clicou aquele interruptor que me faz pensar “isso é genial”. Aconteceu com Counter-clock world, novela dele que não me encantou, apesar de ter seus méritos, e também com alguns dos contos reunidos neste volume. Talvez porque não dê tempo de eu me importar muito com os personagens? Ainda não sei muito bem apontar o que não me cativou.

adjustment_bureau_ver4As narrativas em Realidades adaptadas não são muito curtas: a maioria varia de vinte a quarenta páginas, com alguns especialmente espertos. Elejo O pagamento (The Paycheck) como o meu favorito, pela simples execução de uma hipótese muito criativa: após fazer um trabalho no qual perdeu a memória, o protagonista viu que seu eu passado trocou seu pagamento de cinquenta mil créditos por um bando de artefatos aparentemente sem sentido: uma ficha de pôquer quebrado ao meio, um canhoto de bilhete de cinema, um comprovante de depósito, um fio, uma passagem de ônibus… mas, quando, ao sair da empresa, frustradíssimo com seu pagamento, a polícia cai em cima dele, as coisas que o ajudam a escapar de suas garras é justamente um daqueles itens do seu pagamento. E, conforme vai construindo maneiras de escapar desta enrascada inevitável, aqueles itens, um por um, são fundamentais nas horas cruciais. Como uma brincadeira com o conceito da arma de Tchekov, a história avança e tanto nós quanto o protagonistas estamos maravilhados sobre como o eu passado soube que aqueles itens são assim tão importantes.

Devo ser sincero: não assisti a quase nenhuma das adaptações; das presentes no livro, apenas pude conferir o filme de Minority report (presente no livro como O relatório minoritário)  mas, se este é algum tipo de indicativo, percebemos que as adaptações são menos de um “baseado em” do que um “inspirado em”. Apesar de os temas e premissas serem similares, temos uma mudança total em questões de plot, até mesmo estética e personagens. Um homem velho, comissário engordando e encarecando se transforma em Tom Cruise. Não posso dizer nada quanto às outras. É claro que devemos encher um pouco se quisermos transformar um conto de quarenta páginas em um filme completo, mas mesmo o tema principal é reciclado em uma espécie de filme de ação.

Enquanto talvez não reconheçamos Dick em seu mundo de Hollywood que ele jamais pôde assistir, temos nesta tradução um autor bastante perceptível. Sendo a primeira tradução do autor que tive a oportunidade de ler, estava temeroso de não identificar Dick. Mas a tradução de Ludimila Hashimoto não fez pouco do estilo de PKD: transpareceram a mesma sensação e voz que costuma permear a narrativa “dickiana”. Algo rápido, volátil e talvez um pouco efêmero, uma leitura que flui com tamanha facilidade que o estilo de narrativa fica em segundo plano, dá lugar às imagens e aos acontecimentos do mundo que enxergamos através de um límpido vidro transparente.

Agora, apesar de ter gostado bastante de alguns (o próprio Relatório minoritário entre eles), não pude deixar de me decepcionar com outros que há muito queria ler, como Equipe de ajuste, que inspirou o filme The Adjustment Bureau. O final não agradou, a PhilipKDickhistória me pareceu meio… incompleta. Não sei apontar bem. Talvez seja este meu problema com os contos de Dick em contraponto aos seus romances: me parece que faltou algo. Bça Não obstante, podemos reconhecer muito bem seus traços e características marcantes, não apenas na supracitada voz narrativa, mas também na própria abordagem de seus temas. A sua dualidade principal de questionamentos está presente: o que é humano? (Segunda variedade, O impostor, O homem dourado) e o que é real? (Equipe de ajuste, Lembramos para você a preço de atacado). Reconhecemos ali PKD, mesmo que não tenhamos visto nenhum dos filmes aos quais a sua obra inspirou.

Apesar dos altos e baixos, até relativamente comuns em um livro de contos, foi uma leitura proveitosa e deu para  saciar a curiosidade que tinha em relação a algumas das mais famosas de suas histórias curtas. Mas acho que, no geral, vou me ater aos seus romances e narrativas longas. Questão de gosto.


Ficha técnica

  • Tìtulo: Realidades adaptadas
  • Ano de publicação: 2012
  • Edição lida: Aleph, 2012. Tradução por Ludimila Hashimoto.
  • Número de páginas: 304
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