Ender’s Shadow

502601Quando terminei Ender’s Game no segundo semestre do ano passado, uma rápida pesquisa (que eu sempre faço depois de terminar minhas leituras) me contou que eu tinha dois caminhos possíveis a seguir: eu poderia ler na ordem de lançamento e provavelmente a ordem preferida pelo autor, continuando minha leitura com Speaker for the Dead, Xenocide e Children of the Mind; ou eu poderia seguir uma espécie de “ordem cronológica” do universo e continuar com a série Shadow.

O primeiro volume seria Ender’s Shadow. Não li nenhum dos dois até que um dia apareceu em uma promoção do Submarino e o box dos quatro volumes da série Shadow estava substancialmente mais barato que o box do quarteto principal da série de Ender. Então, mais do que uma sequência decidida pelas minhas próprias ideias, fui compelido por uma questão material.

Antes que possíveis puristas me agridam: eu não me arrependo.

Ender’s Shadow é uma espécie de sequência a Ender’s Game, mas ao mesmo tempo é uma “história-paralela” ou “companion novel“; a história se passa ao mesmo tempo paralelamente ao livro, recontando a sua história pelo ponto de vista não mais de Ender, o protagonista, mas de seu praticamente segundo em comando, confidente e bom amigo, Bean.

Eu estava temeroso de continuar com ela por medo de ler a mesma história mais uma vez. Não escondo de ninguém que Ender’s Game é um dos meus livros favoritos, provavelmente entrando nos top 5. E também estava com medo do livro ficar aquém das minhas expectativas, ainda mais depois de uma experiência que tanto me deslumbrou quanto a leitura do primeiro livro. Afinal, Shadow não é menos do que o quinto livro escrito na série, e então era bem verossímil imaginar que a qualidade não se mantivesse, senão boa, pelo menos equivalente ao do primeiro (e Duna está aí para provar isso. Obrigado, Brian Herbert!).

Mas eu joguei isso de lado e li Ender’s Shadow tentando não ter preconceito. E, com meses de diferença entre as duas leituras, se fosse praticamente o mesmo livro, não seria assim tão cansativo.

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E minhas preocupações se provaram equivocadas, infundadas. Ender’s Shadow não é, de forma alguma, o mesmo livro de Ender’s Game. Ambos acontecem ao mesmo tempo, é claro, mas o foco é diferente, a psique de Bean se prova de várias formas bem distinta da de Ender (apesar de ambos serem uma espécie de “crianças gênio”) e o tom da história, apesar de similar, é levado pela diferença de voz dos personagens a caminhos diferentes. Os temas são distintos, as preocupações são outras, as mensagens são outras. Como paralelo à Game, eu não posso deixar de comparar ambas, apesar de isso provavelmente prejudicar a leitura de quem nunca leu o primeiro livro para começar. Então vamos dar uma contextualizada.

Ender’s Game e Ender’s Shadow contam a história de um futuro próximo da humanidade. Fomos invadidos em duas vezes por uma raça alienígena insetoide denominada de “formics”, ou “buggers” no jargão popular. Como defesa para uma possível terceira invasão, as grandes potências fundam a International Fleet, a força militar espacial internacional, e estes fundam a Battle School, um campo de treinamento para as futuras mentes brilhantes que guiarão as defesas da humanidade. Eles tem como mote identificar as crianças mais brilhantes e precoces através do mundo, em inteligência e caráter, e treiná-las para se tornarem os comandos das futuras tropas humanas contra os formics. Ender é não apenas um dos escolhidos para a Battle School mas, através de uma possível engenharia genética, uma espécie de “escolhido” com chances ainda maiores de desenvolver as habilidades necessárias para ser a maior mente militar da história humana. Em Game, acompanhamos Ender da sua vida na Terra ao seu rápido escalar pela hierarquia da Battle School, conforme supera seus testes e desafia seus professores, que precisam tirar dele o máximo possível em termos de habilidade, e rápido; pois os formics estão se aproximando.

Em Shadow, como dito, vemos uma segunda visão da história, a da mão direita e confidente de Ender, Bean, um moleque de rua genial que, apesar de extremamente mirrado em comparação com seus colegas, também guarda um potencial espetacular.

