The Two Towers

The Two TowersFazia um tempo desde a última vez em que peguei pra ler a trilogia Senhor dos Anéis, mas sempre tive a sensação de que li tudo com um pouco de pressa. A minha última fiz em 2010, pegando-o emprestado da biblioteca da escola; aquela edição da Martins Fontes, volume único, com o Gandalf na capa. Meu prazo de empréstimo era de duas semanas, então me esforcei para conseguir absorver aquelas mil e sei lá quantas páginas naquele tempo (enquanto me mantinha em dia com as obrigações escolares). Aí me lembro de ter achado um bocado chatinho, mas não sabia muito bem apontar o porquê.

Agora, anos depois, quando comprei a trilogia em um box de três volumes em edição de bolso, tinha algumas ideias em mente:

  1. ter uma experiência mais tranquila, sem prazos para ler cada volume
  2. sendo a edição em pequenos volumes separados, eu não teria que levar um calhamaço na mochila
  3. não estaria sujeito à pressão psicológica de ler tudo de uma vez acarretada por um volume único; poderia descansar entre a leitura de cada livro
  4. essa edição é em inglês e vai saber no original eu gosto mais?

Então li A Sociedade do Anel um pouco depois do box chegar, em dezembro do ano passado, e demorei questão de vinte dias para terminá-lo. Como o planejado no primeiro item, foi uma leitura bem mais tranquila e proveitosa. Acabou até mudando alguns preceitos que eu tinha em relação à obra. Por exemplo, eu sempre considerei As duas torres mais enfadonho que Sociedade, mas agora eu sinto o contrário. E ainda, como o planejado, pude descansar por questão de quatro meses antes de atacar a próxima parte da saga. Olha só!

Suponho que a história geral de O Senhor dos Anéis dispense apresentações, mas vou fazer um breve resumo do cenário no começo do segundo livro: após Frodo e Sam desertarem da Sociedade, todo mundo é atacado por orcs, que têm ordens de sequestrar os hobbits e levá-los ilesos. Presumindo que as ordens se tratam de Merry e Pippin, capturam ambos e batem em retirada. Aragorn, Legolas e Gimli, o restante da Sociedade, têm de decidir entre ajudar Frodo em sua jornada original, ou resgatar os outros dois hobbits.

barad-durO tomo divide-se nos “livro 3” e “livro 4” da obra. E, em cada um, temos como o foco cada uma das duas torres do título. No livro 3, acompanhamos a corrida dos três companheiros para resgatar Merry e Pippin, e depois ao se envolverem na  questão daa traição de Saruman e de Isengard. Esta é o foco de uma nova potência quase industrial, tentando sabotar o reino de Rohan e prejudicando a vizinha foresta de Fangorn. No meio de Isengard, ergue-se colossal a torre de Orthanc, construída por homens de Gondor e o refúgio impenetrável de Saruman. Enquanto isso, o livro 4 acompanha os acontecimentos, simultâneos, da viagem de Frodo e Sam em direção às terras devastadas de Mordor, sob a sombra sempre hostil da (também colossal) torre Barad-dûr, onde o Olho de Sauron observa a guerra que está para se desenrolar contra Gondor. Eles são “auxiliados” na jornada pelo nada confiável Gollum / Sméagol.

Ambos, mas principalmente o livro 3, são bem recheados de ação. Talvez o enfado causado em mim pelo Sociedade seja a sua apresentação consideravelmente densa e, digamos, a demora para sermos jogados na “missão” de fato. Tolkien toma o seu tempo na construção de um mundo bem trabalhado, e faz questão de mostrar seu dever de casa. No começo, pela apresentação da sociedade Hobbit (inclusive em seu não-tão-curto prefácio, que trata exclusivamente da natureza dos pequenos), e mais tarde na lenta viagem até Valfenda.

Já aqui começamos com a caça dos três e uma corrida extensa até as fronteiras da floresta de Fangorn, o que deixa a história, já de começo, bem cativante. Pode-se argumentar que o trecho de Frodo e Sam no livro 4 já volta a narrativa a um ritmo mais arrastado, quando a caçada se transforma em uma viagem; mas ao mesmo tempo somos jogados em ambientes novos, diferentes e “mórbidos” que talvez realcem o interesse de uma forma que o livro 1 falhou em fazer. Em um âmbito puramente pessoal, esta leitura me foi útil para que descobrisse e soubesse apontar em pinceladas largas o que me desagrada em O Senhor dos Anéis. 

