God Emperor of Dune

1437283Maio começou com leituras pesadas e ainda estou em dúvida se isso foi uma escolha boa ou ruim. Depois de terminar Divine Invasions, queria descansar um pouco do Philip e começar a redigir aquele meu trabalho (para o qual eu comecei lendo VALIS e acabei não lendo nada menos que quatro livros do autor no mês passado). Então resolvi pegar nada tão curto quanto os últimos romances pelos quais eu me aventurei, e estou lendo agora The Two Towers (o volume 2 do Senhor dos Anéis, As duas torres e que, quem sabe, terá um post aqui uns dias para frente). Como tento me manter sempre lendo um livro físico e outro digital, o e-book para compensar o Tolkien não foi nada menos denso: acabei lendo o quarto livro da série Duna. 

Arrisco dizer que God Emperor of Dune, que saiu no Brasil há umas décadas como Imperador Deus de Duna, é o livro mais pesado da série depois do primeiro. O Duna original, um amor de épico, tinha lá suas seiscentas páginas, mas os seus dois volumes seguintes formavam apenas a metade deste tamanho, cada um. Este quarto volta a crescer em extensão: demorei quase duas semanas para passar por todo o romance, mas saí inteiro.

E, atenção, pois aqui tem spoilers de todos os quatro livros da série, já que não tem muito bem como situar este sem falar de seus antecessores e seus desfechos.

Puristas não gostam, admitem, das continuações de Duna. Algo que eu gosto até então no jeito como a série é colocada é que, exceto o segundo livro, cada um encerra uma história em si mesmo e dispensa a necessidade de sequências, se você estiver cansado do universo, tiver sofrido para terminar o calhamaço de livro ou simplesmente não quiser mais saber dos escritos de Herbert. Isso escusa grande parte dos leitores de Duna de precisar continuar nos seus volumes seguintes. E entendo porque eles não gostam dos livros seguintes. Posso não concordar com suas enfáticas acusações de que as continuações são muito chatas, mas  os romances são, na verdade, experiências bem diferentes uns dos outros.

Coloco aqui uma pequena retrospectiva, bem superficial, porque não me lembro exatamente dos detalhes. Se Duna é épico com os seus acontecimentos e a sua caracterização do protagonista Paul Atreides, sua continuação Messias de Duna desconstrói o personagem do herói ao colocá-lo como um messias de um império jihadista do qual nunca pretendeu fazer parte. Suas motivações e seu heroísmo são desfeitos até a sua potencial redenção no final do livro, no qual entram no palco os dois protagonistas fundamentais de Filhos de Duna: Leto II e Ghanima Atreides, seus filhos. Ambos já no terceiro livro começam a elaborar um plano que consertará o que deu errado na trajetória de seu pai. Como pré-nascidos (ou seja, tomaram consciência de sua existência ainda no útero e têm as consciências de todos os seus antepassados dentro da mente), dividem uma ligação que jamais poderia ser igualada dentro do universo.

Até, é claro, o início da metamorfose de Leto II que, ao entrar em simbiose com as sandtrouts de Duna (uma espécie de forma larval das enormes sandworms que habitam a lore da série, de icônica). Então começa um processo de diferença que transformaria Leto II não apenas fisicamente, mas também espiritualmente ao separá-lo desta ligação com Ghanima e deixá-lo à deriva com a sua multidão de antepassados por séculos.

Filhos de Duna é uma experiência distinta de ambos os dois outros livros. O planeta Duna está modificando-se, a sociedade é diferente e o próprio ritmo da história é mais rápido. Mas em Imperador Deus, que começa a “segunda trilogia” depois de um bem colocado salto no tempo, a experiência modifica-se mais uma vez e talvez lembre de outros livros de ficção científica cujo foco é mais voltado para o conversacional e filosófico do que as ações entremeadas na história vistas no original.