Em primeiro lugar, Shadow dá um insight sobre como uma segunda mente que não adulta, mas de um de seus colegas e subordinados – e possivelmente um dos seus únicos amigos – enxerga aquele que poderá moldar a única chance de sobrevivência da humanidade. Era uma segunda visão que, apesar de não carecer completamente em Game, aqui é mais explorada.

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Foram brothers desde o começo do filme, mas nos livros eles só se encontram lá pra metade da história.

Em segundo lugar, temos um Bean expandido e mesmo diferente do que ele era no primeiro livro. Não que fosse de certa forma contraditório com o primeiro livro, mas apenas vemos a face que o protagonista aqui não mostrou lá (até porque aparece apenas depois de metade do livro em seu predecessor). Bean é um gênio como Ender, mas diferente em muitos aspectos: ele não tem a autoridade e o carisma de Ender; e, devido a uma (falta de) criação diferente, uma personalidade com prioridades bem diferentes.

Enquanto Ender é mais empático e tem como prioridade a salvação da humanidade dos Formics, por criar com isso sendo martelado em sua cabeça, os anos de Bean na rua passando fome e tentando sobreviver a todos os custos tiveram seu efeito: ele começa na Battle School como um rapazinho extremamente paranoico, mais por hábito do que por lógica. Ele sabia que por estar lá já havia ganho a batalha da sobrevivência, mas se esforçaria a todos os custos para ter um ótimo desempenho e cumprir o seu novo papel na sua vida. Por esse motivo, ele é também muito mais, digamos, egocêntrico que Ender – ele tem a tendência mais forte a pensar em si mesmo, e menos nas consequências de seu treinamento.

If I grow up to be the commander of the human fleet that defeats the Buggers, will they hide my picture, too, because someone so tiny can never be seen as a hero?

Who cares? I don’t want to be a hero.

That’s Wiggin’s gig. (p 193)

Admito que li em algumas resenhas que este livro “flanderizava” o primeiro, com um protagonista ainda mais inverossimilmente inteligente, retirando a ambiguidade moral e a humanização das crianças da Battle School. Devo comentar que particularmente não concordei com tais análises – a ambiguidade moral está presentes em elementos diferentes de Game, como na ação e ética militar; o conflito interno do protagonista é diferente da de Ender (da capacidade de matar à ânsia por reconhecimento), e a inteligência de Bean tem uma explicação até mais explorada que a do outro – ainda ligeiramente forçada, mas nada que quebre assim a suspensão de descrença.

Wiggin breathed sharply, suddenly, as if there were a stab of pain, or he had to catch a sudden breath in a wind; Bean looked at him and realizaed that the impossible was happening. Far from baiting him, Ender Wiggin was actually confiding in hm. Not much. But a little. Ender was letting Bean see that he was human. Bringing him into the inner circle. Making him… what? A counselor? A confidant? (pg. 297)

Este é um livro passado ao mesmo tempo de Ender’s Game mas não é, de forma alguma, o mesmo livro com alguns pitacos para sugar mais dinheiro da vaca leiteira de Orson Scott Card. Ele nos prende com uma narrativa envolvente e com personagens que, apesar de algo inverossímeis, não falham em captar o leitor em seus pensamentos, medos e anseios. A história progride, os relacionamentos se fortalecem e os personagens mudam. Bean se desenvolve de um pivete paranóico e um pouco arrogante em alguém que aprende a lidar com seus problemas, com a sua imagem, de si mesmo e para os outros. E, no final, parece que estamos diante das narrativas que Ender deixou para trás. Vemos uma outra parte do mundo do primeiro livro que ficou de fora. Parece que agora estamos aproveitando um panorama mais completo. Uma história mais completa, e algo realmente instigante de se acompanhar. Quando abro o livro, o resto do mundo desaparece.

Leia Game antes, mas não esnobe a série Shadow. Ainda não me enredei nos outros livros, mas duvido que eu vá me arrepender de lê-los.

Ficha técnica

  • Tìtulo: Ender’s Shadow
  • Ano de publicação: 1999
  • Edição lida: Tor Scince Fiction, 2000. Mass market paperback.
  • Número de páginas: 470
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