Dublinenses

857799354X_bmUm daqueles casos em que eu me pegava pensando que este livro seria razoavelmente bom e acabei me surpreendendo. Peguei a edição de bolso que tenho aqui em casa, de 190 páginas, bem fina e que de fato cabe no bolso, para ler nas manhãs de um metrô lotado. Sendo um livro de contos, não muito longos e nem cansativos, julguei que fosse a minha companhia perfeita para estas manhãs na lata de sardinha urbana.

Só não esperava o quanto eu acabaria gostando do livro. Dublinenses de James Joyce é, basicamente, um punhado de contos – quinze, para ser mais exato – a respeito de naturais e moradores de Dublin, vivendo as suas vidas, sofrendo os seus dilemas, arrependendo-se de atos que deveriam e sendo pessoas de verdade. Há uma espécie de ciclo de vida dos dublinenses retratado no livro. Os primeiros contos são sobre a infância, do ponto de vista de crianças. Depois, os próximos vão para a adolescência, abordando alguns dilemas juvenis (fugir com o amor, a farra de garotos promissores). Após isso, os adultos e seus problemas (desilusão conjugal, dívidas), e por fim a idade avançada. O último conto e o mais longo, nomeado Os mortos, fecha a coleção com um conto sobre a morte, o que acaba até fechando poeticamente os temas do livro (haja visto que o primeiro conto, narrado do ponto de vista de uma criança, é sobre, também, a morte de uma figura quase paterna). 

Não minto – nunca fui grande fã de contos. Sempre encontrei a minha felicidade nos romances, nas narrativas que me vencem por pontos, e não pelo nocaute. Sendo assim, até não consigo apontar exatamente o que exatamente neste livro me encantou como me fez. Não sei se foi a narrativa, as palavras bonitas. Talvez tenha sido o vigor – apesar de narrar vidas completamente banais, os contos nenhuma vez me cansaram ou me encheram de enfado. Joyce consegue dar às vidas comuns um tom de beleza, nos detalhes, nos pequenos atos, nos pensamentos e na dinâmica que permeia a cidade de Dublin, sua tão amada capital da Irlanda. Os caros dublinenses são algo pitoresco, mas com uma sensação de real que não me abandonou durante nenhum dos contos. Fiquei feliz, satisfeito, leve, também triste ou pesado dependendo das temáticas.

Mas no final, acabei me encantando com cada conto, com cada olhar da realidade daquelas pessoas. Só estou vendo um pequeno trecho de suas vidas, um pequeno olhar dentro de suas cabeças e de suas almas, mas isso já basta para que eu possa extrapolar. Fica aquela sensação de conhecimento, de que estarei vendo um recorte de algo maior – assim como, ao olhar uma fotografia, eu imagino o cenário sangrado, o que se passou, e os momentos que vieram antes e levaram àquela fotografia, e o que possivelmente virá depois. Talvez seja este um detalhe que me encantará para os contos (e calhou de eu estar lendo The King in Yellow ao mesmo tempo, também de contos, e ter uma sensação similar). De fato, talvez seja esta o apelo: um breve olhar sobre suas particularidades, e a extrapolação que fazemos, inconscientemente, do que ainda está para acontecer – e de tudo o que já aconteceu.

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Não conheço Dublin; meu conhecimento a respeito da cidade, antes do livro, se valia de uma foto que uma amiga minha postou na internet, quando estava viajando pela Europa. Mas lembro de ter lido em algum lugar que, se falando de Dublin, consegue-se falar de todas as grandes cidades. Não sei o quão simbólica foi a intenção do autor da proposição (um falar “espiritual”, eu acho?), mas não foi difícil para eu, na minha realidade que provavelmente é bastante diferente da Irlanda do começo do século passado, imergir na mente e na alma dos personagens de cada conto. Acho que aí está um pouquinho de mágica.

Foi uma experiência bem difícil de quando li, no ano passado, Retrato do artista quando jovem. Dublinenses foi, para começo de conversa, uma leitura bem mais fácil. Mas em Retrato Joyce já está mostrando as características literárias que lhe fariam famoso não muito tempo depois com a sua obra mais aclamada. Tenho a intenção de reler Retrato, ver se consigo absorver um pouco mais, ver se finalmente estou pronto para imergir naquele livro.

Ulisses, por outro lado… esse pode esperar mais um pouco.

Ficha técnica

  • Tìtulo: Dublinenses
  • Tìtulo original: Dubliners
  • Ano de publicação: 1914
  • Edição lida: BestBolso, 2012 (adaptação da edição da Civilização Brasileira de 2008). Tradução de Hamilton Trevisan
  • Número de páginas: 191
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