God_Emperor_of_Dune_by_NathanRosarioA história de Imperador Deus de Duna acontece 3500 anos após o final de Filhos, quando Leto II declara-se imperador. A sua simbiose lhe permitiu estender indefinidamente a própria vida. Mas a metamorfose que teve de passar com as sandtrouts lhe causaram um preço a ser pago: ele começou a se transformar lentamente em uma sandworm e agora é um híbrido entre homem e verme gigante. Mais verme que homem, pois de seu corpo só restam seu rosto, sueus braços, e sombras de suas pernas. Em sua metamorfose final, ele se transformará eventualmente em um verme gigante e reiniciará o ciclo dos vermes em Arrakis. Depois da terraformação iniciada nos primeiros livros, o planeta não é mais Duna, planeta deserto. Temos rios e florestas, e apenas a capital, o Sareer de Leto II, mantém um deserto artificialmente criado. Apenas quando ele morrer e o ciclo recomeçar que Arrakis voltará a ser Duna.

Aqui estamos acompanhando o final de seu império, no qual ele se converteu deliberadamente na imagem do maior tirano da história do universo. Durante todo o seu reinado, manteve o que chama de o “Caminho Dourado”; um plano de extremo longo prazo que visa impedir definitivamente a extinção da raça humana. Este caminho já era citado durante Filhos, com todo o plano de Leto e Ghanima (incluindo a simbiose e metamorfose daquele) tomando lugar principal nesta empreitada em direção à sobrevivência da espécie.

“Nothing is ever separated from its source,” he said. “Seeing futures is a vision of a continuum in which all things take shape like bubbles forming beneath a waterfall. You see them and then they vanish into the stream. If t he stream ends, it is as though the bubbles never were. That stream is my Golden Path, and I saw it end.” (p. 244)

Para isso, Leto, assim como as Bene Gesserit nos livros anteriores, começa um plano de cruzamento entre diferentes pessoas-chave de forma a construir o Caminho Dourado. Tomam papéis principais Siona, descendente de Ghanima, Moneo, seu pai e mão-direita de Leto, e Duncan Idaho, o ghola (uma espécie de clone ressuscitado) do personagem original que pereceu no primeiro livro e que veio a aparecer nos seguintes. Duncan já foi clonado inúmeras vezes durante o império de Leto, e como um homem fora de seu tempo que mantém apenas as memórias da sua primeira vida, ele está completamente perdido naquele contexto. Apesar de sua lealdade adamente ao clã Atreides, não sabe em até que ponto pode confiar na dúbia moralidade do herdeiro de Paul, que construiu todo um culto e religião a partir de sua existência. Afinal, ele é Imperador Deus.

What a gift Moneo has given me in this daughter, Leto thought. Siona is fresh and prcious. She is the new while I am a collection of the obsolete, a relic of the damned, of the lost and strayed. i am the waylaid pieces of history which sank out of sight in all of our pasts. Such an accumulation of riffraff has never before been imagined. (p. 50)

O livro tem um ritmo muito mais lento e denso que os seus anteriores. Neste quesito, é parecido com o primeiro livro, mas este tem muito menos ação e muitas mais conversas e debates de natureza história, filosófica e sociológica. Li reclamações em vários pontos por outros leitores, durante a minha própria, que o livro é apenas um enorme amontoado de conversas entre Leto II e pessoas que não necessariamente entendem o que ele realmente quer dizer. Não está exatamente errado. Leto II é a humanidade encarnada; um homem que abdicou da sua própria vida para se tornar um algo e perder o próprio status de humano e se refugiar na solidão de uma existência única, mesmo com a sua multidão interior. O livro é mais devagar, só que isso não diminui o seu valor. É muito dependente do que o leitor procura para a experiência de leitura. O retrato pintado por Herbert desta criatura única que é o Imperador Deus é fascinante.

Um bom motivo para a mudança brusca deste tipo é o próprio contexto social da história: se os demais livros da série eram baseados em grandes mudanças, de caráter político, religioso, e social; aqui estas mudanças já aconteceram no tempo entre o terceiro livro e o quarto. Aqui, o Império de Leto está em paz e na mesma há milênios. Se os outros livros tiravam a sua motivação da dinâmica, aqui é da estática que advêm todos os dilemas. A estática de um império estagnado e um imperador entediado.

