Breve espaço

Breve-EspacoTerceiro livro do Cristovão Tezza que eu tenho a oportunidade de ler, Breve espaço me encantou de maneira que nenhum dos antecessores conseguiu. Ao ler meu primeiro livro dele, O filho eterno, provavelmente a sua obra mais aclamada, vencedora de enésimos prêmios literários e mesmo traduzido para diversas línguas, encontrei uma obra de boa leitura e que me fez experimentar sensações: partilhei até certo ponto o medo e a frustração do protagonista (que me parece ter requintes autobiográficos que me aproximaram da obra), mas não me deixou encantado como fico com alguns livros. Envolveu-me, mas talvez uma certa ansiedade, um nervosismo resultante da temática da obra (não consegui a momento algum deixar de imaginar como deve ser difícil me colocar no papel daquele pai), acabou com que eu não me entregasse por completo ao livro.

Mas, afinal, essa resenha não é de O filho eterno. Só não consigo deixar de comparar as leituras que fiz do mesmo autor, mesmo estas tendo dez anos de diferença. O filho é de 2007, enquanto Breve espaço foi publicado pela primeira vez, com o título “Breve espaço entre cor e sombra”, em 1998. Cristovão Tezza decidiu por uma mudança de título para a segunda edição, na qual ele revisitou seu eu de anos antes e deu uma polida em sua obra. E diz:

Nestes tempos performáticos, não seria mais autêntico (eis a palavra arrogante), deixar o livro exatamente como nasceu? Não sei. Depois de terminado, todo livro tem um certo espírito que não pode ser mexido sem, digamos, quebrar a porcelana. Revê-lo eve ser um gesto de arqueólogo: vá com cuidado. Apenas a superfície pode ser tocada, e somente para revelar o que (quem sabe) já estava oculto na velha forma.

Como não tive acesso à edição original, não sei até que ponto foram as polidas, mas encontrei nesse espírito de Tezza do século passado um encanto que, dessa vez, sim, me envolveu.

A história narrada é a de Eduardo “Tato” Simmone. Vinte e oito anos, pintor, vive do dinheiro da mãe (negociadora de artes em Nova York), dono de um apartamento respeitável e uma garagem improvisada em ateliê em Curitiba. Após a morte de seu antigo mentor, Aníbal Marsotti, com o qual Tato já não tinha tanto contato, ele precisa de um novo “mestre”: um referencial, alguém que esteja disposto a ver e discutir, criticar suas obras, colocá-lo como sua referência. Ele nunca conseguiu viver sem um mentor, e agora pode encontrá-lo na figura do misterioso marchand Richard Constantin, um senhor, velho e boa-pinta, com uma reputação deveras suspeita que lhe precede. Ao mesmo tempo, é abordado no próprio enterro de seu antigo colega, por uma mulher, pálida de cabelos bem pretos, que lhe diz que Aníbal sempre o apreciou como amigo e pintor. E já diz Constantin: cuidado, ela é uma vampira, e como fez com Marsotti, sugar-lhe-á o sangue até a última gota.

Este elenco de personagens excêntricos sobem ao palco para narrar a linha principal da história. Narrada em primeira pessoa, pelo ponto de vista Tato, somos apresentados à sua vida, à sua personalidade e suas dúvidas. Distante, nunca querendo se envolver demais, seguindo um conselho de seus pais, ambos desiludidos com relacionamentos, com pessoas e com o amor. Vive recluso em seu ateliê, pintando o que até então ninguém lhe disse que valia algo de bom. Encarando um dilema ao se ver melhor desenhista do que pintor, de fantasiar com relacionamentos que jamais vão acontecer.

(Uma nota: eu geralmente acho esse tipo de personagem um bocado pretensioso. Tato, no entanto, é praticamente um estereótipo do jovem artista, que sabe e admite que é pedante e complexado, a ponto de, no começo da história, ficar usando gravatas-borboleta como “marca registrada” – e isso antes do Doutor de Matt Smith, olha só. Achei divertido.)

Ao mesmo tempo, interligados com os capítulos, está uma carta de uma antiga “paixão de um dia”: uma mulher italiana que Tato conheceu por apenas um dia em Nova York, durante uma visita à sua mãe, e que trocaram cartas desde então. Nunca aconteceu nada demais entre os dois além de uma tarde no museu e em cafés pela cidade. Nessa última carta, uma carta de capítulos, redigida em italiano e traduzida por uma professora para Tato, ela põe o jogo em aberto, e confessa o que só pode ser confessado com um oceano de distância e uma perspectiva de jamais ser respondida: suas inseguranças e ansiedades, o que sentiu durante todo o encontro, o que alimentou durante o ano em que trocaram cartas, seu relacionamento fracassado com um quase-marido.

A carta da italiana, dividida em várias partes durante o livro, dá pinceladas poéticas pela história do pintor. Vemos Tato com outros olhos – os dela -, uma segunda perspectiva segunda que vem a calhar em Breve espaço e, sinceramente, as minhas partes favoritas do livro.

Você deveria saber que há uma responsabilidade tremenda em quem é capaz, pela gentileza do desenho e pela suavidade do traço, de criar tamana dependência emocional. Eu sei: em carne e osso somos muito mais difíceis; isso que se cama realidade, tudo que nos toca a pele e ocupa espaço, o breve espaço entre cor e sombra que deveria ser nosso, é sempre um estorvo – as coisas e as pessoas, sem dstinção, nos empurram contra a parede, não é assim? (Você usou uma expressão parecida, que em inglês soou engraçada e que me lembrou pelotão de fuzilamento.)

O ritmo do livro é um pouco lento, tendo suas 350 páginas se passando em uma semana (metade no primeiro dia da semana, 1 terço no último, o resto no meio), cheio de introspecção do narrador e das cartas italianas que tecem na narrativa uma segunda voz refrescante. Mesmo assim, cheguei a me apegar aos personagens, cada um com sua própria natureza exótica, com uma atmosfera na narrativa que, dessa vez, realmente me encantou.

Ficha técnica

  • Tìtulo: Breve espaço
  • Título original: Breve espaço entre cor e sombra (alterado pelo autor para a segunda edição)
  • Ano de publicação: 1998
  • Edição lida: Record, 2013. Segunda edição revista.
  • Número de páginas: 350

Bruno, 27 de janeiro de 2014.

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2 comentários

  1. Bacana sua resenha. Vou comprar o livro. Quero começar a ler os livros do Tezza pelos primeiros… Quero “sentir a evolução” do autor! Abraços do Wagner

    1. Acho super válido começar pelos primeiros. Eu acabei começando pelo mais famoso, voltei atrás no tempo e acabei gostando mais do livro anterior. A trajetória do autor parece realmente interessante, e ele diz como foi ganhando voz através do tempo em sua autobiografia literária “O espírito da prosa”. Depois não se esqueça de falar o que achou! Ainda estou com uns livros dele aqui para ler.

      Obrigado pelo comentário!

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