The Julian Chapter

The Julian ChapterNão faz tanto tempo assim que li Extraordinário. Foi inclusive um dos primeiros sobre um dos quais escrevi após a fundação desse cantinho de internet. Gostei muito do livro, que foi uma agradável surpresa quando eu não botava tanta fé. Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que a autora planejava acrescentar um pouquinho mais à história?

Percebo uma recente tendência em alguns segmentos da literatura de entretenimento, esta de reescrever uma história ou um pedaço dela do ponto de vista de algum outro personagem. É sempre interessante observar a perspectiva de um coadjuvante, ou mesmo um antagonista, sobre os mesmos acontecimentos. Ajuda a adicionar toda uma camada de desenvolvimento, um joguinho psicológico do que cada personagem dá mais atenção a, e mesmo aprimorar um pouco essa ideia da natureza multifacetada da realidade (whoa). Não digo que esta é uma ideia completamente nova: temos coisas como o The Alexandria Quartet (quatro livros contando a mesma história sob diferentes pontos de vista), dos anos 1950; ou mesmo Ender’s Shadow, que é esse giro de perspectiva de Ender’s Game escrito no começo do século. Mas percebo isso recentemente acontecendo com mais frequência, tipo nos livrinhos da Colleen Hoover ou, quem sabe, naquela versão abandonada do quinto livro de Crepúsculo.

Enfim! R.J. Palacio não escreveu uma continuação, mas um outro lado de Extraordinário; uma versão reduzida dos acontecimentos do romance do ponto de vista de quem chega o mais perto de ser o antagonista: Julian Albans. No romance original, temos pontos de vista de mais personagens que não seu protagonista; além de Auggie, temos seu melhor amigo, sua irmã, o pretendente da sua irmã e sua amiga também fazendo suas pontas. Mas não temos a visão de alguém que nunca esteve realmente do seu lado. Afinal, talvez a história de Julian, ainda que tivesse seu mérito, não se encaixaria naquele projeto e naquela trajetória. Então Palacio publicou mais cedo nessa semana a história em e-book, com 87 páginas e pronta para a degustação dos leitores que querem ter um gostinho maior do ambiente. Diz a autora:

O ‘bully’, cujo ponto de vista nunca ouvimos em Extraordinário. Ele tinha uma história a contar, mas já que o livro era mesmo sobre Auggie Pullman, eu não consegui encontrar um jeito de inserir a história de Julian no livro sem sabotar a narrativa. […] Eu pensei que pudesse ser um jeito interessante de contar a sua história. Acabou se tornando uma exploração realmente interessante pra mim, porque enquanto eu não quero justificar ou racionalizar muito o persongem, acho que é importante lembrar que todo mundo tem uma história. Se pudermos entender os ‘bullies’ e até encontrar um pouco de compaixão, só um pouquinho, talvez possamos descobrir como resolver ambos os lados do problema. (Fonte)

Refrescando algumas memórias: Extraordinário conta a história de August Pullman, que nasceu com um conjunto de defeitos genéticos que tornam a sua aparência facial nada agradável. No romance, acompanhamos sua trajetória enquanto vai pela primeira vez à escola normal, enquanto em outros tempos era ensinado em casa. Temos a sua perspectiva e, como dito, de alguns de seus colegas. A irmã que se sentiu um pouco excluída, um amigo que começou o relacionamento por obrigação mas se tornou um camarada de verdade, e mais alguns. Auggie era infernizado por um grupinho que tinha nojo e debochava dele, encabeçado por, agora sim, Julian — representado como o típico garoto que parece boa pinta mas que esconde muito veneno por dentro.

A história é escrita em um estilo bem parecido com Extraordinário na questão da forma. Como tudo se narra na primeira pessoa de Julian, sua voz escrita é bem simples, mas charmosa, simulando um estilo no qual o protagonista provavelmente escreveria ou falaria. Fica apropriado para o público e também agradável de se ler, tornando a novela uma experiência até bem rápida. Mas quem lerá The Julian Chapter provavelmente já leu Extraordinário e já começará a leitura com um certo partido tomado. Foi a minha experiência: já desgosto do Julian desde o princípio pelos tormentos pelo qual fez August passar no primeiro livro.

Okay, okay, okay.

I know, I know, I know.

I haven’t been nice to August Pullman!

Big deal. It’s not the end of the world, people! Let’s stop with the drama, okay? There’s a whole big world out there, and not everyone is nice to everyone else. That’s the just the way it is. So, can you please get over it? I think it’s time to move on and get on with your life, don’t you?