You talk of prisons and police and legalities, the perfect illusions behind which a prosperous power structure can operate while observing, quite accurately, that it is above its own laws. (p. 234)

Agora, não sei se advém das próprias opiniões do autor, se é algo construído especificamente para a série de ficção ou se nenhuma das alternativas, mas não há como deixar de perceber o viés determinista passado pelas explicações da história. Muito em Duna e suas continuações dependem de genética: memória familiar e coletiva; e “engenharia genética” (a partir de cruzamentos) que determina comportamentos e modificações nos espécimens que cria. Leto II tinha como objetivo evoluir o ser humano com o seu jogo de engenharia, e o conseguiu. Mas até que ponto o que se tornará um ser humano é construído pelos nossos genes, herado de nossos ancestrais?

bastian_letoNo universo de Duna, um bocado.

Apesar de pessoalmente não concordar e não saber até que ponto este viés tem uma fundamentação científica, aceito-o em Duna porquanto tem uma coerência interna que até o momento não foi estilhaçada. Digo, tomando esta possibilidade como verdade, na suspensão de descrença, todas as consequências e planejamentos, em todas as gerações englobadas pelos livros, fazem sentido. Não há contradição na lógica do universo que quebra a imersão e a magia de tantas histórias. Ou seja, continuam bastante imersivos.

E aí o livro é recheado de comentário político. Leto II é o tirano-mor, mas o faz por necessidade. O seu Caminho Dourado o instiga: é necessária a estagnação de sua mão de ferro durante três milênios para que, assim que seu império termine, sua lembrança fique de tal maneira enraizada na civilização que eles jamais arrisquem novamente um governo despótico. Da mesma forma, proíbe a viagem interestelar, de forma que as pessoas desejem a liberdade de tal forma que não hesitem em, uma vez acabado o seu império, viajar para todas as estrelas possível. Leto forma o império mais estagnante e forçosamente autoritário da história, para que, pelo desejo de ter o que lhes era proibido, a espécie humana seja livre para a eternidade.

Leto smiled: “The ultimate arisocrat dies within me.” And he tought: Privilege becomes arrogance. Arrogance promotes injustice. The seeds of ruin blossom. (p. 279)

A moralidade discutível do Imperador Deus rivaliza apenas com a de seu pai que, em Duna Messias, cometeu todos os tipos de escolhas duvidosas. E, assim como Paul, Leto passa longos tempos (e muito mais que o seu antecessor) em explicar matérias de natureza sociológica, filosófica e até mesmo etmológica para aqueles que se dignam a conversar com o déspota.  Afinal, ele deve saber das coisas. Assim como Paul, enxerga o futuro; mas, ao contrário de seu pai, também consegue ter acesso às memórias de todos os seus antepassados (incluindo Muad’dib). Considerando todos os antepassados, e que a cada geração o número aumenta geometricamente, o conhecimento que deve ter à sua disposição é inimaginável. Somos apresentados aos seus diários e aos seus pensamentos; um personagem intrinsecamente complexo: sozinho e legião, entediado mas infinitamente vivido.

A amalgamação de suas características no contexto do seu império e a sua decisão de “consertar” a humanidade em seu Caminho Dourado resulta em um livro, sem dúvida, repleto de material para reflexão. Mas também constrói um satisfatório arco de desenvolvimento dos personagens. Não apenas Leto mas também seus asseclas e rivais (Siona Atreides e seu pai Moneo, Duncan Idaho) têm personalidades bem formadas que se desenvolvem com o passar das páginas. Os acontecimentos lhes suscitam respostas coerentes e suas provações lhe trazem mudanças que formam boas histórias individuais.

Por isso, para quem leu os demais livros e passou de Messias e Filhos de Dunaeste livro pode ser tanto recomendado quanto contra-recomendado. Depende bastante da adequação do leitor a um determinado ritmo, e o quanto estão interessados em uma nova fase da vida no Universo de Herbert. Porque Filhos encerrou uma história na qual ficou espaço para a continuação, mas ao mesmo tempo apresentou um desfecho satisfatório. Aqui, é a mesma coisa.

Não sei quando vou me arriscar no quinto livro, mas deve demorar um bocado.

FRANK_HERBERT

Frank Herbert, autor de Duna


Ficha técnica

  • Título: God Emperor of Dune
  • Ano de publicação: 1981
  • Edição lida: Ace Books, 2008. E-book.
  • Número de páginas: 423
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