Amanhã não tem ninguém

Amanhã não tem ninguémAmanhã não tem ninguém foi uma agradabilíssima surpresa em um mar de recomendações e leituras obrigatórias. Uma obra que começa e se encerra em um mesmo ponto, uma série não-linear, que só reforça a natureza cíclica dos erros pessoais de cada um. No segundo romance de Flávio Izhaki, acompanhamos a jornada de seis membros de uma mesma família judaica: indivíduos de diferentes idades e em diferentes épocas de sua vida, conforme lutam com seus próprios dilemas, mergulhados em suas relações com os outros protagonistas e, sim, consigo mesmos. Aqui, vemos uma família se desconstruir ao passar de cada página.

A morte é o espectro que espreita todas as relações. Não a nossa mortalidade apenas, mas a Morte com “m” maiúsculo, aquela que ronda a consciência, que busca os nossos medos e afetos, se esgueira para dentro da mente. A noção da própria morte e sua inevitabilidade, memento mori, é apenas uma de suas facetas. A consciência da finitude dos outros, de que o mundo perdurará sem nós, mais uma. O fim das pessoas está presente neste romance, que abre com a morte de um dos patriarcas da família, o homem mais velho, o relojoeiro e bisavô. A partir de então, somos levados por uma viagem na história de cada personagem. Mas este é um elemento que em momento algum está ausente de suas jornadas pessoais. Mais uma vez, o espectro que os espreita.

Em uma das cenas de enterro: ontem, no anterior, tínhamos aqui dez pessoas. Hoje, três. E amanhã?

Amanhã não tem ninguém.

Flávio Izhaki tece com destreza a estrutura narrativa do romance, notável por sua falta de linearidade. No começo de cada parte, temos o nome dos personagens que protagonizarão determinado núcleo dramático. São jogados no palco e devem tentar resolver seus dilemas uns com os outros, mas fica a impressão de que este tipo de situação jamais poderá ser de fato resolvido. Ressentimentos, como o divórcio, ou o do solitário por seus colegas mais sociais. O abandono, como um cordeiro que se separa do rebanho, o convertido. A rejeição e a solidão se entremeiam com a morte, muitas vezes relacionados em suas causas e efeitos em cada familiar. A morte ou a ausência de um pai, a conversão ou a morte de uma esposa. Estamos falando literalmente ou simbolicamente? Nem sempre a morte é definitiva; muitas vezes pode apenas se tratar de uma longa, interminável ausência.

Amanhã não tem ninguém não é uma história feliz. Um tom escuso e escuro domina toda a narrativa, e um certo ar de melancolia (sem dúvida relacionado à aura de morte que ronda todas as individualidades) não escapa nem ao leitor distraído. É difícil escapar de uma tristeza quando se adentra os domínios do mórbido e do ausente. Duas palavras-chave: o fim, e o vazio. O vazio de futuro, de coração, de sonhos. O fim do amor, de crenças, de casamento e, por fim, de família. A cisão está presente em cada geração. Ninguém se dá com ninguém, e não há perspectiva de mudança quando estão todos muito ocupados em seus dramas pessoais.

A pessoalidade de cada personagem é uma faca de dois gumes nas mãos de Izhaki. Ao  mesmo tempo temos personagens extremamente individuais: ele não falha em nenhum momento em apresentar o retrato de pessoas que podemos ver como reais, de seres humanos completos e cada qual com sua perspectiva. Chega a ser interessante ao ver um julgamento apressado de uma personagem por outra, apenas para ressoar naquela vozinha interior “ah, ela a vê como uma pessoa fútil, mas mal sabe dos próprios problemas que ela tem de enfrentar”. A captação destas marcas características de personalidade que nos fazem únicos, cada defeito e característica redentora, tornam a experiência de leitura e reflexão uma tarefa muito proveitosa.

Ao mesmo tempo, se em conteúdo esta faceta do romance em nada deixa a desejar, no lado da forma, talvez um pecado, ou uma mera questão estilística? As vozes narrativas me pareceram semi-idênticas, confundindo-se em uma única voz que permeia todas as páginas. Senti falta de uma percepção de maior individualidade no jeito de contar de cada um. Sinto que não era exatamente uma deficiência, mas um potencial mal explorado: a possibilidade de se reinventar no estilo em cada uma das personagens. Como o velho Natan, oitenta e oito anos, conta a sua vida de maneira diferente do jovem Marquinhos, de apenas treze? Há alguns personagens que apresentam, sim, uma cisão mais perceptível (o jovem Patrick me acertou como o mais particular dos personagens), mas em relação às gerações mais velhas, senti um leve desapontamento por ter esperado uma variedade de vozes mais acentuada. Pode acabar até mesmo prejudicando a verossimilhança ao se imaginar uma criança narrando com aquele tipo de voz.

Mas se o romance me pecou nesse aspecto, em muitos outros superou as expectativas. Não minto: gosto de histórias que envolvam vários personagens, e principalmente as que envolvem uma extensão de tempo muito grande. Ver como o ambiente e as pessoas se alternam ao redor de certos acontecimentos me é fascinante. E aqui, acompanhando as trajetórias de alguns protagonistas, ficou a agradável surpresa de um trabalho muito bom de se ler, sem em nenhum momento dificuldade ou enfado; personagens interessantes e pessoais, que me impeliam a conhecer mais de suas histórias; e uma transitória melancolia. Aquela que ficamos quando pensamos em morte e na solidão, e que nos faz perguntar se é inevitável que, de fato, amanhã não tenha ninguém.

Flávio Izhaki

Flávio Izhaki


Ficha técnica

  • Título: Amanhã não tem ninguém
  • Ano de publicação: 2013
  • Edição lida: Rocco, 2013
  • Número de páginas: 200
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