É o relevo.

Como disse, Tolkien gosta de mostrar o seu trabalho, e isso fica bem claro nas descrições que faz do cenário. O problema é a resistência a este tipo de descrição geográfica. Lembro-me de ter lido que ele passaria parágrafos descrevendo uma árvore, mas discordo: ele passaria parágrafos descrevendo como após um certo ponto da estrada que desce abre-se uma fenda profunda na parede rochosa da montanha. Tenho dificuldades em manter a descrição que faz do relevo e do cenário geográfico na minha cabeça em simultâneo com  a jornada de seus protagonistas, mas entendo perfeitamente que esta pode ser uma dificuldade minha e é provável que muitas pessoas achem estes elementos fascinantes.

OrthancPor outro lado, não me cansa o trabalho do autor em construir o seu universo. As linguagens, as raças, o cenário e o mundo são bem estruturados. Ainda assim, o livro continua a ser uma obra densa em questão de narrativa, e creio eu que a constante descrição de um cenário ajude a construir tal dificuldade. Considerando que o livro se trata em boa parte de grandes e épicas viagens, não acho incoerente que assim seja. Não digo que estas escolhas de Tolkien sejam ruins ou supérfluas, mas não me são particularmente palatáveis.

Enveredando por outro assunto, fiquei interessado na comparação que eu fazia entre o livro e o filme. De ambos eu mantinha certa distância há já um tempo: desde meados de 2010 eu tive uma certa dificuldade em em sentir imerso em obras de alta fantasia. Problema de suspensão de descrença, talvez, ou simplesmente uma falta de interesse por este tipo de universo. A partir do final de 2012 que consegui me reimergir neste tipo de narrativa e, agora que li As duas torres, fico comparando o conteúdo com um certo espectro dos filmes de Peter Jackson que permaneceu na minha cabeça.

É claro que a adaptação sempre mudará alguns elementos, mas eu senti uma dinâmica muito diferente no livro 4, entre Frodo, Sam, e Gollum, do que me lembrava de sua contraparte nas adaptações. As relações são parecidas, mas a própria natureza dos personagens me atingiu de uma maneira exótica nesta leitura. Não sei se é da narrativa, da natureza dos diálogos que, escritos, soam diferentes, ou se esta sutil mudança de fato tomou lugar durante o processo de transformar o livro em uma obra audiovisual.

Apesar da relação de ambos os hobbits que viajam a Mordor seja ainda aquela entre o mestre-que-merece-respeito e seu servo fiel, senti uma transformação de Sam que, na minha leitura, tornou-se um personagem muito mais “gostável”. Daqueles protagonistas meio atrapalhados, com um toque de ingenuidade que me faz sentir mais empatia. A sua versão no filme, tomada intensamente pela desconfiança e, digamos, um certo drama, certa adaptação em algo mais sombrio, perdeu este toque pueril que faz parte do que significa ser um hobbit no universo de Tolkien. Mesmo Frodo, que dos quatro é o “menos” hobbit (justificado pela sua criação nas mãos do “estranho” Bilbo), também mantém uma espécie de aura de bondade e respeito, sim, digna de um “mestre”, que parecia menos presente na adaptação.

Eles não são os únicos, aliás. Legolas também é relativamente mais falante aqui, assim como alguns dos acontecimentos do filme aqui acontecem de maneira diferente: a hesitação de Théoden em dar boas-vindas aos viajantes (que no filme é um encanto de Saruman, aqui é apenas os conselhos de Gríma); a “rejeição” entre Frodo e Sam (completamente ausente). Para quem já lê com aquele referencial na cabeça,  há aquelas pequenas surpresas. Mas isso acontece com qualquer adaptação…

Foi uma leitura melhor do que eu pensava, já que na minha memória As duas torres era o mais enfadonho dos três volumes, e parece que foi me provado o contrário. Não deixa de ser bem cansativo mas, lendo com calma, aos poucos e absorvendo todo o rico mundo de Tolkien, dá para se levar tranquilamente. E, assim como tive essa generosa pausa de quatro meses entre um volume e outro, não será muito cedo que me aventurarei em O retorno do rei. Esse pode esperar.

J.R.R. Tolkien

J.R.R. Tolkien


Ficha técnica

  • Título: The Two Towers
  • Ano de publicação: 1954
  • Edição lida: HaperCollins, 1999
  • Número de páginas: 439
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