Lituma nos Andes

Lituma nos AndesEssa foi uma leitura que não me conquistou de primeira. Comecei a ler Lituma nos Andes em setembro do ano passado, mas parei logo no final do primeiro capítulo, quando recebemos pelo correio Kafka à beira-mar e eu resolvi dar prioridade para a outra (tampouco curta) leitura na qual eu já tinha mais interesse.

Como já se passavam mais de três meses desde a última vez que eu abria essas páginas, resolvi começar de novo. Mais uma vez, o livro demorou a me conquistar, a leitura a engatar. Não foi antes de quase metade da leitura que Lituma nos Andes conseguiu me prender, mas quando o fez…

A história narra a estadia do cabo Lituma e seu imediato, Tomas Carreño (também chamado de Tomasito ou Carreñito, dependendo do personagem), no posto de Naccos nos idos dos Andes, durante a década de 80. Três desaparecimentos chamam a atenção das duas autoridades, que suspeitam que o caso esteja relacionado à revolução dos “terrucos” do Sendero Luminoso (o Partido Comunista do Peru).

Ao mesmo tempo, temos algumas narrativas diferenciadas entrando e se permeando no volume: a história de Carreño sobre o amor que perdeu algum tempo antes de ser mandado aos Andes, que o assombra até hoje; a história de um exótico-quase-paranormal casal de moradores daquele vilarejo, contado do ponto de vista da mulher; e algumas histórias de figuras que acabam topando com os senderistas durante algum assunto que tinham a resolver nos Andes.

Algo que chama a atenção no livro, e o que particularmente me cativou, foi a multiplicidade de vozes decorrente destas várias narrativas. Os personagens tem suas personalidades delineadas e o seu jeito de narrar a sua parte é característico. O modo com que Vargas Llosa vez ou outra mistura as narrativas – o que pode até mesmo causar atenção em um ou outro leitor – dá à prosa ares até meio oníricos. O modo com que Vargas Llosa brinca com os espaços e os tempos das histórias chega a deixar uma sensação surreal em algumas passagens.

A edição é bem feita, seguindo o padrão gráfico de diagramação da Alfaguara, do qual eu particularmente gosto bastante. Apesar de não ter entendido muito bem a capa (e minha primeira impressão ao ver o livro, antes mesmo de pegar a quarta capa para ler, foi que Lituma era a garota representada… nos Andes!), não deixa de ser uma ilustração bonita.

Tocando assuntos como a alienação revolucionária às ideologias, a entrega (ou não) a crenças ancestrais, e a separação mental entre a costa e a serra do Peru, fez-se uma leitura bem interessante. Entretanto, a apresentação dos senderistas acaba se tornando quase unidmensional, talvez caricata. Vemos apenas a parte mais alienada da facção, sendo alienados com sua forte dedicação ideológica e sua insistência em não ouvir clamores lógicos de suas vítimas. Creio que essa apresentação (talvez meio desonesta, unilateral) dos revolucionários possa ser decorrente da própria inclinação ideológica do autor (que se tornou declaradamente centro-direitista após ficar desiludido com a Cuba de Castro). Não sei até que ponto posso falar disso porque desconheço a história e métodos senderistas, mas o fato deles só aparecerem como algozes clamando pela justiça do povo me parece uma caricatura ideológica de um movimento.

Apesar do começo quiçá lento, Lituma nos Andes me conquistou pela segunda metade. Conforme fui conhecendo mais dos personagens e apreciando mais as suas dinâmicas de relacionamento, a leitura foi se tornando mais fluida e aproveitável. E eu já sinto falta dos personagens.

Ficha técnica

  • Tìtulo em português: Lituma nos Andes
  • Título original: Lituma en los Andes
  • Ano de publicação: 1993
  • Edição lida: Alfaguara, 2011. Tradução por Paulina Wacht e Ari Roitman
  • Número de páginas: 270

Bruno, 25 de janeiro de 2014.

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