A sombra no sol

A sombra no solApós a incursão no mundo noir das noitadas do Neon Azul, onde o fantasioso e o real se mesclam de maneira discreta mas perceptível, Eric Novello agora nos oferece uma experiência relacionada mas distinta, em seu próximo (e, até agosto de 2014, último) trabalho, A sombra no sol. Nos trinta textos que se entrelaçam em uma narrativa, vemos ser construído um retrato de um homem desiludido, quiçá quebrado, ali apaixonado, com uma voz bem marcada que transforma cada visão do cenário urbano noturno. Sua dor se mistura à ironia, à sensualidade e à natureza dos relacionamentos de uma pessoa solitária com o desenrolar de cada parágrafo, em uma escrita algo lírica que não se torna enfadonha em momento algum.

A princípio, estamos mais uma vez acompanhando o gerente do Neon Azul, Armando, em uma tarefa repassada em caráter especial pelo Homem, dono do inferninho. Seu objetivo: resgatar o cadáver de Ícaro, um garoto de programa, e oferecer-lhe um trabalho singular no estabelecimento. Equipado com um líquido especial e força de vontade, o insone se aventura por uma construção anônima e encontra, junto ao cadáver do garoto, um caderninho escrito pelo morto. Deve conhecer a Ícaro se quiser trazê-lo de volta à vida, e há jeito melhor que a leitura de suas confissões e reflexões, confere? 

O “diário” é composto de vinte e nove dos trechos escritos por Ícaro, narrados em uma primeira pessoa com uma presença perceptível. Enquanto as cenas que conectam e contextualizam os excertos do caderno, as partes de Armando, são narradas com a voz de terceira pessoa também presente, em estilo e atmosfera, em Neon Azul, é na figura do garoto de programa que percebemos a multiplicidade – ou talvez melhor, duplicidade – das vozes que permeiam A sombra no sol. Porque se a narrativa impessoal, ainda que talvez mais íntima do que estamos acostumados, é em partes seca, mais distante, Ícaro narra sua vida e obras em uma melancolia lírica, uma voz diferente em gênero e grau mas que também se contextualiza no próprio livro. Cobertura simbólica, uma imagem que se transforma em significado.

O diário, ou caderno de anotações, funciona como um catálogo de suas experiências, de seus clientes. E em uma história de cunho principalmente sexual, é percpetível como a narrativa evita cair em um lugar comum de “vulgaridade”. As cenas de sexo, cotidiano de Ícaro, tornam-se exatamente isso: cotidiano; a rotina que acontece, seu estilo de vida. Suas tentativas vez ou outra de desviar o rumo de uma relação, provações pelas quais deve passar em seu ofício. Mesmo com a banalização da relação sexual que inevitavelmente se alcança ao transformar o êxtase em ganha-pão, essas cenas são narradas com a sensibilidade de quem ainda mantém alguma reverência à fluidez dos corpos.

Dispenso desde já as piadas sobre o xará que foi ao sol, vivemos em polos opostos. Eu mesmo derreti minhas asas de cera com a chama do isqueiro que o último amante esqueceu na mesa do telefone. Esse papo sempre me enojou. Se pudesse alçar voo o faria do terraço, de cima da tampa da caixa de água, da ponta mas aguda do para raios em noite de tempestade, da cadeira onde conto meu dinheiro antes de deitar e dormir.

Da beira da janela só não voa quem não quer. (01. Muito prazer)

A surpresa pela descoberta de uma experiência tão diferente de Neon Azul é rapidamente substituída pela apreciação da uma narrativa mais realista. Aqui, a fantasia não ultrapassa a proposta: A sombra no sol é feito de histórias pautadas em uma realidade; a magia  discreta do Neon Azul se substitui pela intimidade, sexo, e cenário urbano. Porque, a despeito da diferença entre as formas, o conteúdo se concatena em sua temática: mais uma vez estamos em um mundo imerso pelo luar, o sombreado da luz artificial dos postes cobertos pelos prédios do cenário metropolitano. A vida noturna das cidades, esta variação entre a casa, o bar, a rua, o apartamento. A sombra no sol se mantém em suas raízes da urbanicidade, repleto dos típicos e atípicos notívagos do centro urbano. E, com a noite da cidade, a vida desregrada à espreita, com suas promessas de prazeres infinitos. Se em Neon Azul este era simbolizado pelo próprio inferninho (com seu apelido já bem indicativo), aqui temos o próprio Ícaro, que é mais uma das atrações, um dos petiscos potenciais para o endinheirado habitante noturno. E, como aquele diabo em miniatura no canto esquerdo do ombro, com um olhar e um sorriso procura seus clientes, oferecendo tentação.

A noite se aconchega para que a cidade acenda janelas e risque as ruas em jogos de luzes e sons infernais. O caos humano se move num imenso reflexo de possibilidades. O destino de uns é a partida de outros. Não há lado que seja o contrário. o que há é muita gente lá embaixo, muitas roupas, disfarces, fantasias, olhares sob máscaras. Um deles deverá servir para mim. (29. O pulo do gato)

 Mas apesar das imagens, Ícaro, em seu caderno, não se esconde através de uma fachada contente: esta é reservada a seus clientes. É naquelas páginas em que pode depositar a sua melancolia, narrar seu ponto de vista, sentimento visceral transformado em prosa poética. Em páginas suas, prova ser si mesmo, experiência transformada em literatura. Mas não deixa de carregar a sua voz, talvez o elemento que pese pra o não tão disposto: Ícaro exige abstração, rogue para que lhe acompanhe em suas figuras de linguagem, em seu discurso menos imagético que simbólico.

Para puxar conversa, ela conta do outro mundo. Diz que as drogas são mais fortes e que vou amar viajar entre espíritos errantes. Amar, ela se dá conta, aplavra errada. E para se justificar fala que há muitas formas de se amar, e que as mais letais são as únicas sinceras, pois já sabemos o que esperar delas no fim. (27. Necrópole particular)

Ele pode ser amado, naquela situação meio estranha, um pouco difícil, com clientes fixos. Assim, proteger as pessoas da claridade, ser uma espécie de seu pervertido eixo na realidade, sua sombra no sol. Mas quando elas somem, o ofício deve ser mantido. Em uma espécie de rotina eterna: só o que pode quebrá-la, e quebrá-lo, é quando parece de fato encontrar o amor. E então poderemos ver como ele foi se transformar naquele cadáver encontrado por Armando…

Uma experiência diferente, mas tão envolvente quanto o seu antecessor. A internet me indica que foi escrito por seu autor em um período de profunda melancolia, e postado originalmente em formato virtual. Mais tarde seria concatenada a história pela tarefa de Armando, escrito o texto final, transformado em livro. E, de fato, o romance nos oferece a atmosfera pesada, o sentir de uma angústia por um significado maior de uma vida, de seus feito: de um legado inexistente. Ao final, parece-me uma história do vazio de uma falta de amor recíproco, um conto sobre a beleza mas finalmente a futilidade da união de corpos sem coração.


Ficha técnica

  • Tìtulo: A sombra no sol
  • Ano de publicação: 2012
  • Edição lida: Draco, 2012. E-book.
  • Número de páginas: 118
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