Jeez!

capa-extraordinario_frenteA novela escrita por Palacio divide-se em “Before” (que acontece durante o tempo de Extraordinário), e “After” (depois do fim do ano letivo, que é quando o romance termina). Before acaba sendo uma enorme mea culpa por parte de Julian, onde ele narra os principais acontecimentos em sua perspectiva, com seus insights, e a particpação de sua não-muito-melhor família. Infantilmente busca se jusificar. E, a princípio, ainda é difícil de simpatizar com ele e seus pais. Provavelmente todos conheceram o tipo de garoto que se comporta mal mas cujos pais são dos que insistem em desviar a culpa para algum fator externo. Uma superproteção que chega a ser incômoda na medida em que, mais tarde, começa a afetar outras crianças de maneira negativa.

É mais ou menos o caso. Julian tem terrores noturnos desde menor com uma certa sensibilidade a faces “prejudicadas” desde que se assustou na tenra infância com um zumbi em um comercial de Halloween. Terrores estes que supera depois de uma certa idade mas que retornam com toda a força depois de seu primeiro encontro com Auggie. Daí, sua mãe, ciente de todas as questões, ao ver August pela primeira vez, decide que a escola foi muito negativa na forma de tratar tudo aquilo — afinal, prejudica o seu próprio filho — e decide tomar as rédeas da situação.

A epígrafe que abre o livro é “seja gentil, pois todos a quem você encontra estão lutando uma batalha difícil” (Ian Maclaren). Dá para perceber que esta é a ideia que define o livrinho e que Palacio mais se esforçou para fazer passar. Pouco a pouco, as justificativas que parecem cada vez mais fúteis de Julian se transformam em algo a mais. Descobrimos e conhecemos o ambiente em que vive e os seus próprios problemas. Mas a verdadeira “redenção” só vem em After, depois do final do ano. Julian precisa aprender a sentir empatia e remorso, que é o que parece faltar — ele se vê como o injustiçado, a vítima e, apesar de achar algumas das atitudes de seus pais em sua defesa questionáveis, em Before acaba prezando mais pelo seu próprio bem estar.

Mas, também, a autora nos dá oportunidades que nos permitem colocar na pele daqueles pais e, mesmo, daquela criança. Se nossos filhos, muito prezados, tivessem problemas noturnos e más noites de sono devido a algum problema da escola? Sem dúvida muitos pais agiriam de forma diferente, mas quando é seu primogêito que está na linha, muitos outros pais também teriam um nível desagradável de superproteção. Julian, ao mesmo tempo, é uma criança e não tem ideia de tudo o que faz; não amadureceu forçosamente como Auggie o fez ao passar por sua trajetória. E, algumas vezes, olha para trás em coisas que fez quando muito atiçado, e de leve, se arrepende. Mas não é o bastante para torná-lo simpático aos olhos do leitor e, de toda a forma, não parece ser esta a intenção da autora.

As ações do personagem não são justificadas. Através de uma narrativa bem própria, temos apenas algum breve vislumbre em sua própria realidade para aprender que Julian não é aquele personagem unidimensional do bully cruel. Ele pode ter estes traços, mas todo este livrinho foi concatenado com a ideia de lhe adicionar mais algumas camadas de subjetividade. E, durante After, os acontecimentos e uma história contada ao rapaz faz com que ideias sejam repensadas, e acabam formando o pedaço que, na minha opinião, é o ápice do capítulo Julian.

Nada impede que o leitor continue desgostando de Julian depois do final do livro. De fato, acredito que é o que acontecerá com a maior parte dos leitores. Entretanto, as curtas páginas pelas quais podemos acompanhar a sua trajetória faz com que sintamos o que, no final das contas, ele precisava aprender a sentir: só um pouco de empatia.

R.J. Palacio

R.J. Palacio


Ficha técnica

  • Tìtulo: The Julian Chapter
  • Ano de publicação: 2014
  • Edição lida: Knopf Books for Young Readers. E-book
  • Número de páginas: 87
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2 comentários

  1. “Mas quem lerá The Julian Chapter provavelmente já leu Extraordinário e já começará a leitura com um certo partido tomado.”

    Confesso que comecei lendo o livro com alguma antipatia pra cima do Julian, mas depois tudo virão compreensão (não que as ações dele fossem justificáveis, claro).

    Eu gostei muito do texto, só achei que por motivos menos nobres ele poderia encontrar remorso dentro do próprio coração, mas quem somos nós para irmos contra as ideias da autora, certo?

    Um abraço.

    1. Realmente, acho que a ideia é que sempre se dá para compreender, o outro lado sempre tem a sua história pra contar. Não que isso justifique qualquer coisa, mas às vezes esse entendimento, isso de nos colocarmos na pele do outro, ajuda na hora de termos de fazer um “julgamento”. Compreensão gera gentileza.

      Acho que todos temos motivos para fazer o que fazemos, mas será que valeria a pena contar a história de Julian se no final ele não encontrasse alguma espécie de redenção, por mais leve que ela fosse? Ainda mais para o público-alvo, acho que é importante para a autora passar uma mensagem otimista da natureza humana.

      Que bom que gostou do texto! Muito obrigado pelo comentário.

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