Extraordinário

capa-extraordinario_frenteExtraordinário é, bem, extraordinário.

Parecia um livro bonitinho na livraria. Como faz mais que eu com os livros bonitinhos, a Cláudia quis comprar e aí acabou levando e lendo há um tempo atrás. Falou que é lindo; fui ler; e adorei a experiência que esse livro me deu. É uma história de superação e crescimento, bem apropriado para as idades e estados dos personagens envolvidos, e a leitura foi fluida de modo que terminei em dois dias com apenas algumas horinhas de leitura.

August Pullman nasceu com um punhado de anomalias genéticas que, somando-se, causaram uma síndrome raríssima que torna o seu rosto algo não muito normal – ou bonito – de se ver. Ele é descrito uma ou duas vezes durante a narrativa, e dá para se ter uma ideia. Teve que lidar com o olhar de nojo (e, muitas vezes, medo), de crianças e adultos, jovens e velhos. Alguns tem medo de tocar nele, outros, já antecipados com o que devem ver, só hesitam momentaneamente. August (“Auggie”, para os íntimos) percebe, mas finge não perceber. Já está acostumado.

Auggie nasceu em uma família razoavelmente abastada e, devido a sua condição, passou a maior parte dos seus dias sem muito contato com as pessoas de sua idade. Seu universo é a sua família, a sua casa, a sua vizinhança, e suas inúmeras referências à cultura pop (principalmente Star Wars, série de filmes na qual é completamente fissurado). E, acima de tudo, August é completamente normal. É uma criança, com gostos e desgostos, preferências, birras, amor pela sua família, seus filmes favoritos, pelos poucos amigos que tem. Gosta de brincar, se diverte, e tenta viver o melhor possível a despeito do jeito como todo o resto do mundo te trata.

Talvez a única pessoa no mundo que percebe o quanto sou comum sou eu. (August, pg. 11)

Mas agora as coisas estão mudando. Seus pais querem e sugerem que ele comece uma escola. Educado em casa, nunca pisou em solo escolar antes, e está com medo e um pouco animado, ao mesmo tempo. O diretor da escola pede para que alguns alunos conhecidos pela gentileza o recepcionem na escola. O livro descreve este ano escolar de August, conforme ele vai aprendendo a lidar com as pessoas ao seu redor – e as pessoas ao seu redor aprendendo a lidar com ele. O que, como pode-se descobrir, não é difícil, quando você para de enxergar sua condição para enxergar a pessoa por trás dela.

Apesar de aceitar e admitir que existem critérios objetivos e absolutos que julgam o valor literário ou não de um livro, eu gosto particularmente de avaliá-los pela experiência que me proporcionaram. Claro que tal critério é completamente subjetivo e por isso carece da imparcialidade necessária para se dar como uma “análise de avaliação”, mas, como estamos em um blog meu para mim e etc, que sejam minhas opiniões subjetivas que valham. 

Não que Extraordinário não tenha seu mérito objetivo, mas a verdade é que eu jamais consigo apontar exatamente os critérios que fazem de um livro uma obra literária monumental e “clássicos instantâneos”, então prefiro play it safe e falar do que eu sei, ou seja, do que os livros me fizeram sentir. Mas, para todos os fins, a escrita é fluida, existe uma mensagem a ser passada e não de modo que fique panfletário, é engajante, fácil de se ler, prende o leitor, personagens divertidos e variados e há uma realidade nas narrativas juvenis que me marcou. Se isso não é bom, então, sei lá.

Porque, realmente, a despeito de tudo o que me atraiu no livro foi uma linda história de aceitação e superação, de crescimento; uma narrativa que envolve e nos faz importar com cada personagem. Um dos trunfos que achei cruciais no livro foi que ele não resume Auggie à sua síndrome – ele não é a disostose bucomaxilofacial encarnada, e nem pretende ser. Ele é uma pessoa, de carne e osso (na medida do possível em tinta sobre folha), e cresce como pessoa no ano letivo descrito durante a narração.

Um segundo fator que adicionou muito ao valor da história foi a adição de perspectivas externas à August. Não é apenas ele que narra a história, mas alguns seletos outros personagens, também, de idade mais ou menos similares: sua irmã, Olivia; seu amigo, Jack, entre outros. As perspectivas ajudam na hora de compreender não apenas Auggie, mas a sua influência nas pessoas ao redor e como eles o enxergam. Além, é claro, de elementos como a atenção excessiva que pode acabar sendo detrimental à outra pessoa; uma vertente comumente pouco explorada que adiciona uma textura de realiade à toda a coisa. Talvez tenha um ou outro que fosse quiçá desnecessário – mas isso não prejudicou o conjunto da obra.

Extraordinário capa revisao 03August é o Sol. Eu, mamãe e papai giramos em volta dele. O restante de nossa família e de nossos amigos são asteroides e cometas flutuando ao redor dos planetas que orbitam o Sol. (Olivia, pg. 89)

A capa é uma gracinha. Lemos a segunda edição (aquela lá em cima), baseada no original, mas também gostei da primeira que a Intrínseca usou para a primeira publicação no Brasil. O projeto gráfico, que imagino ser como o original americano, é bonitinho e dá para ver da lombada as páginas cinzas onde são trocados o ponto de vista. Foi uma leitura muito boa, uma experiência linda e tocante sobre crescimento. Auggie e seus amigos e família crescem muito durante o ano, e a diferença entre o final e o começo é palpável.

É triste, mas ao mesmo tempo é feliz.

Ficha técnica

  • Tìtulo: Extraordinário
  • Título original: Wonder
  • Ano de publicação: 2012
  • Edição lida: Intrínseca, 2013. Tradução por Rachel Agavino.
  • Número de páginas: 320

Bruno, 31 de janeiro de 2014.

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