Jackie editora

jackieJacqueline Kennedy Onassis, em um contexto norte-americano e internacional, é um nome de peso. Ex-primeira-dama, testemunha de uma tragédia e viúva de dois maridos, a biografada de Jackie editora tem como episódio menos conhecido (e provavelmente mais longo) da sua vida na carreira editorial que cultivou pelos últimos dezenove anos de sua vida. Este livro, lançado este ano pela Record, busca abordar justamente esta parte menos conhecida de JKO. Conhecida mundialmente pelo seu papel de viúva, por ter mostrado a sua dignidade durante os dias tristes após o assassinato de JFK, e de seus dias como socialite bem relacionada, esta biografia se faz justamente interessante em sua proposta pela falta de material no assunto.

O livro é escrito por Greg Lawrence, um dos antigos autores de Jackie, e recolhe o depoimento de mais de cem pessoas que se relacionaram com a editora durante seus anos na Viking Press e na Doubleday. Jackie, após a morte de Aristóteles Onassis, seu segundo  marido, e já com mais de quarenta anos de vida, decide começar a carreira editorial – uma vocação que já havia experimentando pouco após a morte de seu primeiro marido, coordenando e prestando auxílio em alguns volumes dedicados a JFK. Como uma mudança de ares, um novo objetivo de vida, algo a ser perseguido e dedicar a sua energia, JKO quis buscar seu próprio lugar naquele mercado, compensando a sua falta de experiência editorial com uma intrincada teia de contatos e possíveis autores que apenas seu antigo e atual status podiam fornecer – relacionamentos estes que seriam duradouros e muito úteis na hora de se sondar possiveis e interessantes publicações.

Jackie editora narra de uma maneira quase cronológica a sua carreira pelo mercado editorial – desde a entrada como editora consuliva na Viking Press, com contato direto com o presidente da empresa, até a sua eventual saída para a Doubleday após uma polêmica relacionada a um livro envolvendo um familiar Kennedy e uma ficção presumidamente de mau gosto. A leitura é a princípio interessante, recheada de depoimentos de muitos dos colaboradores de JKO, com suas impressões e interações com a biografada: como mulher, amiga e editora. Entretanto, apesar do grande conteúdo referente ao relacionamento dela com os entrevistados, percebe-se uma repetição eventual que não cai de todo bem.

É apenas natural que, quando se depõe sobre alguém querido, a pessoa goste de ressaltar os pontos positivos – e não há dúvidas de que Jacqueline era majoritariamente querida e bem-vista por todos os que colaboraram com ela durante os seus anos como editora. Entretanto, os depoimentos carecem em uma variedade de caráter – os elogios muitas vezes são os mesmos e feitos recorrentemente durante o livro. Perde-se a conta de quantas vezes se leu como ela se importava e cultivava os autores, de como era uma editora de conteúdo exemplar, de sua humildade e preocupação pessoal com os autores. Entende-se que isso ajuda a reforçar a sua imagem positiva, mas não se pode deixar de notar que acaba ficando meio redundante. Há sim alguns exemplos de episódios, bem esparsos, no qual se questiona a atitude que Jackie tomou durante determinados episódios (sendo, por exemplo, a sua saída para a Doubleday como a mais marcante, um pouco antes da metade do livro) mas, no final, a imagem que se forma é tão reforçada que acaba se tornando um pouco enfadonha.

Zamoyska-Panek comenta: “As pessoas meio que transformaram ela numa deusa neste pais, não é mesmo? Não entendo por quê. Ela era uma pessoa perfeitamente normal, e eu nunca consegui entender toda esta reverência. Ela tinha uma autodisciplina muito forte, uma capacidade de enfrentar os maus momentos, algo de que gosto pessoalmente, pois eu fazia a mesma coisa.” (pg. 283)

Lendo esta citação, somos atentados a outro fato: Jackie era nos Estados Unidos uma figura de maior impacto e significado simbólico que no Brasil, o que pode explicar a minha relutância em dar total autenticidade aos depoimentos. A imagem dela para o povo americano, considerando o contexto no qual esteve inserida durante a época, era a de manter a compostura em tempos difíceis, a de uma mulher-exemplo, e isso naturalmente influenciou não apenas na relação com as pessoas entrevistadas (muitas que, por sinal, a consideravam “a mulher mais famosa do mundo” durante suas citações), como seu próprio retrato ilustrado pelo autor.

Lawrence descreve cada um dos projetos editoriais mais importantes de Jackie, desde seus primeiros livros ilustrados, até o caso difícil da autobiografia de Michael Jackson, um episódio não muito agradável e, pelo que se pode julgar, deveras estressante. Naturalmente é difícil de manter todos os nomes na cabeça (ainda mais contando que muitas pessoas fazem alguns projetos e depois não voltam mais pelo restante do livro), mas não se pode esperar outra coisa de um livro tão pautado na realidade, em que de fato as pessoas acabam aparecendo algumas vezes com mais destaque e pelo resto ficam na sombra.

O livro é uma leitura interessante, ainda mais para quem se interessa por JKO, por um breve retrato de parte do mercado editorial ameriano, ou mais especificamente pela carreira de Jackie como editora de livros. O retrato pintado de Jacqueline Kennedy Onassis em Jackie editora é o de uma mulher inteligente, bem aculturada e relacionada, e indubitavelmente importante como pessoa e como símbolo – mas também alguém que enfrentou seus problemas, que tem seus objetivos e que tenta se afastar de uma imagem que os outros podem ter dela. E talvez isso acabe resultando em um retrato não tão humano de Jackie – fica-se a impressão, como comenta Zamoyska-Panek, de que há um certo endeusamento por trás dela.

É notável que o autor tenta desconstruir essa visão, e vários dos entrevistados também, ao apresentar seu lado mais humano; quando ela se emociona, com algumas passagens de humildade e uma bondade humana. Entretanto, o mais marcante de ser humano é o cometer erros, e, neste livro, uma imagem tão positiva de Jackie é formada que acabo tendo a impressão de que ela não parece tão humana quanto deveria, ou quão realmente foi em vida. Mas talvez  este seja o ponto: talvez ela não pudesse se dar ao luxo de se mostrar humana quando há paparazzi seguindo-a em todo lugar; quando se é uma figura pública de seu calibre; quando se é Jacqueline Onassis.

Ficha técnica

  • Tìtulo: Jackie editora: A vida literária de Jacqueline Kennedy Onassis
  • Título original: Jackie as editor
  • Ano de publicação: 2011
  • Edição lida: Record, 2014. Tradução de Clóvis Marques.
  • Número de páginas: 434

Bruno, 5 de fevereiro de 2014.

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