Shadow of the Hegemon

9534Faz pouquíssimo tempo que li e resenhei aqui Ender’s Shadowa “sidequel” para Ender’s Game, narrado pelo ponto de vista de seu “primeiro imediato”, Bean.  Como dito, a experiência de leitura fora diferente em vários aspectos – apesar da história se passar praticamente no mesmo período de tempo, a diferença entre ambos os protagonista deu aos livros uma cara bem distinta, com temas bem específicos, apesar da interpolação entre as jornadas pessoais de ambos Ender e Bean.

A série Shadow continua agora em Shadow of the Hegemon, uma história diferente de ambas as duas e com temas e ambientações completamente novas. Como continuação, a própria sinopse e resenha pode conter spoilers de tanto Ender’s Game quanto Ender’s Shadow. Se ambas as duas outras tiveram a maior parte de seus enredos ambientadas na Escola de Combate, finalmente temos um panorama político-geográfico de como está o planeta Terra. Todo o livro é ambientado de volta em nosso planeta natal, e a história segue com seu enredo variante. Antes, tínhamos os humanos contra os fórmicos e a constante ameaça da invasão alienígena. Agora, com a guerra ganha, temos uma espécie de thriller político.

Bean está de volta à Terra, em um lar que jamais conheceu enquanto criança de fato. Mas agora, sem a ameaça constante de uma invasão extra-terrestre unindo as nações sob uma causa comum, as tensões voltaram com toda a força e os países querem novamente a hegemonia que lhes fora tirada. Guerras estão prestes a eclodir – e o recurso mais valioso agora são os jovens prodígios estrategistas que venceram o embate contra os fórmicos.

Os graduados da Escola de Combate são cobiçados. Espalhados pelos seus países de origem, um a um os adolescentes que venceram a guerra ao lado de Ender Wiggin são raptados por uma potência misteriosa, e apenas Bean conseguiu se safar deste destino. Ele tem as suas ideias de quem é a mente culpada por trás de tudo, mas precisa arranjar apoio se quiser não apenas assegurar a sua integridade e a dos outros – mas também impedir esta força de dominar os continentes através de guerras e artimanhas. Com Ender exilado, Bean deve contatar o único que pode ter a mente tão brilhante quanto a do herói de guerra – Peter Wiggin, o irmão mais velho de Ender, que já há um tempo manipula a política global por trás dos panos.

Como em ambos os livros anteriores, a suspensão de descrença é fundamental para que se consiga aproveitar o livro. Ou seja, você deve aceitar de bom grado que crianças de quatorze anos são incríveis gênios militares, prodígios intelecutais com um raciocínio veloz, ou ficará a todo momento “ah, sei”, e largará o livro rápido. Mas, também, este era um requisito para aproveitar os dois livros anteriores, e acho que sem isso não teríamos chegados até aqui. Este aspecto é levado adiante neste livro, já que as crianças estão mais velhas e agora, adolescentes, são ainda mais inteligentes, tentando enganar uns aos outros para vencer seus “jogos de guerra”, com todo mundo prevendo os próximos movimentos de seus rivais. Vale dizer que, além da política alternativa (com o hegemon, polemarch etc), este livro perde grande parte de seu apelo de “ficção científica”. Não temos mais naves, gravidade zero, e estes elementos mais usualmente considerados FC, sendo este mais um livro de história militar do futuro do que qualquer outra coisa.

A voz narrativa continua a mesma, focando na introspecção e lógica seguida pelos personagens enquanto eles realizam seus feitos. O foco na sobrevivência e na superação dos obstáculos em Ender’s Shadow é substituído pela intriga política (quem está raptando as crianças? Quais serão os próximos passos do antagonista?) e militar, incluindo uma guerra entre Índia e Tailândia. Lemos ambos os lados concatenando suas próprias estratégias. Estas parecem verossímeis, apesar de não ter cacife nenhum para julgá-las como plausíveis – elas assim soam para o leitor, o que provavelmente é o suficiente.

Em seu posfácio, Orson Scott Card conta sobre as leituras que fez para a redação da obra, incluindo livros sobre a história e geografia da Índia e Tailândia, então no mínimo alguma pesquisa foi feita. Há vários personagens de muitas nacionalidades presentes em toda parte na história (assim como o pluriculturalismo presente na Escola de Combate), e é feliz que evitam-se alguns estereótipos, como nos casos de indianos e brasileiros. Falando em brasileiros, é interessante ver um foco secundário que o autor dá ao país. Algumas cenas se passam aqui (em Araraquara, SP), e ele coloca até um pouco de português gratuito aqui e ali. Pesquisando um pouco, descobri que ele passou algum tempo no Brasil como missionário. É um bônus bobinho, mas achei divertido.

He had just come from Araraquara, where the sorvete was memorable, and the American stuff was just too fatty, the flavors too syrupy. “Mmmm, deliciosa,” said Bean.

“Fecha a boquinha, menino,” she answered. “E não fala português aqui.”

“I didn’t want to critique the ice cream in a language they’d understand.” (p. 165)

Se temos alguns problemas, eles são um final talvez meio decepcionante. Ao contrário de Ender’s Shadow, que encerra bem um arco de história, este livro deixa muita coisa em aberto. Não, como no anterior, deixando uma vida inteira em aberto, com uma história que se encerra. Mas aqui, o antagonista continua vivo e à solta, e ainda precisamos ver como tudo vai se resolver no fim. Ou seja, é imprescindível que se continue a ler o resto da série, mas para alguns isso já deve ser esperado. Também, ao contrário dos seus antecessores, a ideologia mórmon de Orson Scott Card já começa a transparecer em algumas cenas, diálogos, discursos e personagens. Para quem não é muito chegado à ideologia do autor (que é um tanto polêmico, diga-se de passagem) isso pode ser um contra.

E a capa que, vamos combinar, é um bocado feia.


Ficha técnica

  • Tìtulo: Shadow of the Hegemon
  • Ano de publicação: 2000
  • Edição lida: Tor Scince Fiction, 2001. Mass market paperback.
  • Número de páginas: 451
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