O estrangeiro

estr_CAPA_DURA_SAIDA_3Um causo engraçado como introdução: havia adquirido o livro há um curto tempo, e resolvi começar a lê-lo ontem. Um livro curto, de aproximadamente cem páginas, bonito e pequeno o bastante para ler no caminho para a aula. Fui de metrô, o que geralmente dispensa as leituras mais volumosas, e um livro grande não me permitira ler durante a viagem. Peguei então O estrangeiro, e comecei a ler durante o caminho. Li aproximadamente cinquenta páginas durante a ida (é uma viagem longuinha), e, em minha primeira aula em uma das eletivas da faculdade que puxei este semestre, descobri, para meu grande prazer e senso de conveniência, que O estrangeiro faz parte da lista de leituras obrigatórias.

Obrigado, deuses da conveniência. E coincidência.

Aliás, coincidência é ponto interessante em quando estamos falando neste livro, já que o absurdo e o não-correlato tem grande papel nessa obra de Camus. Um prefácio bem escrito e rápidas pesquisas pré e pós leitura na internet me revela um pouco sobre análises e objetivos de Albert Camus com este livro. 

A oscilação entre o natural e o inverossímil define, portanto, a literatura de Camus e nos auxilia a ver no herói de O estrangeiro uma entidade mítica nas vestes do homem comum. (pg. 9)

Mersault é um homem comum, e sua mãe morreu. Pode ter sido hoje, ou ontem, tanto faz. Talvez tenha sido ontem, e o homem do asilo tenha ligado hoje – mas, no final, não faz diferença. Presencia o enterro da sua mãe e se mete em um conflito romântico alheio que não lhe diz respeito e acaba culminando em um assassinato. Mersault passa de evento em evento como um estrangeiro à própria realidade, sem opinião concreta formada sobre nada, sem nada a dizer sobre qualquer coisa e indiferente ao mundo e a tudo.

É um personagem quiçá angustiante, pela sua recusa absoluta em se importar com o que quer que seja, mas também é interessante na medida de que seus atos, geralmente motivados pelas suas vontades pontuais (“não me importava com nada na hora porque estava cansado”), refletem o quão no presente momento ele vive, mesmo sem se esforçar. Ele não se importa com o passado, não se arrepende ou remoe o que foi feito, mas sim como se sente, no que pensa, e isso o torna tão estranho – ou estrangeiro – a tudo o que se passa que outros personagens vivem nisso reparando.

Perguntou-me apenas, com o mesmo ar um pouco cansado, se estava arrependido do meu ato. Meditei e disse que, mais do que verdadeiro arrependimento, sentia um certo tédio. Tive a impressão de que não me compreendia. Mas nesse dia as coisas não foram mais adiante. (pg. 74)

O livro é narrado do ponto de vista de Mersault e é este personagem que, para todos os fins, é o motivo e o significado da história, além de seu relator e protagonista. Não um “herói”, se é que se poderia usar este título para  aqueles que geralmente são os personagens principais – porque Mersault de heroico não tem qualidade alguma – mas por simplesmente estar no centro de uma trama que, a princípio, não lhe diz respeito. Apenas por razões que lhe fogem do controle, e cuja participação dele em tudo não fora mais do que mero acaso, resultam na espiral abaixo que consome a vida do personagem.

A leitura é extremamente fácil. O tom narrativo do personagem é feito em frases curtas e rápidas, de modo que o ritmo é bastante delineado por Camus. Não se prende em descrições, mas em pensamentos, atos e mudanças. Mas, acima de tudo, o que chama atenção e atrai a história é o seu elenco de personagens. Principalmente Mersault, o estraneiro do título, cuja mentalidade já rendeu algumas análises – uma curta no prefácio que encabeça o livro -, mas também alguns que se fazem bem interessantes: Salamano, o dono de um cachorro sarnento com o qual vive brigando mas que mostra maior profundidade em tempos de desalento; Raymond, o condutor e de certa forma culpado pela intriga que acaba consumindo a vida de Mersault; Marie, a sua amiga-noiva-tanto-faz, que o acha estranho, mas que talvez goste dele justamente por isso.

A edição é bonita, com capa dura, páginas grossas, tudo bem acabadinho. A leitura se decorreu em pouco tempo e foi uma experiência agradável e esteticamente um bom prato, apesar de não me ter aquele toque especial que me encante completamente. É difícil se importar muito quando o próprio personagem parece não se importar, e essa é a graça do livro, ao meu ver: a distância entre você e o estrangeiro, entre o estrangeiro e o mundo, e, sob os olhos dele, entre você e o mundo. É uma narrativa bem construída, a linguagem de fácil acesso não prejudica em nada a leitura e a atmosfera, muito pelo contrário. Mas eu tenho a impressão de que esse é um dos livros que precisa de mais de uma leitura para se ter a experiência completa.

Mas parece que essa é a ideia dos clássicos.

Ficha técnica

  • Tìtulo: O estrangeiro
  • Título original: L’étranger
  • Ano de publicação: 1957
  • Edição lida: Record, 2013. Tradução por Valerie Rumjanek
  • Número de páginas: 160
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