Nós, os deuses

19543192Quando fiquei sabendo que teríamos uma nova trilogia do Bernard Werber no Brasil, as minhas expectativas foram lá ao alto. A trilogia d’O Império das formigas me encantou com uma originalidade e vida que poucas obras atingiram. Apesar de considerar o terceiro livro daquela um pouco enfadonho na parte se tratando de humanos, não deixa de ser de muitas maneiras original. A ideia de se narrar as formigas de maneira não antropomorfizada, mas de formas biologicamente corretas foi algo, para mim, inesperado, e mudou de N formas o jeito com que eu assisto a “Vida de Inseto”. Com uma voz limpa, mas instigante, uma leitura rápida e a incapacidade de largar os livros por um longo período de tempo, nada mais natural que esperasse uma continuação destas características nesta nova trilogia lançada pela Bertrand Brasil: O ciclo dos deuses, cujo primeiro expoente é Nós, os deuses.

Ainda fico ligeiramente reticente, pois não sei apontar exatamente o que achei do livro. Gostei, e reencontrei vários pontos formais, de voz, de leveza e de temas que achei tão legais em As formigas. Mas acho que esta nova série não conseguiu me captar de maneira tão irremediável – não, pelo menos, neste primeiro volume. Talvez seja resultado da mudança temática e de enredo. Talvez o que me encantasse em As formigas não fosse propriamente Werber, mas as próprias formigas. Mas isso não faz de Nós, os deuses uma narrativa desprezível.

A nova série é a sequência de uma outra trilogia que não foi lançada no Brasil, Império dos Anjos. Mas isso não prejudica o entendimento do novo livro, já que os pontos principais são recapitulados pelo protagonista durante o desenrolar da história e os dramas e problemáticas mudaram de gênero e tom. Mas, de qualquer forma, o grupo principal do protagonista e seus amigos já tem os seus relacionamentos formados.

Michael Pinson era um médico que, no processo da trilogia anterior, explorou os campos da morte (durante a vida, através da “tanatonáutica” fundada por ele e seu amigo, Raul Razorback) e ascendeu a se tornar um anjo. Um anjo é uma pessoa que já reencarnou e reencarnou até sair deste ciclo e ascender a uma nova forma de existência – isso é budista, não é? – e tem como tarefa guiar pessoas na terra. Algo como um anjo da guarda, para ajudá-los a levar a vida e quem sabe também ascender em existência. Após a sua estadia como anjo, instruído pelo mentor Edmond Wells (que era uma figura póstuma mas essencial d’O império das formigas), eles ascendem para o próximo estágio: o de deuses.

Alunos-deuses, eles são jogados na misteriosa ilha-planeta de Olimpo onde se tornam pupilos dos mestres-deuses, figuras importantes da mitologia grega: Cronos, Atena, Afrodite, Hermes, et. al. E surgem, não poderiam faltar, os mistérios: um deicida está matando outros alunos-deuses; o que acontecem com os alunos-deuses que são expulsos das disciplinas; e, o mais importante, a força misteriosa que aparentemente os rege do cume de uma montanha cujos limites lhes são proibidos. Enquanto tentam solucionar isso, devem ter aulas sobre a regência de povos; cada um recebe um grupo de indivíduos que devem fazer florescer e construir uma cultura, religião e população. Os melhores são honrados, os piores de cada aula são expulsos. Durante a história, são colocados vários questionamentos:éticas e morais em um contexto de sobrevivência, relativismo cultural, religião e misticismo…

bwcolor01Senti muitas semelhanças com As formigas, como disse, em questões de estrutura, o que agrada por trazer ares familiares de volta: os micro-capítulos, como se cenas, que dividem e pontuam a história; os trechos da Enciclopédia dos saberes relativo e absoluto, que são trechos de exposição retirados da enciclopédia homônima escrita pelo personagem Edmond Wells e está presente nas três trilogias. Entretanto, algo que não chegou a me agradar muito foram: diálogos que considerem um tantinho forçados, e o desenvolvimento dos povos e sua explicação, que me pareceram soar um tanto deterministas, com uma relação causa-efeito muito demarcada. Parece algo difícil de se escrever sem soar desse jeito, de fato, mas ainda assim acaba incomodando um tantinho durante a leitura.

Como os mestres-deuses escolhem uma turma sempre baseadas em apenas uma nação (para evitar a criação de “panelinhas nacionalistas”), vemos várias figuras reais e conhecidas da nação francesa. Rousseau, Édith Piaf, Voltaire, Saint-Exupéry, Nadar, Proudhon são apenas alguns dos nomes e personagens com nível maior e menor de importância. Chega a ser divertido ver a colocação de personagens históricas, algumas com posições ideológicas bem distintas, em um mesmo caldeirão cultural (que, por exemplo, resulta em uma guerra entre os povos criados por Rousseau e Voltaire).

O final peca no sentido de não dar uma satisfação de enredo concluído – ele termina em aberto, a ser concluído nos próximos livros. Ainda pretendo ler tudo, mas senti falta do sentimento de conclusão que geralmente encerra o livro, e que achei presente nas demais obras do autor. As referências a estas, no entanto, são bem colocadas, sutis e agradam a quem já as leu. Talvez alguns pequenos bônus para aqueles que conhecem o autor um pouco mais – mas imagino que, como continuação da trilogia dos Anjos, teria me sentido mais confortável na ambientação tendo a lido anteriormente.

Acabou sendo um livro bem divertido e com uma leitura que agradará a muitos, assim como agradou a mim – mas a maldição de ter criado uma expectativa enorme prejudicou a minha própria experiência.

Ficha técnica

  • Tìtulo: Nós, os deuses
  • Tìtulo original: Nous les dieux
  • Ano de publicação: 2004
  • Edição lida: Bertrand Brasil, 2014. Tradução de Jorge Bastos
  • Número de páginas: 434
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