The Divine Invasion

10846065Segundo volume da “trilogia VALIS” de Philip K. Dick, The Divine Invasion (literalmente, “A invasão divina”) é, digamos, bem mais deglutível que o seu predecessor. A trilogia é composta do homônimo VALIS, deste livro que tratamos aqui, e a sua “continuação” The transmigration of Timothy Archer, que deve aparecer por aqui também muito em breve. O fato de formarem uma trilogia, assim nomeada por Dick, não quer dizer que sejam os três livros intrinsecamente ligados. Na realidade, não dividem sequer um personagem ou ambientação. A ligação é puramente temática: gnosis, conhecimento, teofania, a intromissão dos seres divinos sobre as relações humanas, a realidade como construção e simulacro, e todos os temas ligados à mitologia e teologia judaica, cristã, islâmica, e gnóstica.

The Divine Invasion é mais assimilável que seu predecessor no sentido que é menos um tratado teológico, com trechos da Exegesis e vômito de conhecimento mesclado à ficção que Dick nos apresentou, e mais uma história com enredo e personagens próprios. É mais padrão em ser um romance bem delineado, com suas fronteiras com a autobiografia mais definidas. Não obstante, não deixa de ser uma obra em certos pontos autobiográfica, com os temas recorrentes de VALIS que advêm da vida de Dick também encontrando espaço em suas páginas. E mais, as suas ideias e conhecimentos também transbordam aqui. Li que, na escrita de The Divine Invasion, PKD ficou um ano refletindo (após a publicação de VALIS) e escreveu o livro em si em questão de duas ou três semanas. Isso é, digamos, bem rápido.

Seu título de trabalho original era VALIS Regained e algumas análises o consideram estruturalmente pobre, justamente por não tanto o planejamento de uma estrutura fixa e coerente para o livro, mas o foco em suas ideias. Dick teria priorizado a rapidez e não teria feito o esquema de racunho por rascunho, conseguindo um resultado mais orgânico, porém menos desenvolvido ou organizado. Polido, talvez. Diz K. W. Jester, em uma entrevista:

They ramble, and they go from one thing to another, and its just one idea after another popping into Phil’s head. That doesn’t say anything about the quality of the ideas. But just in terms of a structure, this may be something that I think about the books that nobody else thinks about the books because I tend to be a structuralist in my approach to writing. To me, I think its internally consistent to look at the books as just being a straight through unrevised draft of ideas Phil has been working on in another form for a long time. In terms of the actual dramatic content of the book, characters and so forth, I can’t believe that those last couple of books were done draft by draft.

Herb Asher mora em seu domo em uma colônia longe da Terra, e é atormentado ocasionalmente por uma antiga divindade que mora na montanha onde está seu domo. Distorce suas gravações e mexe seu equipamento. Eventualmente é revelado a ele que Yah, a divindade adorada pelos nativos, é na realidade Yahweh (Javé), o Deus bíblico, que foi expulso da Terra depois da queda da fortaleza de Masada no primeiro século depois de Cristo pela força de Belial, o Mal Supremo. Yah concatena um plano entre Herb e Rybys, uma mulher doente e prestes a morrer no domo vizinho ao seu – ela está com uma gravidez imaculada, e o resultado será a própria encarnação divina. Como se “a segunda vinda”. Posando como pai da criança e auxiliado por Elias, o profeta bíblico, Herb deve levá-los de volta à Terra, onde Belial reina invisível. Assim contrabandeará Deus de volta à Terra, onde Ele poderá efetuar o Dia do Julgamento.

PhilipKDickO que deixa sua leitura mais agradável – e até bem instigante – é o fato de, ao contrário de seu antecessor, toda a carga filosófica estar embutida dentro da história, em seus temas, personagens, diálogos e acontecimentos. Além disso, é uma história mais convencional de “ficção científica”: temos colônias espaciais, naves, tecnologia indisponível, limites geográficos diferentes do mundo atual, futuros alternativos, realidades paralelas e tudo ao que temos direito. Assim sendo, apesar de ainda ligeiramente confuso – principalmente em seus trechos finais – o livro satisfaz em criar um gancho de curiosidade, em fazer nos importarmos com o que está em jogo (só o destino do mundo).

PKD, então, tem sucesso enquanto trata com seus temas de sempre acrescidos de suas ideias mais recentes: a natureza da realidade, simulacros se adicionam a teofanias, religião, espiritualidade, mitologia antiga e até mesmo a moralidade no nosso universo. Ao mesmo tempo, para o leitor de VALIS, temos uma sensação de desfecho melhor resolvido – como se The Divine Invasion fosse uma segunda parte que nos explicasse, de maneira a completar um ciclo, alguns temas que abordamos e não absorvemos completamente no primeiro livro. Assim como “o tempo se transforma em espaço”, aqui teoria se transforma na aplicação. Os temas do “Império”, a “Prisão”, “Zebra” e outros encontram um fecho em alguns trechos que despertam o leitor atento. Não tem aquele valor de novidade, aquele estranho e pós-moderno, mas é uma leitura agradável (a voz do Dick continua, como sempre, muito boa de se ler), com uma proposta interessantíssima e um desenvolvimento que toma direções inesperadas.

É um ótimo romance e uma leitura filosófica-teológica agradável e curiosa.


Ficha técnica

  • Título: The Divine Invasion
  • Ano de publicação: 1981
  • Edição lida: Orion, 2010. E-book
  • Número de páginas: 272 (o físico)
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